20071221

«Nós somos contra a fórmula «Portugal é Lisboa e o resto é pai­sagem»

Mendo Castro Henriques, membro do «think tank» Istituto da Democracia Portuguesa, luta também contra a Drenagem exercida por Lisboa sobre o resto de Portugal:

O DIABO - Quais são os objectivos que presidem à criação do Instituto da De­mocracia Portuguesa?

MENDO CASTRO HENIR­QUES -Como tem saído a público, o IDP é um «think tank» que está a crescer com associados em todo o País e que iniciaram um debate sem constrangimentos sobre que demo­cracia queremos e como podemos assegurar a independência nacionalnum mundo complexo. Vivemos um período crucial na construção da sociedade, em que varias revoluções silenciosas estão em curso. Portugal é uma realidade em todos os quadrantes do planeta, pelas suas comunidades portuguesas, pela presença dos seus empresários e pelos afectos trazidos pela lusofonia. Outros países da UE não têm essa sorte. Mas isto de sermos os maiores entre os mais pequenos, e os mais pequenos entre os maiores não é fácil. E por isso o IDP nasceu como um contributo da sociedade civil para apoiar a decisão do Estado; é isso que é hoje a democracia. E nós escolhemos participar na democracia através do debate sobre o território, um debate que não depende de Wa­shington nem de Bruxelas.

O DIABO-A ideia nasceu da onda de movimentos que surgiram contra a da construção do novo aeroporto da Ota e das implicações que isso pode ter no futuro do País a longo prazo?

MCH-É o inverso. Os movimentos contra o projecto de construção do «aeroporto da Ota» e que tiveram um primeiro livro em «O erro da Ota» é que nasceram das preocupações de muitos dos associados do IDP com a cultura estratégica resultante dos cursos de Defesa Nacional e da res­pectiva Associação de Auditores bem como dos movimento de cidadania da «blogosfera». O que recusamos é a irónica situação de uma elite, em Lisboa mas proveniente do «Portugal profundo», que conhece as maiores dificuldades da interioridade, mas que está apostada na liquidação desse país. Estima-se que até 2015 grande parte da população portuguesa viva em duas grandes comunidades ur­banas, Lisboa e Porto a que se junta uma terceira Faro-Loulé-Albufeira. Dentro do nosso território verifica­mos a decadência da grande maioria dos concelhos de um interior a mais de 80-100km do litoral. Nós somos contra a fórmula do general Clausel das Invasões Francesas que afirmou «Portugal é Lisboa e o resto é pai­sagem» .

O DIABO-Há algum tipo de objectivos políticos com a criação do IDP?

MCH-Contribuir para a regeneração da vida política, com muita humil­dade mas com muita determinação. Achamos que pelo debate do orde­namento, dos bens naturais que são o nosso território, dos estuários, das serras e vias de navegação interior, as regiões e comunidades urbanas, e sobretudo as duas grandes áreas de vocação europeia e mundial que são Lisboa e o Porto necessitam de afirmar uma visão sobre os seus objectivos, sobre as suas capacidades e sobre as suas missões. Se isto é um objectivo político, é nosso. Não escondemos que existem no IDP numerosos monárquicos, sobretu­do entre os quadros jovens. Para alguns associados não é prioritária a questão do chefe de estado, uma vez garantida a democracia. Para outros é indiferente. Outros serão porventura contra. É como se hou­vesse uma saudável concorrência competitiva interna neste assunto. Mas é muito importante para a imagem da monarquia que os seus militantes estejam numa frente com objectivos práticos de cidadania… E por isso foi escolhido D. Duarte de Bragança como símbolo e presidente de honra da nossa associação.

O DIABO-Quais são as preocupações re­lativamente ao País que merecem a vossa atenção principal?

MCH-Se tivesse que ser uma só palavra, seria ordenamento. O País tem que ser tratado como um todo no que se refere à gestão das grandes infra­estruturas, como revela a imperiosa escolha do NAL. É para isso que o Estado unitário está vocacionado. Não é por acaso que os defensores da Ota são um «loby» regional enquanto os adversários vão do Algarve ao Minho. Depois, o País tem regiões que são unidades de cultura e serviços onde se continua a gerar a auto estima e os afectos que prendem as pessoas às raízes. O Alentejo, a Madeira, o Algarve, o Norte, as regiões em boa parte coincidentes com as 5 CCR’s e as Regiões Autónomas, têm iden­tidades que têm de ser valorizadas com missões específicas agricolas, comerciais e indústrias e de serviços. Existir é ser diferente. Finalmente existe uma terceira camada de ordena­mento que é a escala intermunicipal. É aqui que surge a importância das Áreas Metropolitanas de Lisboa e do Porto, e todas as demais regiões natu­rais correspondentes a agrupamentos intermunicipais como exposto na chamada lei Relvas de 2003. São preocupações que vêm de trás com o arquitecto Ribeiro Teles e há uma nova geração no IDP que está a ac­tualizar essa mensagem.

O DIABO-Como avalia o País actualmen­te? Estamos melhor ou pior?

MCH-Estamos vivos! Mas estamos em risco de transformar um terço do País numa imensa Olivença, a zona dos projectos INTERREG! A democracia portuguesa está sendo corroída por fenómenos de pobreza e de exclusão que afastam as pessoas da participação na democracia, absor­vidas como estão na sobrevivência imediata, como tem repetido o Dr. Femando Nobre. Em particular, a pobreza das regiões interiores é um novo factor a ser debatido no quadro do aperfeiçoamento democrático. Pobreza das regiões é a desertificação, o abandono dos serviços de apoio, a degradação dos serviços sociais, o fe­cho de infra-estruturas e um eventual enfraquecimento da representação parlamentar das zonas a mais de 100 km do litoral. Quase um terço do País está em riscos de abandono. É uma Olivença à escala do séc. XXI. Por isso, o IDP está a preparar «o novo mapa de Portugal». Não me refiro à execução de mapas geográficos, muito embora a definição de um País comece pela história e pela geografia. Refiro-me, sim, às iniciativas em que iremos promover a democracia por meio de uma visão abrangente do território, pondo a falar e a intervir as suas gentes, os seus empresários e as pessoas que passam 24 horas do dia pensando na sua região, integrada num País único que achamos que tem muito futuro

2 comentários:

Pedro Menezes Simoes disse...

Fantástico!

(sublinho ainda algo que tenho vindo a defender: a existência de dois níveis intermédios: o regional e o intermunicipal).

Guilherme disse...

MCH diz: "É aqui que surge a importância das Áreas Metropolitanas de Lisboa e do Porto, e todas as demais regiões natu­rais correspondentes a agrupamentos intermunicipais como exposto na chamada lei Relvas de 2003."
Ora isto é o disparate da semana, uma vez que os agrupamentos da lei Relvas foram constituídos tendo por base a vontade dos autarcas, tendo dado origem a uma verdadeira aberração de mapa sem qualquer coerência (como já se sabe)Chamar as comunidades urbanas da reforma Relvas de "regiões naturais" não é nada natural.

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