20071203

Miguel Sousa Tavares ou a incoerência como argumento político

"Mas há referendos e referendos e causas de repetição que umas são compreensíveis e legítimas outras não. O referendo à despenalização do aborto foi repetido, mas, nesse caso, toda a gente sabia que a derrota do 'sim' no anterior referendo não reflectia o pensamento maioritário dos portugueses na matéria."

Evidentemente. Toda a gente sabe que, para saber qual a opinião dos portugueses sobre determinada matéria, basta perguntar ao MST. Para quê referendos ou eleições? A opinião dos milhões de portugueses que votam nos referendos é irrelevante*, perante a omnisciência de MST. Tanto dinheiro gasto para quê? Está descoberta a solução para o referendo europeu. Em vez de referendar, pergunta-se ao MST qual é a opinião do povo. Ele não só é muito mais barato, como é muito mais fiável a expressar a opinião do povo do que esse mesmo povo.

Quanto às lições de democracia, confesso que tenho algumas dificuldades em aceitá-las de alguém que se arroga a saber a opinião do povo melhor do que este, e que confunde "regras democráticas" com métodos de voto. A democracia não vai a votos, apenas as opções políticas. E, que eu saiba, o princípio da subsidariedade ainda é parte fundamental da democracia**. Talvez não da nossa, mas Portugal sempre teve laços fortes com a América Latina...

* Ou agora vamos passar a considerar como relevante a opinião dos milhões de portugueses que optam por não manifestar a sua opinião. A última vez que isso aconteceu, foi para instalar uma longa ditadura em Portugal.

** O princípio da subsidariedade afirma que as decisões políticas devem ser sempre tomadas no nível eficiente mais próximo dos cidadãos. É parte inerente da democracia porque assim se garante um respeito dos direitos das minorias. É democracia se um cidadão de Faro puder votar nas políticas locais de Cinfães? É democracia se um cidadão português (em Portugal) votar sobre as políticas internas de Espanha? E qual a democracia quando estão Aveirenses a votar nas políticas regionais e intermunicipais do Alentejo e Portuenses nas políticas intermunicipais do Ribatejo?

1 comentário:

j disse...

Tanto o Miguel Sousa Tavares como outros opinion makers estão bem com o sistema actual, a gente civilizada e culta esta na capital e o resto do Pais que pague a conta.

O funcionalismo publico faz pouco mas gosta de viver bem e sentir-se importante por isso se não produzem o suficiente à que criar o "interesse nacional" para que se empobreça o país e a capital continue a senda do progresso, ora perante esta perspectiva tudo o seja capacidade reivindicativa não interessa a estes democratas.

Felizmente julgo que a curto/medio prazo isso irá mudar pertencemos possivelmente à geração nortenha com maior nivel de educação, temos o mundo como horizonte, trabalhamos no mercado global e não nos deixamos deslumbrar com os saloios lisboetas quando queremos ver civilização metemo-nos no avião e vamos a Londres.

Somos a região de futuro tanto ao nivel da juventude da população como na capacidade de competir no mercado global visto que continuamos a ser exportadores liquidos, temos de apostar na inovação e conhecimento mesmo que tentem centralizar a ciencia no Tecnico ou na Nova.

Temos de ter consciencia que o peso demografico bem utilizado tem uma enorme capacidade reivindicativa quer ao nivel do consumo e das empresas quer a nivel politico.

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