20071119

Debate intra-Norte: Porto liberal, Norte conservador

«Maldita Regionalização ?», por Francisco Saraiva de Sousa

«A blogosfera portuguesa produz discursos inflamados sobre a regionalização. Embora defenda a regionalização como um processo de aprofundamento das práticas saudáveis da democracia e da cidadania e do desenvolvimento económico e cultural das regiões, quando leio estas reacções metabolicamente reduzidas, sou confrontado com o lado mau da humanidade: aquele lado que corrompe os ideais forjados pela nossa cultura superior para nos libertar das trevas e da menoridade (Kant). A regionalização é sistematicamente reduzida à economia e ao poder metabolicamente reduzidos, portanto, ao alargamento «democrático» das práticas de corrupção. Afinal, a «democracia» é vista por estas mentes metabolicamente reduzidas como um meio para criar localmente condições favoráveis às práticas de corrupção, de resto já nossas conhecidas e bem evidentes nas políticas dos autarcas locais.

Assim, por exemplo, até já fui acusado de ser «alfacinha», num pequeno «debate» realizado num blogue, cujo nome omito para evitar uma polémica que não pretendo levar a cabo, não com o seu autor que respeito pela firmeza das suas ideias claras, mas com os «bairristas». O texto é o seguinte:

«Sou Nortenho convicto e defensor da regionalização. Defendo acima de tudo a descentralização e o fim da discriminação política, social, financeira e cultural a que o Norte tem sido devotado.

O Sr. Saraiva de Sousa parece daqueles alfacinhas que fala de barriga cheia.

É mais do que senso comum, que a pujança económica do país está a Norte, aliás, as maiores empresas portuguesas nascerem de homens do Norte e são lideradas por homens do Norte.No dia que o Norte usufruir das mesmas oportunidades que Lisboa, veremos. Só tenham medo que a capital mude cá para cima....ehehhe».

O Norte já está dividido, sempre esteve dividido, e, para dizer a verdade, existem mais afinidades entre Lisboa e o Porto do que entre o Porto e Braga, ou Vila Real ou Guimarães. Basta pensar nas ilustres figuras do Porto que têm participado activamente na governação de Portugal, nos seus intelectuais nobres ou nos seus empresários. O Porto é profundamente liberal e este traço marca a diferença: o resto do Norte é conservador e retrógrado. Por isso, os seus distritos afundam e sempre afundaram o Norte, condenando-o a fazer parte de uma estatística miserável, atrás da Madeira do tio Alberto, politicamente da mesma cor. Querer que a capital do Norte fosse qualquer outra cidade que não o Porto seria a catástrofe e, nesse caso, mais vale o centralismo político renovado que o regionalismo mesquinho liderado por criaturas gordas, ladras, corruptas e profundamente incompetentes, numa palavra, analfabetas em todos os sentidos do termo.

Reacções como estas, e tantas outras mais ridículas, levam-nos a meditar a essência da democracia e a escutar a voz daqueles intelectuais que, como Hannah Arendt, aconselham muita moderação, propondo um conceito mais restritivo, portanto, mais elitista, de democracia. De facto, nem todos os habitantes de um país democrático são verdadeiramente cidadãos, até porque carecem de competências para participar racional e responsavelmente nos debates da esfera pública. De certo modo, a III Tese sobre Feuerbach de Marx colocava a questão: «A doutrina materialista referente à mudança das circunstâncias e da educação esquece que as circunstâncias são mudadas pelos homens e que o educador também tem de ser educado». De facto, numa sociedade que dispensou o pensamento crítico, como a nossa, torna-se necessário educar efectivamente os portugueses para o exercício pleno da cidadania. Caso contrário, não vale a pena alterar o modelo administrativo ou propor referendos.»

 

PS: Negrito de minha autoria.

3 comentários:

Pedro Menezes Simoes disse...

Como sempre digo, o processo de regionalização tem que simultaneamente fazer um esforço por criar cidadania.

A cidadania não existe em Portugal (Excepto na blogosfera), e a sua ausencia está a matar a democracia.

A regionalização permite reaproximar eleitos e eleitores. Permite trazer a cidadania para todas as regiões, para que as unicas manifestações que contem não sejam apenas as que são feitas a 400 ou 500 kms de distância, no terreiro do paço.

Sem cidadania, corremos o risco de depender do poder central para o sucesso do regional, ou então das tão sebastianamente esperadas lideranças regionais.

Mas como o processo de regionalização é uma longa luta de cidadãos anónimos, o seu sucesso é também o sucesso da cidadania. Por outras palavras, a regionalização pode salvar a nossa democracia. Caso contrário, não havendo nenhuma outra causa com a mesma semente de anti-poder, a democracia portuguesa continuará a sua rápida caminhada para a corrupção, o controlo dos cidadãos, o tachismo, e a oligarquia partidária.

E quando a democracia ruir, o mesmo povo que rejeitou a autocracia a favor do centralismo, será o mesmo que sebastianicamente dará ainda mais poder ao Estado para nos maltratar. Um novo regime absolutista irá erguer-se (D. Joao II, Pombal, Salazar...). E o povo aplaudirá enquanto come o pão que o diabo amassou. O capital intelectual fugirá do país. Seremos outra vez a albânia do oeste europeu.

A escolha está nas nossas mãos.

António Alves disse...

as courelas, os regos de água e os morgadios ainda dominam a vida de muita gente

Mario disse...

C&W diz novos centros comerciais Portugal com total 210.477 m2


19/11/2007


LISBOA, 19 Nov (Reuters) - A área bruta locável (ABL) dos centros comerciais, em Portugal, com abertura prevista para 2008, totalizará os 210.477 metros quadrados, anunciou a consultora imobiliária Cushman & Wakefield (C&W).

Acrescenta, no estudo European Shopping Centre Development, que, em 2007, se continuou a verificar um forte nível de actividade no mercado de retalho, à semelhança do que tem ocorrido nos últimos anos.

"O interesse por parte dos retalhistas no mercado parece manter-se, a julgar pelas boas taxas de ocupação verificadas nos projectos inaugurados até ao momento", afirma Marta Leote, Associate e directora do departamento de Research & Consulting da C&W, em Portugal, citada em comunicado.

Relativamente à Europa, sublinha que, no próximo ano, a ABL dos centros comerciais aumentará em 11,4 milhões de metros quadrados, o que corresponde a uma subida de 38 pct.

Adianta que, actualmente, existem 105 milhões de metros quadrados de ABL de centros comerciais, "quase o dobro do espaço que existia há dez anos atrás -- 58 milhões de metros quadrados".


cumprimentos
mario

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