20070918

Porque será que a produtividade do Norte é menor do que a de Lisboa ?

Na sequência do post da EA, deixo alguns comentários:

 

1. Produtividade = Valor da produção por hora de trabalho (Wikipedia). Portanto, não confundir com quantidade física de trabalho produzido... É preciso ter em conta o valor do trabalho produzido, o preço do bem ou serviço vendido, e portanto o sector económico onde se actua ! Produtividade está então ligada à rentabilidade de um negócio... Isto é muito importante. Bill Gates não trabalha 24 horas por dia, mas provavelmente é um dos trabalhadores mais produtivos do mundo... Belmiro, idem.

 

2. O Norte é a 4ª região menos produtiva da Europa a 15. Interessante é que na região mais produtiva (rentável) per capita da Europa a 15 (Luxemburgo), cerca de 30% dos seu trabalhodores não nortenhos... Portanto, também não há genética ou raça ou outras variantes «suevas» a influenciar a produtividade ...

 

3. A Produtividade é medida pelo PIB regional sobre população activa. Ora se este PIB estiver sub-avaliado por causa da economia informal/sub-facturação, o PIB per-capita fica sub-avaliado. Isto é uma pista para explicar porque é que no Norte existem muitos VW, BMW, Audis, Mercedes e afins na posse da classe média...Esqueçam o esteriotipo dos Ferraris de Felgueiras... Nota: Uso regularmente VW Passat.

 

4. Mas importante é explicar como Lisboa é mais produtiva que o Norte. O próprio post já refere que «a crescente concentração da população e actividade económica em torno das capitais pode, a longo prazo, constranger o crescimento económico geral». É uma primeira explicação. Mas a essencial é que o Estado Central conduz(iu) uma política micro-económica que delibeadamente favoreceu a região de Lisboa, concentrando lá as actividades que nos últimos 20 anos da conjuntura económica, globalização e adesão ao Euro, se anteviam de maior rentabilidade/produtividade:

·         A Auto-europa e esforço para que cluster dos componentes para automóveis migre para sul;

·         Serviços financeiros e telecomunicações, por natureza abrigados da concorrência internacional, que migraram do Porto para Lisboa pelas mãos de Cavaco Silva e que não querem cá regressar como demonstra a OPA estatalmente abortada sobre a PT;

·         A actividade editorial, comunicação social e publicidade, também abrigada da concorrência internacional, tem sido drenada quer devido à acção de empresas públicas (NTV, RTP-Porto, obstáculos ao arranque do Porto Canal), quer devido a decisões de privados (JN pré-Joaquim Oliveira, back-office do Público sedeado em Lisboa, compra de editoras portuenses por Paes do Amaral, etc);

·         O sector turístico, também protegido da concorrência asiática, onde o Estado Central continua a beneficiar os agentes do sector de Lisboa, como António Alves aqui refere;

·         O sector da I&D, actividade sofisticada pela sua própria natureza, onde 70% dos subsídios estatais se concentram na região da capital, assim como os 19 laboratórios do Estado;

A maior produtividade de Lisboa, não se deve às especiais capacidades dos lisboetas, como todos intuimos. Deve-se sim à melhor antecipação do futuro económico que os agentes de Lisboa realizam e à capacidade que tem de manipular o Estado Central em benefício próprio. Com todas estas medidas de apoio aos sectores mais produtívos e rentáveis na zona de Lisboa é natural que a produtividade deles seja maior que a nossa. Por cá ficam os sectores que tem que concorrer com os salários chineses ou afectados por um euro em valorização. Algumas excepções são uma gota no oceano.   

 

6. A solução para o aumento da produtividade a Norte passa por resolver a questão da economia informal e por perceber que a Estrategia é uma componente importante nas decisões individuais, das organizações e das regiões. Cabe a cada um de nós, a cada momento, compreender a economia e conseguir evoluir as capacidades profissionais, competencias empresariais e especialização regional para sectores que a cada momento permitam elevadas margens de venda e portanto alta produividade. Falta Norte, portanto.

 

PS: O artigo do JN, sem o enquadramento que aqui dei, parece a vergonhosa propaganda anti-Norte da época pré-Joaquim Oliveira. O JN precisará de uma actualização norteadora ? Podemos ajudar.

