20070730

É sobre provincianismos...

José Silva,
Bem que gostaria, tão cedo, de evitar as futebolices, mas como constatará, esse maldito está quase sempre presente na vida dos portugueses e não é tão irrelevante como imagina. Além disso, se o povão (do Porto e de Gaia, mas não exclusivamente) não fosse manipulado pela comunicação social preferencialmente pelo lado pior do futebol, talvez então por esta altura estivesse um pouco mais politizado e combativo. Mas mesmo assim, não nos iludemos nem pensemos que anda a dormir na forma (como parece), porque se lhe for dada voz, talvez tenhámos surpresas agradáveis...
Como sabe, aprecio futebol, mas, como a minha própria intervenção neste blog o comprova, não é por isso que deixo de me preocupar com assuntos mais importantes como é o caso da crise que assola a nossa região e que, afinal de contas, esteve na génese do Norteamos. Como eu, felizmente há muitos mais, mas quantos deles (provavelmente a grande maioria), terão instrução e condições económicas para acederem a um computador e depois à Net? O realismo que evocou, também deve ser considerado por este prisma.
Mas, titulei oportunamente de "provincianismos" este post para, lhe dar mais um exemplo de onde ele realmente nasce, cresce e emana, e como pode potenciar rivalidades insanas nesse "obscuro" mundo que é o futebol ...
Um conhecido jogador do Benfica recentemente transferido para o futebol espanhol, mereceu da parte da televisão pública e privada uma cobertura tão grande e abrangente, que em defesa do direito à preservação da sanidade mental pública não poderá ser excessivo adjectivá-la de: bacôca, parôla, ridícula e esbanjadora.
Foram todos os canais, mas só a SIC, fez um autêntico romance melo-dramático (houve lágrimas e tudo) com a sublimidade do acontecimento, abrindo com ele o jornal da tarde - onde consumiu à vontade 17 minutos numa 1ª. fase e cerca do mesmo tempo pouco a seguir - e fechando o Jornal da Noite também. Observe-se bem: sem o pedirmos nem desejarmos, ficamos todos a conhecer a família completa do jogador em questão, só faltando mesmo saber de que raça e côr seria o cãozinho de estimação da sua avozinha...que também nos foi apresentada.
Não imagino bem quanto a SIC (ou qualquer outra estação de TV) cobrará o 'segundo' por um spot publicitário, mas fazendo um cálculo aleatório a 100,00 € por segundo (deve ser muito mais), multiplicado à meia-hora dedicada ao tema teremos: 1800' x 100,00 € = 180 000, 00 €). Cento e oitenta mil euros de publicidade gratuita feita a um jogador e a um clube, apenas porque se transferiu para outro! Admitindo que o valor acima estimado é ainda assim baixo, podemos extrair uma certeza, que é a de ficarmos a saber que o tempo da SIC pouca valia tem para o desperdiçar desta forma. Um alerta portanto aos residentes que eventualmente tenham negócios do género com a estação e uma boa oportunidade para reclamarem uma boa rebaixa na tabela de preços da publicidade, porque a avaliar pela amostra, o tempo da SIC não vale grande coisa...
Ora, onde reside afinal a importância de assinalar este tipo de situações ligadas ao desporto e ao futebol em particular? Em primeiro lugar, por tudo aquilo que expliquei no parágrafo anterior. Em segundo, por ser um exemplo claro e inequívoco de provincianismo básico e abastardado (que não parte do Norte). Terceiro, para se entender como é diferente o comportamento dos orgãos de comunicação social lisboetas perante um mesmo facto, mas com protagonistas diferentes... Em último lugar, por destacar a sobriedade com que foi noticiada a transferência de outros jogadores de um outro clube (O FCP), por valores bastante mais elevados para clubes estrangeiros de muito maior prestígio (Manchester United).
Pela minha parte e para que não saia já a terreiro alguém a desencantar do "utilitário" baú dos complexos nortenhos, típicas e convenientes invejinhas para com o Sul como razões destes meus argumentos, quero informar desde já que prefiro - apesar de não ser por uma boa razão - a sobriedade informativa (não confundir com omissão) dedicada ao clube da minha afeição, do que a notícia terceiro mundista e pirosa que a capital dedica aos seus símbolos desportivos. Primeiro, porque os nortenhos não são pirosos e depois porque factualmente nessa matéria, os bons, somos mesmo nós. O que é pena, é que confundamos muitas vezes as coisas e insistemos a invertê-las em causas dos nossos problemas. Tanto a montante como a jusante.

7 comentários:

liborio disse...

mas agora só se fala de futebol, por aqui. Pensei que era o "norteamos", mas afinal é o "norte desportivo"...

josé manuel faria disse...

É o mercado a funcionar, já ouviu falar disso!!!

Rui Valente disse...

Descanse que não se fala só de futebol não, mas saiba que as vigarices para mim não têm sectores de actividade. Incomodam-me todas, venham elas "equipadas" de futebol ou de outro "prato" qualquer.

Quanto aos 3 grandes, pode ser o mercado a funcionar, mas é um mercado viciado por parâmetros viciados. Como na política, em DEMOCRACIA governa e tem os holofotes quem ganha eleições. No futebol rejeita-se este princípio e mandam as simpatias dos orgãos de comunicação lisboetas. No caso do FCP,não se pedem favores especiais, pede-se apenas respeito a quem o merece porque vence campeonatos. Apenas isso.

liborio disse...

Pois é, josé manuel faria. Mas como o mercado funciona, não me espanta a correlação que aqui se verifica no "norteamos": o número de posts futebolísticos aumentou, o número de leitores reduziu. Discursos para dentro só atraem os do costume, e não dão frutos.

Não vejo em que é que falar da transferência do simão (até no norteamos lhe dão publicidade...) ajuda ao norte. Se acham que é a puxar pela clubite que se vai lá...a mim não me parece. Mais vale puxar pela racionalidade, e trazer outros temas, ou pelo menos outros exemplos. Porque se os unicos exemplos que se arranjam são do futebol, então a região nem está tão mal quanto isso e o centralismo é só centralismo futebolístico. E com esse eu posso bem: não me afecta o bolso.

E se acha que são os holofotes que ganham campeonatos, não vejo porque ganha tantos o Porto. Na verdade os holofotes só lixam o benfica, pois estão sempre a desestabilizar a equipa e a minar a sua força psicológica, ora sobrevalorizando os jogadores, ora desprezando-os. Mas se isso o chateia, é bem mais eficaz mudar de canal e enviar umas cartas à SIC (que é uma televisão privada), do que protestar num blogue. Ao menos apele ao protesto.

Anónimo disse...

não demorou muito a perceber as dores dos libórios que por aqui esfregam a frustração. É o espelho da região... Ressabiados a fazer a defesa dos colonizadores

Rui Valente disse...

Eu não disse que são os holofotes que ganham campeonatos. Leia bem por favor. Já leu, outra vez?
O que quis dizer (e agora não tem como não o compreender)é que os holofotes num país democrata e sério apontam-se para os vencedores e não para os vencidos.
Quanto ao resto, vou continuar a escrever o que entender desde que o ache pertinente, mesmo que isso o incomode, como pelo visto parece incomodar.

liborio disse...

"O que quis dizer (e agora não tem como não o compreender)é que os holofotes num país democrata e sério apontam-se para os vencedores e não para os vencidos."

Percebido.

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