20080103

BCP, capítulo enésimo: os abusos do Banco de Portugal

É obrigatório ler o comentário do averdadedoi@hush.com "Porque os bancos apresentam tamanhos lucros", ao artigo de Miguel Sousa Tavares sobre a tragédia em três actos do BCP, aqui

http://clix.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/203290.

Porém aqui quero apenas alertar para o que afirma aquele comentador (na sua própria correcção ao comentário inicial); segundo os testes que fez, para um empréstimo hipotecário em condições semelhantes:
- um cidadão português em Portugal pagaria mais do dobro (110%),
- do que um cidadão no país onde ele vive (apenas 41%).

Isto merece ser investigado. Se for falso, que seja esclarecido. Se for verdade, TEM de ter consequências.

Sobretudo para o Governador do Banco de Portugal (que, de qualquer modo, já deve ter feito um pé de meia maior do que aquilo que merece...) e para a instituição que governa.

Desejavelmente, também para o sistema bancário português.

12 comentários:

Pedro Menezes Simoes disse...

Primeiro, o "averdadedoi" começa por comparar o valor absoluto pago em 25 anos face ao pago em 44 anos. De facto o comentário do "averdadedoi", mostra porque é que os bancos portugueses ganham tanto dinheiro. Mas não é através dos argumentos que usa. É através da ignorância que mostra. Os bancos portugueses ganham muito dinheiro porque os seus clientes não sabem fazer opções financeiras.

A forma correcta de comparar custos financeiros é usar taxas all-in (i.e. taxas que consideram todos os custos e os anualizam tendo em conta o período do empréstimo). Ou, pelo menos, o Spread. Embora convenha olhar para as comissões.

Basta fazer a simulação de 25 anos e 44 anos num mesmo banco portugues e que encontrará os mesmos valores.

O "averdadedoi" ainda não percebeu o que é o valor temporal do dinheiro. Paga-se uma taxa anual pelo dinheiro. E é isso que se deve comparar. Taxas! Nunca valores absolutos. É por esse erro que tanta gente pede dinheiro à Cofidis, e acaba a pagar taxas de 27% anual.

De resto, fica aqui já esclarecido: os bancos portugueses praticam taxas abaixo da média da UE no crédito à habitação. Mas há outros sítios onde ganhar dinheiro: depósitos a prazo, comissões...etc.

E pelo que já vi, muito pouca gente em Portugal se preocupa em optimizar a sua gestão financeira. Se a quantidade de portugueses que fica revoltado com os lucros dos bancos se preocupasse em assegurar que está neste momento a receber pelo menos 4% brutos pelos seus depósitos a prazo (a prazo!, não à ordem), os lucros dos bancos não seriam os que são.

P.S. O "averdadedoi" também não deve saber fazer contas. Fazendo "engenharia inversa" aos números que apresenta, o Banco estrangeiro emprestaria a uma taxa de 2,8% (o que é impossível, pois é inferior à Euribor), e o Banco Português a uma taxa de 6,8% (taxa essa que implica 2% de spread, o que nenhum banco pratica em Portugal).

Ventanias disse...

Peço desculpa, Pedro Menezes Simões, mas o averdadedoi corrigiu os prazos, tendo encontrado a forma de fazer as duas simulações para 25 anos; e os valores que encontra são os que eu usei: 110% em Portugal, 41% no país dele.

Quanto ao mais, calo-me, porque ele também não diz a que se referem os valores (chama-lhes lucros...).

Ainda assim parece-me que a discrepância justifica um esclarecimento das autoridades!

Pedro Menezes Simoes disse...

Já percebi o gato.

No Banco estrangeiro, o "averdadedoi" seleccionou a opção de carência de capital no primeiro ano (i.e. no primeiro ano só paga juros, e a partir do segundo ano é que começa a amortizar o capital). A prestação no primeiro ano acaba por ser cerca de metade da prestação dos anos seguintes.

No banco portugues essa opção não foi seleccionada.

Como o "averdadedoi" calcula o valor a pagar multiplicando a primeiro prestação pelo total de mensalidades, o valor do banco estrangeiro foi subestimado, pois a primeira prestação está subavaliada.

Fazendo as contas, o banco estrangeiro pede 5,64%, o que é perfeitamente razoável e pressupões 0,7% de spread (incluindo encargos) o que é próximo da prática do mercado português.

Pedro Menezes Simoes disse...

pressupões=pressupõe

Jose Silva disse...

Caro Ventanias,

Mesmo havendo alguma cartelização bancária, os juros pagos por quem se endivida são de livre vontade. O estado central quando muito pecará por falta de defesa da concorrência. Neste caso e na suposta corrupção de árbitros pelo FCP, também envolvendo apenas privados, não me parece grave. O mesmo não acontece no negócio CGD/BCP onde o estado central está envolvido até às pontas dos cabelos sem eu ter dado autorização.

Pedro Menezes Simoes disse...

Pior. O Estado está disposto a prejudicar uma empresa pública (CGD) para ajudar uma empresa privada (BCP).

Jose Silva disse...

Aliás, o Estado usa a CGD para beneficiar empresas privadas (BPI, BES, etc) e amigos de MAcau.

Ventanias disse...

Caro Pedro Menezes Simões, pelos cálculos que também fiz, parece-me muito provável que tenha encontrado o "gato".