8 comentários:

Espectadora Atenta disse...

Caro José Silva
Agradeço o seu "reforço" e tudo o que explicou é verdade. Porém isso dos carros BMW etc, é muita fachada pois se vir o boletim estatisco do Banco de Portugal e os mapas de endividamnto das familias repara que no Norte o cenário é calamitoso!
O que falta ao Norte é uma visão empresarial menos miope e mais centrada no desenvolvimento regional. Factores de competitividade como o turismo são um exemplo de como é possível o norte sair do marasmo económico em que se encontra.
Não se trata da notícia ser de propaganda anti norte, isso para mim não interessa nada... é por esses regionalismos bacocos que o Norte não consegue ter credibilidade para impor as suas directrizes... Porque logo se confunde o Norte com fulano A e B que representam (e muito mal) a imagem dop Norte porque usam em vão o nome do Norte para manipular as massas...
Tenho vindo a dizer há muito neste blogue que é urgente uma estratégia clara sobre a política económica a Norte de Portugal. Acho que isso cada vez é mais evidente.

Jose Silva disse...

Cara EA,

O JN era até J.Oliveira um jornal que fazia troça do Norte.

As estratégias são definidas pelas empresa e particulares. As estratégias pelo Estado só em Lisboa e na antiga URSS...

Anónimo disse...

Corroboro a opinião do José da Silva.
O Norte perdeu compettitividade porque muito do tecido empresarial baseava-se em mão-de-obra e produtos competitivos em vários mercados. Assistiu-se ao deslocamento de sedes de empresas, serviços e à perda de competitividade de produtos produzidos, acrescida de uma enorme perda de mercados. No fundo, só as empresas com capacidade de se imporem pela qualidade se conseguem impor. Para rivitalizar o Norte é necessário investir em qualidade. Hoje, só a qualidade se impõe.

João Moreira

Pedro Menezes Simoes disse...

Não será o maior problema do Norte a falta de qualificação da mão de obra? (para além da drenagem da mão de obra qualificada?)

Jose Silva disse...

Pois Pedro,

Falta de MDO qualificada a preços competitivos e empreendedores com capacidade de criarem VA sem se importarem com BMWs...

Tudo isto exige muita capacidade/maturidade !

sguna disse...

A meu ver, a situação deve-se à falta de visão/estratégia dos últimos 20 anos, como foi referido. O modelo para atrair investimento era a mão de obra barata. E é isso que continua a ser feito com os IKEAs e afins. Andar a empilhar prateleiras ou a produzir t-shirts para a ZARA, não nos leva a lado nenhum. Após 20 anos de fundos comunitários, estamos ao nivél da Rép. Checa!!! Eu se fosse alemão, pedia o dinheiro de volta! O QREN mais o plano A e o plano B, a meu ver têm mais paleio que outra coisa... o costume.

Vitor disse...

o problema da produtividade nao esta nos trabalhadores, mas sim na gestao e nos gestores.
No centro a maior parte das fabricas e empresas ou sao de nortenhos (dos bons, que conseguiram um grande sucesso na sua empresa e por isso mudaram-se para a capital) ou de estrangeiros, especialmente nordicos, que sao bem conhecidos por ter uma boa gestao que rentabiliza a produçao (por isso a esmagadora maioria das multinacionais sao de empresarios nordicos e quem esta à frente delas, a gerir sao tambem nordicos, mesmo nos EUA (geralmente descendentes de ingleses, alemaes, etc).

Se tirassemos as empresas do norte e estrangeiro do centro e sul e so deixassemos as empresas feitas por eles, aposto que teriam uma produtividade muito inferiro à do norte.

Nao ha duvida que os melhores empresarios sao os do norte. É aqui que se fazem os grandes empresarios e as grandes empresas e isso deve-se à genetica, por sermos Galegos e termos bastante influencia Sueva (Germanica).
Agora também é verdade que ha por aqui muitas empresas familiares super mal-geridas e essas sim acabam por baixar bastante a produtividade do norte.

Anónimo disse...

Vitor e se tirassemos todos os hoteis feitos por nordicos e nortenhos onde estaria o Algarve?
Que empresas e industrias têm eles?
Estariam na miséria, são um povo muito pouco empreendedor, vivem dos empresários de fora.

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