20070914

"Alguém perdeu o juízo" - MST

Artigo brilhante de Miguel Sousa Tavares, no Expresso (Junho 2007)

"Houve tempos - na fase terminal do governo Guterres, depois no governo Barroso e a seguir no governo Santana Lopes - em que uns espíritos iluminados propuseram fazer atravessar o mapa de Portugal de TGV em todas as direcções. Sábios dos transportes discutiram animadamente se o plano do TGV devia ser em E, em T deitado ou em H tombado. (...) Cautelarmente, escrevi umas coisas contra estes delírios, mas, no fundo de mim mesmo, nunca me preocupei muito, porque sempre confiei que alguém teria senso, assim que começassem a fazer contas. E esperava-se, obviamente, que fizessem contas.

Veio o governo Sócrates e o mergulho de cabeça no buraco da OTA obrigou a rever, correspondentemente, a grandiosidade ferroviária anunciada. Manteve-se o Porto-Lisboa, manteve-se o Lisboa-Madrid, e tudo o resto foi à vida. Mesmo assim, sobretudo em relação à linha Lisboa-Madrid,há dados que permanecem sem resposta. Por exemplo, e o mais importante: quem serão os passageiros da linha, visto que, nos estudos do governo para justificar a OTA, verificamos que nem um passageiro está previsto que passe a trocar o avião pelo comboio. Ou seja, ou o TGV é um fiasco total ou é um sucesso - mas, neste caso, grande parte dos argumentos sobre o esgotamento da Portela perdem razão de ser, visto que cerca de 11% do seu tráfego actual poderá, em condições normais, ser desviado para o TGV.

Ou o governo se ‘esqueceu’ propositadamente do efeito do TGV nos estudos sobre a OTA, para melhor a impingir, ou o governo se prepara para se lançar numa gigantesca operação financeira ferroviária para a qual não prevê que haja passageiros.

Sem conhecer quaisquer estudos sobre o assunto, a minha previsão é que o Lisboa-Porto corresponde a uma necessidade evidente e que, bem gerida, pode ser uma linha rentável. Mas Madrid jamais o será. Tenho ouvido técnicos, governantes e até o primeiro-ministro dizerem, em tom científico, que "Portugal não pode ficar fora da rede europeia de alta velocidade". E ponto final: ninguém lhes pergunta porquê, qual a razão por que não pode. Será uma questão de orgulho nacional, uma exigência de Bruxelas? Porque será que um país como a Suécia - imensamente mais rico, mais desenvolvido, com um sector exportador muito mais forte e até um território muito mais extenso - vive bem sem TGV e nós não?

Mas, enfim, por princípio há que acreditar que quem governa sabe o que está a fazer - até prova em contrário. Para meu espanto, porém, acabo de ler que o governo (...) anunciou que um bilhete Lisboa-Madrid no TGV vai custar 100 euros, um preço que ela afirma ser "altamente competitivo, sobretudo face à aviação comercial". E o espanto deriva de três razões: primeiro, ficar a saber que o preço visa apenas garantir que a exploração da linha não será deficitária, mas não tem qualquer veleidade de, nem a longuíssimo prazo, conseguir amortizar um euro que seja do imenso investimento público a realizar; segundo, que este preço é mais caro do que o que se pratica para igual distância em todos os países europeus que têm TGV, o que quer dizer que em Portugal, com menor poder de compra, as pessoas pagam, quase sempre, mais caros os serviços públicos - e o próprio governo já assume este absurdo e esta incompetência como uma fatalidade incontornável, mesmo para o futuro; e, finalmente, o que me espanta ainda é constatar que, ao contrário do que diz a secretária de Estado, 100 euros para fazer a ligação de comboio de Lisboa a Madrid é mais caro 20 a 50% do que os preços praticados numa companhia aérea regular e mais do dobro dos preços numa «low cost». E, mesmo assim, não está garantido - antes pelo contrário - que a exploração não resulte em prejuízo.

Em resumo, o governo propõe-se: a) fazer um investimento público brutal, de que jamais se espera poder amortizar um cêntimo; b) praticar preços mais caros que serviços congéneres no estrangeiro e mais caros que a concorrência aérea; c) e, mesmo assim, teme-se que o serviço seja deficitário, porque, muito provavelmente, não haverá procura que o sustente.

Ou eu estou a ver tudo mal ou alguém perdeu o juízo. Domingo passado, por exemplo, o primeiro-ministro inaugurou, com pompa e circunstância, um novo troço do Metro Sul do Tejo, o qual, como sempre, demorou a construir muito mais do que o previsto e custou muito mais, uma pequena fortuna. Quarta-feira, o primeiro dia útil do novo troço, não houve passageiros. Comentário do responsável pela exploração do Metro: "O novo troço não tem grande utilidade". Como?"

5 comentários:

sguna disse...

Apesar do óbvio, alguma coisa muda? O que se vê é a guerra de interesses, para ver quem é que fica com a maior fatia do bolo.

Por outro lado, com o aumento da emigração para Espanha e com políticas destas, vai ser mesmo preciso um aeroporto e TGV para dar vazão ao tráfego para Madrid!

Jose Silva disse...

Portugal pode ficar fora da rede de alta velocidade. Mas Portugal não pode ficar fora da rede de bitola europeia. São coisa diferentes e que fazem muita diferença.

Bino disse...

primeiro dia útil do novo troço, não houve passageiros. Comentário do responsável pela exploração do Metro: "O novo troço não tem grande utilidade". Como?""

Nao tem utilidade, mas como é para Lisboa fazem, nem que seja so para 1 passageiro por dia.
Se fosse no norte enfim..
Ca nem quando tem muita utilidade nos dão dinheiro.
Lembro-me agora do projecto de ondas, que teria muita utilidade, era energia renovavel e traria riqueza e mesmo assim não apoiaram e o projecto teve de ser fechado por falta de ajuda do governo.

Enfim... somos mesmo uma colónia, é que é mesmo

Os que dizem que o norte se livrou de Castela e conseguiu ser independente enganam-se.
Ficamos independentes por pouco tempo. Depois deixamos de ser, deixamo-nos cair para outro império que nos trata como autentica colónia.

José Alberto Fernandes disse...

O domingo a que ele se refere foi o anterior?

É que a comunicação social não fala nisto, sempre que se trata de desperdício, obras mal feitas e histórias mal contadas, é sempre a história do 8 e 80 na comunicação social. 8 Em Lisboa, 80 no resto do país.

Pedro Menezes Simoes disse...

O Metro do Sul do Tejo foi inaugurado em 1 de Maio de 2007.

A actual linha tem tido pouca adesão dos utentes, uma vez que o troço liga dois locais com "pouca circulação. O projecto demorou mais 3 anos que o previsto.

http://www.setubalnarede.pt/content/index.php?action=articlesDetailFo&rec=9623

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