20070727

EMPREEENDEDORISMO, VERSUS ESTADO

Uma questão que muito me intriga e leva a torcer o nariz à iniciativa privada como alternativa credível ao Estado para o desenvolvimento regional e social do país é, entre outros aspectos, o carácter egocêntrico - quase genético - dos seus protagonistas.

Todos sabemos, que o lucro e apenas o lucro é a motivação exclusiva orientadora das acções do empresariado. Questões de ordem social e humana raramente merecem apontamento de relevo na agenda dos seus investimentos deixando (consciente ou inconscientemente) para o Estado essa tarefa, talvez por terem assimilada a ideia que é a este que compete resolvê-las.

Daí, não perceber muito bem o entusiasmo desta nova vaga de partidários em torno do empreendedorismo como alavanca capaz de superar as tarefas mais vocacionadas para o Estado, sobretudo num país onde a população está económica e socialmente muito carenciada. Não o esteve, é certo, em termos de burocratas e foi asfixiada por números excedentários de funcionários públicos sem que tal traduzisse um melhor serviço público, mas o problema foi precisamente esse (excesso de tachos).

A iniciativa privada tem de funcionar naturalmente e pode servir em muitos casos como um óptimo complemento às funções reservadas ao Estado, mas na essência, não tem perfil cívico nem ético para o substituir. De mais a mais, num país como o nosso, onde os padrões de civismo deixam tanto a desejar e o oportunismo é quase epidérmico, não estou a ver quais seriam os benefícios.

EXEMPLO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL

De Belmiro de Azevedo a Américo Amorim (empresários do Norte, de sucesso), nenhum deles foi capaz de investir na Comunicação Social a sério. O primeiro, tem o "Público" (sediado no Porto, mas dirigido na capital) e depois tem a Rádio Nova, que deixou parar no tempo. Na Televisão, nada. E todos sabemos a importância que teria para a região se o tivesse concretizado, com a mesma habilidade que semeou hiper-mercados e telemóveis. Amorim, ainda foi pior.

Hoje, no JN, vem a notícia de mais um homem do Norte (mas pouco preocupado com ele), de seu nome Joaquim Oliveira e dono da Controlinveste, grupo que engloba o JN, Diário de Notícias, 24 horas, O JOGO, TSF e Sport TV, apostado em lançar no mercado mais um jornal generalista, agora gratuito, o "Global Notícias".

Pois é, aqui está o paradigma das vantagens da iniciativa privada: sucesso económico-financeiro sim, mas quase todo concentrado na região de Lisboa, à excepção do jornal "O Jogo" que tem sede no Porto mas mesmo assim não abdica de publicar uma edição especial para o Sul (não fosse o diabo tecê-las)...

Com estes exemplos, não sei porque razão havemos de acreditar nas mais valias da livre inicitiva para o desenvolvimento regional, a não ser para os bolsos dos seus autores. Na melhor das hipóteses, imaginando um quadro imprevisível em que o Norte viesse a tornar-se rico e próspero, nem mesmo assim acredito que conseguisse passar o limiar da subalternidade, face à influência do 4º. poder metastizado na capital






5 comentários:

Pedro Menezes Simoes disse...

A função das empresas é a criação de riqueza. A do Estado é agir nas condições de contexto (ex. formação, transportes, segurança), para além das funções sociais.
O que se pede do estado é que melhore as condições de contexto e seja justo e adequado na redistribuição de rendimentos. Para além de não desperdiçar recursos públicos.

Ora, em Portugal, o que se passa é que o Estado está convencido que a sua função é a de criação directa de riqueza, ou de "subsidiação" à criação directa de riqueza. O resultado salta à vista: prolifera o clientelismo centralista, que conduz à pobreza, e o Estado alheia-se do efectivo e eficaz cumprimento das suas funções de melhoria das condições de contexto e redistribuição.

As empresas localizam-se onde lhes é mais vantajoso. Num país em que o Estado é simultaneamente legislador, árbitro, jogador, financiador e cliente, e em que o Estado absorve/redistribui 45% da riqueza produzida, o resultado só pode ser um: as empresas procuram permanentemente a cumplicidade do Estado para garantir o seu favorecimento.

Defender um modelo em que o Estado tem funções de criação riqueza resulta sempre no centralismo. Num cenário de regionalização, o resultado não será diferente.Será apenas uma dispersão do centralismo. Embora em qualquer dos casos, uma distância de 50 kms em relação ao centro não seja muito relevante.

Também neste cenário (de Estado "criador de riqueza"), só existirá um modelo de desenvolvimento regional viável. O da redistribuição permanente. Mas sinceramente prefero pertencer a uma região em que o dinheiro que se gasta provem da sua própria criação de riqueza...

Pedro Menezes Simoes disse...

Em resumo, do meu ponto de vista, não se trata das empresas substituirem o Estado, mas do Estado tentar substituir as empresas. Isso não funciona.

Rui Valente disse...

Não consigo ler no meu comentário nenhuma alusão ao Estado como criador de riqueza. O que digo e repito é que aos Estado devem pertencer iniciativas de âmbito social e humano. O que deve é ser devidamente controlado pelos poderes públicos (todos nós) de forma eficiente.
Não acredito que o empresariado faça melhor que o Estado. Se uma empresa falir é mau, mas é apenas uma empresa que morre. Com um Estado disfuncional e falido, a anarquia propaga-se e é o país que pode morrer.

CCz disse...

"Todos sabemos, que o lucro e apenas o lucro é a motivação exclusiva orientadora das acções do empresariado. Questões de ordem social e humana raramente merecem apontamento de relevo na agenda dos seus investimentos deixando (consciente ou inconscientemente) para o Estado essa tarefa, talvez por terem assimilada a ideia que é a este que compete resolvê-las. "

O estado já nos suga o tutano, sob o pretexto da redistribuição. Depois como a redistribuição não funciona, porque o próprio estado consome o que saqueia aos impostados, espera-se que os impostados resolvam o problema da redistribuição?

Anónimo disse...

o norte tem sempre os melhores empresarios do país, é algo genético, a nossa maior capacidade economico-empresarial em relaçao aos mouros.
mas é pena que depois o sistema nos lixe..
regionalizaçao é urgente.. e mais.. independencia..

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