20071113

Editorial do José Manuel Fernandes - Demolidor

"Na sexta-feira, a meio da tarde, foi recebida no PÚBLICO a seguinte informação: o ministro Mário Lino vai tentar destruir o estudo relativo ao novo aeroporto de Lisboa através da descredibilização da rede de acessibilidades. A informação era imprecisa e requeria confirmação. Os esforços desenvolvidos até ao início da noite não permitiram confirmar a pista inicial, que não era a verdadeira. Pouco depois chegava ao jornal o seu colaborador especializado em infra-estruturas ferroviárias. Vinha da Rave, a empresa pública criada para estudar a rede ferroviária de alta velocidade, e trazia a análise que esta havia feito aos estudos apresentados pela CIP. O tema era notícia mas a informação tinha embargo até ontem, domingo.

A empresa pública, que reporta a Mário Lino, tinha, sem apresentar nenhum estudo formal, acordado divulgar a sua avaliação em três fases: no sábado sairia uma notícia no Expresso sobre os custos das infra-estruturas propostas, o que se confirmou; domingo o PÚBLICO divulgaria uma segunda notícia, esta centrada na alegada inviabilidade da proposta desenhada pela equipa do professor José Manuel Viegas; para hoje, segunda-feira, ainda sobraria algo para o Correio da Manhã.O PÚBLICO, que entende que todas as posições devem ser divulgadas, agendou para domingo a divulgação da "posição" da Rave.

Dar toda a informação é o nosso dever para com todos os leitores. Avaliá-la criticamente também.Mas se esta é a regra, porquê recordá-la? Porque aquilo a que assistimos, e que nos foi apresentado sem pudor, representa um esforço de condicionamento da opinião pública por parte da Rave que, ao contrário da CIP, não actuou de forma transparente nem forneceu ao nosso colaborador os estudos que diz ter realizado. Tratou sim de gerar uma sucessão de notícias, difíceis de escrutinar, cirurgicamente dirigidas, numa acção que os políticos costumam definir por spin, eufemismo de manipulação. Só que neste caso o spin foi particularmente desastrado e desajeitado, como veremos. Ao longo desta discussão sobre a localização de um novo aeroporto em Lisboa, temos tido, de um lado, académicos e empresários (todos identificados, apesar das suspeições levantadas) que defendem uma solução razoável, e, do outro lado, um governo que, para além de nunca ter disponibilizado toda a informação (ainda faltam estudos no site onde o Governo diz que os disponibilizou todos), sempre fez jogo duplo.

Senão reparemos: o primeiro-ministro disse que entregaria ao LNEC os estudos da CIP para este os avaliar e que isso seria feito até ao final do ano. Só que entretanto o ministro Lino, com a sua habitual arrogância, resolveu torpedear o processo pedindo a um organismo dele dependente, a Rave, para fazer uns estudos ad hoc e entregá-los aos jornalistas. Perdão: mostrá-los, sem os entregar, pois fornecer documentos é coisa que este Governo não aprecia, pois isso torna mais fácil encontrar as suas inconsistências. Estas são, contudo, bem evidentes no trabalho que ontem editámos.

De acordo com a Rave, a solução proposta para o TGV fá-lo-ia perder 1,5 milhões de passageiros. Diz que isso corresponderia a uma diminuição da procura de 15 por cento. Só que a projecção de procura feita pela Rave não é de 10 milhões de viagens/ano, mas de 12,2 milhões, logo a potencial quebra seria de 12 por cento. Se mesmo estas contas simples estão erradas, que credibilidade tem a projecção? Pior: a Rave também não parece saber olhar para os mapas. No projecto que apresentou de travessia do Tejo, esta tem, medida sobre o mapa, 7,8 quilómetros, mas no desenho mostrado pela Rave até surge com mais de 8,0 quilómetros. Como a proposta da CIP era de uma travessia de apenas 5,6 quilómetros, a ponte da Rave "encolheu" para 7,2 quilómetros de forma a ser menor do que a soma da nova travessia do Tejo e de uma outra ponte de ligação entre o Montijo e o Barreiro, de 1,8 quilómetros. Para além de falsificar os seus próprios elementos (e estou a citar o desenho incluído na apresentação feita pelo presidente da Rave a 13 de Dezembro de 2005), a Rave mistifica, pois contabiliza ao mesmo preço a travessia do Tejo numa ponte com duas linhas de alta velocidade e duas linhas suburbanas com o preço da ponte Montijo-Barreiro, que terá apenas duas linhas suburbanas.

