20070611

Polémicas ambientais

A questão do afastamento total das autarquias das decisões a tomar nas áreas protegidas levou os autarcas dos municípios com território classificado a ameaçar recorrer aos tribunais. A polémica entre o Instituto de Conservação da Natureza e as autarquias locais sob o controlo das áreas protegidas merece uma reflexão. Esta medida insere-se mais uma vez na filosofia de centralização de serviços que este governo advoga, cujo único objectivo será o economicista, isto é poupar com medidas que penalizam particularmente as regiões limítrofes.

Partindo do principio que nada terá validade na área do ambiente sem a colaboração das populações locais, nesta problemática, para além de outros, que haverá, permitam-me três ângulos de análise. Primeira: a relação do homem com a Natureza na chamada província foi sendo pautada por um certo equilíbrio e este foi desfeito sempre que factores externos se intrometeram. Deu brado a introdução do pinheiro bravo nas regiões transmontanas e beirãs no início do século passado, face a uma posição hostil das populações autóctones que viam na medida a diminuição dos pastos, essenciais a uma agricultura de subsistência. Os incêndios florestais e o desaparecimento de árvores autóctones foram as duas maiores consequências nos tempos de hoje, Mais tarde a mudança do paradigma de agricultura familiar para a dita empresarial introduziu novas formas de cultura, como sejam as frutícolas que tiveram de recorrer a herbicidas e pesticidas que subverteram todo o equilíbrio ecológico, cujo impacto ainda hoje está por avaliar de uma forma exaustiva. Segunda: A política dos sucessivos governos tem levado ao despovoamento do interior. Por parte da administração central e regional ainda não houve respostas capazes para a partir desta realidade se fazer um reordenamento florestal e ambiental sério do território. Por último a transformação como se pretende do interior numa grande reserva terá de ter compensações para os que ficam. Quem por cá "resiste" terá de ser “compensado” pelo conjunto de “impossibilidades” que lhe são impostas face à necessidade de preservação do espaço em que vivem.

A protecção dos ecossistemas é vital ao futuro da humanidade, contudo os que não os preservaram (regiões mais humanizadas e povoadas) terão de contribuir a quem exigem uma atenção ecológica. Nesta questão cresce a minha irritabilidade ao chamado radicalismo ecológico, pois o meio ambiente só terá sentido se o homem tiver possibilidade de o fruir. Não faz sentido criar espaços onde ninguém possa entrar para além de meia dúzia de privilegiados.

2 comentários:

Pedro Menezes Simoes disse...

"A protecção dos ecossistemas é vital ao futuro da humanidade, contudo os que não os preservaram (regiões mais humanizadas e povoadas)" arrogam-se ao direito de dizer aos outros como devem preservar os seus ecossistemas, alocar-lhes os custos dessa manutenção, mas impedí-los de usufruir economicamente das actividades que permitem manter os sistemas em equilíbrio.

Seria engraçado ver as populações de montesinho a impedir os lisboetas de tomar decisões sobre a sua cidade, sobre o que se constrói ou não, sobre onde fica o novo aeroporto...

Jose Silva disse...

Efectivamente tem razão. O Interior não pode ser uma reserva ecológica de uso exclusivo dos decisores de Lisboa. É necessário também espaço para o (pouco) desenvolvimento que vai existindo.

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