20071204

Miguel Sousa Tavares ou a incoerência como argumento político II

MST representa o estereótipo típico do centralista: é absolutamente arrasador em relação à administração central. Encara-a como, na melhor das hipóteses, um encargo burocrático inútil, e na pior delas, como uma fonte de corrupção e clientelismo.

Perante esse cenário, existiriam duas soluções alternativas e complementares para o problema:

1) reduzir o peso do Estado e sua capacidade de intervenção arbitrária

2) Aumentar a proximidade em relação aos cidadãos para redução burocrática e maior controlo por parte daqueles, nomeadamente pela inserção de mecanismos de concorrência e transparência (regionalização).

MST, que é tão arrasador para o centralismo, defende alguma destas soluções? Não. Esperneia vigorosamente contra a regionalização (a única e verdadeira reforma da administração pública), mas sem propôr qualquer alternativa. Dessa forma, mostra uma indiferença, uma tolerância atroz perante o fenómeno da corrupção. Infelizmente uma tolerância muito portuguesa (lembram-se do estudo que dizia que os portugueses eram o único povo da europa que considerava legítimo a apropriação de subsidios indevidos e a prática de baixas fraudulentas; que se estivesse no lugar dos políticos também "aproveitava", etc, etc).

Os nossos políticos reflectem as nossas crenças colectivas. É a tolerância à corrupção que cria um terreno propício para esse fenómeno. E os centralistas (que repudiam a regionalização com a desculpa da corrupção) são ironicamente os mais tolerantes em relação à corrupção.

P.S. A afirmação de que o referendo da regionalização foi uma luta dos cidadãos do "Não" contra todo o "establishment" político é evidentemente falsa. Foi o "establishment" político que decidiu criar a figura do referendo especificamente para a questão da regionalização, quando bastava aprová-la na AR. Mais, foi o "establishment" político que definiu regras que tornam virtualmente impossível a vitória no referendo: todas as regiões têm que votar sim (perceberam agora porquê o mapa das 10 regiões?), quando na verdade, deveria bastar que uma região votasse "sim" para que passasse a ser região administrativa.

4 comentários:

Antonio Almeida Felizes disse...

Muitas das vezes concordo com as análises acutilantes do MST. Todavia, no que toca a esta temática da Regionalização, a sua ignorância e confusão conceptual chega a ser confrangedora.

Assim sendo e como nesta matéria a argumentaria do MST é tão primária, nem vou perder tempo a desmonta-la.

Cumprimentos
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Regionalização
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Pedro Menezes Simoes disse...

Eu sei que é primária...mas é um dos principais argumentos demagogicamente utilizados contra a regionalização (seguido do "aumento dos custos" e do "risco da integridade nacional".

O facto, é que 90% dos portugueses não faz a mais pequena ideia do que é a regionalização, vendo-a como um nível igual ao central, mas multiplicado por várias regiões. O que, como sabemos, não faz qualquer sentido.

Antonio Almeida Felizes disse...

Caro Pedro,

Sim, eu estou ciente que estes argumentos primários têm muito acolhimento junto dos sectores populacionais menos informados, o que não é o caso da maioria dos frequentadores deste blog.

Cumprimentos,

Pedro Menezes Simoes disse...

Pois, é verdade. Obrigado : )

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