20071124

Do Localismo

Há uns dias, um colunista escreveu num jornal local de Guimarães que «Nestes últimos tempos muito se tem falado no eixo Guimarães – Braga, região Minho e até na regionalização. Não sei porquê, mas de cada vez que vêm com muito alarido em torno do Minho, eu não consigo deixar de ficar logo de pé atrás. Já sei que aí vem mais uma investida. Aí vem Braga a querer pôr-se em bicos de pés. [...] O meu maior receio, enquanto vimaranense, foi que ao avançar para uma regionalização ou uma descentralização, Guimarães continuasse ostracizada e alheada dos centros de poder».

Esta postura bairrista e localista foi denunciada por Carlos Abreu Amorim nas páginas do Correio da Manhã : «Regionalizar é dar poder. Há dois contra-argumentos base – o primeiro crê que o País deve ser governado a partir de um centro de poder quase único que pode ter postos avançados pelo resto do território (desconcentração) mas que será sempre o dono da decisão. Depois há este localismo: não importa se o todo (incluindo a minha parte) está mal desde que o meu vizinho não pareça ficar em melhor situação do que eu. Poucas coisas são tão difíceis como dar poder. Sobretudo quando quem mais teria a ganhar com isso não entende que o poder beneficia sempre os que lhe estão mais próximos – se o meu vizinho fica bem é porque eu estou melhor do que antes.»

Nunca duvidei de que haveria resposta. Ainda que a referência tenha sido demolidoramente crítica e acertada, qualquer bairrista que se preze tem que fazer eco da sua visão. Diz o ilustre colunista: «O meu comentário queria dizer, exactamente aquilo que lá estava. Não era referente a regionalização nenhuma. Falava na generalidade, abstraído da interpretação política que o mesmo poderia ter. Mas se quer mesmo saber, não sou regionalista. E não reconheço ao Porto ou a Braga – e respectivas classes políticas – qualidades que me façam querer suspirar pela sua ascensão. Vejo melhor por cá. Mas ainda assim, mal por mal, prefiro ficar como estou. Incompetência por incompetência, que se mantenha – e este mantenha tem o sentido amancebado da coisa – apenas uma, a actual, a centralista, que já sai bastante cara.»

Esclarecidos? Nós também não... Ao menos descobrimos o Decálogo do Localista.

5 comentários:

AP disse...

Não sei se já tiveram oportunidade de ler no Expresso o que Pinto Coelho, presidente da Confederaçao do Turismo de PORTUGAL (reforce-se aqui o Portugal) tem a dizer sobre o seu grandioso projecto para Lisboa!
Dou uma achega: "A primeira noção é nacional. Tenho seis filhos e é obrigatório criar para todas as pessoas que têm entre 20 e 30 anos a ideia que trabalhar em Portugal pode ser uma boa hipótese. E para isso há que criar locais onde eles possam trabalhar e ser bem pagos. Passa por criar a ideia de que Lisboa é uma cidade cosmopolita, E para isso n basta o turismo"
São pérolas como esta que estão publicadas no Expresso pelo presidente da confederaçao de turismo de Lisb... huh... Portugal.
Tristeza de país, só lá vamos com a independência!!!!

Jose Silva disse...

Pedro,

O que relata relativamente ao localista de Guimarães, também lhe pode ser acusado a si, por portuenses! Perante o cenário actual o bairrismo/localismo é doentio. Mas é preciso ter cuidado para que a pedra não cair na nossa cabeça !

Eu acho viável uma Regionalização por fusão de autarquias NUTS3, não para alimentar localismos de Guimarães ou de Braga ou de qualquer outra região, mas sim por eventualmente ser mais rápido do que a Regionalização a 5 tradicional.

É um assunto muito delicado e deve continuar a ser debatido.

Pedro Morgado disse...

Caro José Silva,

Rejeito por completo a sua acusação. Eu não tenho qualquer tipo de desconfiança da classe política do Porto. Entendo que, para o desenvolvimento do Norte, seria positivo criar 2 regiões uma vez que o Porto é muito distinto do resto do Norte, mas prefiro um Norte Regionalizado que um país centralista.

Jose Silva disse...

Pois Pedro,

Eu não o comparo ao localista. Mas alerto-o para o facto de correr esse risco.

A minha mensagem é simples: Nem o centralismo que temos, nem um governo regional em cada esquina. É preciso abertura e seriedade no debate para se encontrar a melhor solução para o nosso Norte.

Pedro Menezes Simoes disse...

Bom post, e bom esclarecimento sobre o seu pensamento, caro Pedro Morgado.

No fundo, o localista não é um provinciano e um conservador. Não consegue ver para além da sua rua, e é por princípio avesso a qualquer mudança ("não provei e não gostei")

Esclarecedor é também sobre a profundidade intelectual dos supostos "fazedores" de opinião.

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