A desonestidade da argumentação da Rave vai ao ponto de invocar a contabilização dos terrenos para o nó da alta velocidade em Alcochete, mas coloca-os dentro do campo de tiro, onde tais terrenos já pertencem ao Estado. E fala dos impactos ambientais da outra ponte, quando a Chelas-Barreiro teria de lançar pilares nos lodos mais poluídos do estuário do Tejo.

Em suma: Mário Lino violou as regras do jogo ao intrometer um serviço que lhe é subordinado no que o primeiro-ministro disse ser trabalho do LNEC; escolheu um serviço cuja falta de qualidade é notória (basta recordar que para viabilizar a ligação Lisboa-Madrid em TGV "calculou" uma procura idêntica à existente na ligação Paris-Bruxelas, o que é irreal mesmo para o mais iletrado dos leigos); tratou de colocar as notícias de forma cirúrgica e sem fornecer documentos que permitissem o contraditório; e, por fim, vai assistir à Rave a afundar-se na sua argumentação "colada com cuspe" e feita por encomenda. O homem que disse que a Margem Sul era um deserto é mesmo um elefante numa loja de porcelanas... "

6 comentários:

sguna disse...

Fico à espera do filme: a corrupção II.

Como temos um governo tão mediático, acho que chegou a hora deste ministro. Decerto que arranjará um tachito numa das restantes empresas públicas, ou no lobby do betão!

Luis disse...

Pormenor:
se um dos itens que, de acordo com o "estudo" da RAVE, encarece a opção CIP é a ligação ao TGV, então porque não se mantém o projecto inicial do TGV??? Resposta: porque é importante que o aeroporto seja servido pelo TGV. Exactamente!
E O AEROPORTO SÁ CARNEIRO (ASC)???? Tem de se contentar com uma ligação de um suburbano, metro ou eléctrico????? Somos mesmo enteados...

Salem disse...

como diz a etiqueta: demissao já

Espectadora Atenta disse...

Caro Pedro
Parabéns pelo post!
Deviamos pedir a demissão deste ministro já!

Mario disse...

Caros amigos

mas de onde vem esta raça.. qual será o planeta ou o inferno???..
Valem tudo menos jogar sério... Será que esta gangada não tem o mínimo de principios??? não terão pai ou não saberão quem ele é para o poderem HONRAR... Que MUNDO é este????.. Que exemplo querem dar aos filhos .. se é que os têm?

Um abraço a todos e penso que está na altura de dizermos BASTA ou então somos como eles
mario carvalho

Mario disse...

in diário digital

EUA: Cientistas conseguiram clonar embriões de macacos

Cientistas norte-americanos conseguiram criar embriões de macacos, através da clonagem de células de macacos adultos, e retirar células estaminais embrionárias.
Segundo avança a revista Nature, esta é a primeira vez que tal experiência com primatas é bem sucedida, abrindo caminho a novas terapêuticas, passíveis de serem aplicadas em seres humanos e no tratamento de doenças como a diabetes ou lesões na medula espinal.

Quanto à técnica utilizada, que visava a recolha de células estaminais embrionárias, é semelhante à utilizada na criação da ovelha Dolly, o primeiro mamífero clonado através de células retiradas de um animal adulto, desta vez, utilizando como doador um macaco de 10 anos.

Apesar de terem obtido várias dezenas de embriões, nenhum resultou num bebé.

14-11-2007 13:57:20

se isto aconteceu há 50 anos , começo a perceber o que se passa agora!!

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