No entanto, continuo a acreditar que o assunto merece esclarecimento público, não tanto pela questão dos lucros dos bancos, mas sobretudo pela suspeita que acarreta de que se pagam juros a mais em Portugal, neste tipo de empréstimo.

É certo que o importante, em princípio, é a taxa anual efectiva; no entanto também não deixa de ser verdade que há muitos pequenos truques que permitem inflaccionar os custos reais, como ficou recentemente demonstrado com a questão dos arredondamentos - pese embora esses não permitirem explicar o tipo de diferenciais denunciado pela fonte citada...

Ventanias disse...

Caro José Silva, o meu problema é precisamente com a falta de concorrência no sistema. Não tenho dúvidas que os bancos nacionais são muito agressivos no que respeita a campanhas publicitárias para captação de clientes novos, nomeadamente no que respeita ao crédito hipotecário.

Todavia, continuo a ter muitas dúvidas de que exista suficiente concorrência entre os bancos, tenho quase a certeza de que não há suficiente supervisão eficaz e suspeito, com base em fortes indícios, de que praticamente não há concorrência no que respeita às políticas de crédito para PME, principalmente, e médias empresas.

Daí a minha ligação do assunto aos poderes e competências do Banco de Portugal...

Snowball disse...

"os bancos nacionais são muito agressivos no que respeita a campanhas publicitárias para captação de clientes novos"

Pois, existem aí alguns bancos na praça que são fantásticos...em comunicação, mas não nas letras pequeninas.

Os portugueses são bons clientes: não tem cultura financeira. Quem, neste momento, tiver algum depósito a prazo com taxas inferiores a 3,75% (sem alguma razão especial), para valores superiores a 1000€, está a dar dinheiro ao banco. Aliás, não é difícil encontrar taxas de 4,0-4,5%...basta procurar.

O PCP fazia mais pela redução dos lucros dos bancos se dissesse mensalmente qual o banco com melhores taxas nos depósitos.

KeltikTuga disse...

Bem...mais uma acha para a fogueira.... Eu reparei que aqui ha' uma diferenca mas nao tao acentuada como e´dito nesse post!!!!!!!

Eu li isso e de facto assustei-me...

O meu pai disse-me que ha 25 anos pediu emprestados 800 contos e acabou por pagar perto de 5 mil contos.... Mas nessa altura houve taxas de juro de 15 %..... Mas ele diz-me q enquanto os juros subiram as prestacoes foram sempre subindo... Mas para descer...pois sim!


Mas vejam esta simulacao na CGD:
https://caixadirecta.cgd.pt/servlet/credHabApp/
Valor da casa 100 000 E
Emprestimo de 80 000 E
Rendimento anual A: 26 000 E
Rendimento anual B: 6 000 E
Nascidos inicio da decada de 80 (para que raio isto interessa num emprestimo) ?
Taxa: Indexada Euribor 3 meses...
Proteccao seg vida 2 pessoas 100/100
Sem adesoes facultativas (?)
Por defeito o simulador escolhe 43 ANOS!!!!!!!!

Encargo mensal de 459,03 euros
A 43 anos da' 43x12x459,03=236 859 E.... (emprestimo foi de 80 000 E)
Ou seja 2,96 VEZES!!!!!!
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Alterando a simulacao CGD para 25 anos!
Encargo mensal: 540,92 euros
A 25 anos da´ 25x12x540,92 = 162 276 E....(emprestimo foi de 80 000 E)
Ou seja 2,02 VEZES!!!!!


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Agora comparando com banco irlandes....AIB....

Claro que o valor dos emprestimos por estas terras sao bem mais altos, pois as casas por aqui sao bem caras... Mas em % do emprestimo paga-se de volta ao banco menos 30 % no mesmo tempo....

Valor da casa 400 000 E
Emprestimo de 320 000 E
Taxa: Tracker LTV>50% <=80%

Ou seja emprestimo e´ 80 % do valor da casa...(igual a simulacao em Portugal, mas para os valores de mercado daqui)

http://www.aib.ie/servlet/ContentServer?pagename=ROIPersonalPortal/AIBContent_C/mortgage_calculator&c=AIBContent_C&cid=1136826384756&channel=P005

Prestacoes mensais ano 1: 1767 EUR
Prestacoes mensais restantes anos: 1822 E...

Total: 12x1767 + 24x12x1822 = 545 940 E
Emprestimo foi 320 000 E....
Ou seja paga-se 545 940 E, isto é mais 71 %....

Comparando 71 % (IE) com 102 % (PT) acho a diferença excessiva...

Noto discrepancia....
Por isso ja´ q ha experts na materia neste blog, o que fiz mal aqui?

Ventanias disse...

Caro keltiktuga,

No seu caso, as diferenças são explicadas pelas taxas de juro aplicadas, mais de 6% na CGD e cerca de 4,5% no AIB.

Há depois outros aspectos a considerar, como por exemplo o facto de o AIB não pedir o nível de vencimentos para fazer a simulação. O que quer dizer que o AIB dificilmente lhe aplicaria a taxa anunciada, pelo menos não para os valores apontados.

Por outro lado, a CGD utiliza uma série de mecanismos para baixar ou aumentar a taxa, como a subscrição de seguros etc, que talvez não sejam os mais correctos. Isso deveria ser investigado.

O mais importante aqui, porém, é o seguinte: atenção às taxas de juro!!! Vejam bem o que uns meros 1,5% podem fazer de diferença num pagamento em 25 anos...

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