20070704

O partido do Norte: outra visão das coisas

O assunto e os comentários que mereceu o post de António Alves, um pouco mais abaixo, impelem-me a intervir sobre o mesmo assunto. Não quero ser desmancha prazeres, que a discussão vai entretida, mas queria afirmar com clareza: DISCORDO.

Não penso que o problema seja o de criar um partido pró-regiões, seja do Norte ou não. O problema verdadeiro é o de fazer subir a "regionalização" (leia-se descentralização a sério) na ordem de prioridades da agenda política nacional.

A minha razão de fundo é a seguinte: não se trata de defender os interesses do Norte. Trata-se de defender os interesses do País.

Ora, como os últimos tempos tem demonstrado à evidência, os interesses do País tal como concebidos pelo "centro" (leia-se, centros decisórios políticos, seja partidários seja governamentais) NÃO são benéficos para a generalidade do País. Creio mesmo que tem sido prejudiciais à própria capital, pelo menos na medida em que permitiram o seu desenvolvimento desordenado na maioria dos concelhos limítrofes em detrimento da qualidade de vida na cidade, e, porventura mais importante, na medida em que aumentaram o distanciamento entre a elite nacional e a realidade sócio-económica da maioria dos cidadãos - como exemplo citaria apenas a insustentabilidade dos salários pagos nas empresas municipais e a excessiva generosidade dos salários pagos a altos dirigentes das empresas privatizadas que continuaram na órbita do Estado. Mas há mais. Nomeada e principalmente nas eficiências do Estado; basta pensar no que gastamos per capita em ensino, justiça e saúde - com a correspondente elevada carga fiscal - para os fracos resultados que vamos conseguindo em qualquer uma dessas áreas...

Por conseguinte, creio que o papel do Norte, e do Porto em particular visto que é a segunda cidade do País, seria o de assumir a liderança por uma outra forma de conceber os interesses do País, que é como quem diz o interesse nacional.

Por exemplo contrapondo projectos de obras-públicas alternativos aos que o centro vai apresentando como únicos. Alguém no Norte se lembrou de propor ao País que o aeroporto plataforma de que a TAP diz precisar, se situasse no Norte? Assim libertando a Portela para mais umas décadas, passando este a ser um aeroporto mais focalizado na cidade/metrópole que serve? (Claro que o "preço" seria o de o principal aeroporto internacional do País se situar fora da capital, mas isso é precisamente o que acontece, por exemplo, na Alemanha, ou na Holanda, ou em Itália... e seria até uma fórmula para promover algum reequilíbrio de muitas outras coisas correlacionadas...)

Ora, para promover essa outra visão do País não é necessário qualquer novo partido pró-regionalização. O que é necessário é que os líderes do "resto do País" - a tão famigerada "paisagem" da capital - assumam e protagonizem essa outra visão. E a imponham nos vários níveis de formação da agenda política nacional - partidos, autarquias, poder central, etc, etc.

Numa nota optimista, diria que, pelo menos em parte, isso até já estará a acontecer. Veja-se o que se vai passando na blogosfera. Ou a cada vez mais presente consciência de que, nomeadamente no que respeita às mega-obras-públicas pseudo-salvadoras do futuro nacional, o modelo centralizado de desenvolvimento do País, pura e simplesmente, está esgotado.

Acresce que não acredito em soluções milagrosas pensadas por qualquer núcleo restrito de iluminados. Pessoalmente creio que o essencial é LIBERTAR as pessoas, cidades e regiões para a possibilidade de encontrarem as melhores soluções. Necessariamente diferentes de umas para outras. Com a consequente possibilidade de, a prazo, se replicarem as melhores soluções e se eliminarem as piores - que é a essência da concorrência, não é verdade?

5 comentários:

Jose Silva disse...

Caro Ventanias,

A existência de facções pró-desenvolvimento desconcentrado de Portugal dentro dos partidos actuais, teoricamente, também funciona... Porém a prática dos últimos 33 anos revela o contrário...

Anónimo disse...

e eu digo com clareza: DISCORDO desta opiniao do Ventanias.

Apoio totalmente a criação de um movimento partido regional que possa cuidar dos interesses exclusivos do norte. Olhemos para a Espanha e vemos como funciona na perfeição. As Regiões lá estão muito mais desenvolvidas.

Não tenhamos medo.

António Alves disse...

"Alguém no Norte se lembrou de propor ao País que o aeroporto plataforma de que a TAP diz precisar, se situasse no Norte?"

Passando, por agora, por cima das restantes questões levantadas pelo seu post, há uma pergunta que é mister fazer: porque raio hei-de eu (através dos meus impostos) pagar um aeroporto plataforma à TAP? Não é a TAP uma sociedade anónima em vias de ser privatizada? É! Então que pague do seu próprio bolso o aeroporto que diz precisar. Existem especialistas que dizem até que Portugal tem capacidade aeroportuária instalada em excesso. A questão está em redistribuir o tráfego pelos restantes aeroportos e não priviligiar nem a TAP nem a Portela. Quando muito Lisboa precisará dum pequeno aeroporto complementar ao actual.

Ventanias disse...

Absolutamente de acordo, caro António Alves. Mas isso é também fugir ao meu ponto: a verdade é que o Governo se prepara para oferecer um aeroporto plataforma à TAP; portanto, creio, é pertinente fazer a pergunta que fiz. Ou não?

Ventanias disse...

Caro José Silva,

É verdade que em todos os partidos há facções pró desconcentração (organismos do estado distribuídos pelo País). Mas eu falei de uma outra concepção do Estado: a descentralização, com regionalização ou não. Aí trata-se de pensar o Estado e as suas funções de outra maneira. Na minha opinião, na única que verdadeiramente interessa. Ou seja, criando as instituições para as pessoas e para os seus problemas, confiando na capacidade delas para os resolver. Portanto, anti-centros iluminados que decidem por nós.

Tentei ainda levantar uma outra ponta deste véu. Parece-me que cumpre ao Norte, e ao Porto em particular, liderar esse processo de pensar o País diferentemente e bem assim de apresentar propostas dessa outra visão ao País, que mais não seja para termos alternativas ao centro. E isso, creio, é o aspecto em que o Porto se deixou desaparecer. Os seus filhos ou se rendem ao poder central ou desistem de pensar o País. É contra isso que batalho.

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