20080521

Debate energético

Numa altura em que o país está à beira da revolta por causa do preço dos combustíveis, o primeiro-ministro anda por aí a inaugurar auto-estradas sem portagens e a prometer construir ainda mais. Numa altura em que preço do petroleo em USD bate records (mesmo descontando a elevada especulação); Que a modernização ferroviária sobretudo nas mercadorias, para o Norte ainda fabril e exportador, mantem-se parada; Que está programada uma manifestação contra as portagens à volta do Porto, pelas razões erradas, na minha opinião e que a A4 avança para ser mais uma auto-estrada do «lá vem um», as implicações do Peak Oil continuam por debater em Portugal e a Norte:

A questão do Pico Petrolífero é central, pois determina todas as outras. Isto é importante, em particular e sobretudo, na questão dos grandes investimentos públicos. Trata-se de despesas muitíssimo vultosas, elas provocam dívidas que comprometem não só a geração actual como gerações futuras. Este governo prevê investimentos colossais – como novo aeroporto, TGV e agora um terceiro atravessamento do Tejo – que não podem ser suportados pela combalida economia portuguesa. Além de serem investimentos que não se destinam a aumentar a capacidade de produção nacional, eles estão a ser decididos sem que sequer se tente antever o que virá a ser o mundo pós Pico Petrolífero. Gastar recursos em activos fixos que estimulam o tráfego rodoviário, aumentam o consumo de petróleo e dentro de poucos anos ficarão sub-utilizados é má utilização de recursos públicos. Muitos empreiteiros ganharão com isso, mas a sociedade como um todo perderá. Tais erros terão de ser pagos no futuro.

Mas as alternativas verdes não são menos alienadoras:

Basta observar a actual corrida dos mercados financeiros e respectivos fundos de investimento em direção aos biocarburantes (biodiesel e bioetanol), e o envolvimento direto das empresas petrolíferas e energéticas no negócio, para percebermos que uma nova bolha especulativa está em plena formação. Chamem-lhe a BOLHA VERDE! Os protagonistas no terreno pressionam os governos, aturdidos pelas sirenes da alta do petróleo, para que lhes subsidiem os novos carburantes e em geral as energias alternativas. Pressionam os agricultores para enveredarem pelo cultivo intensivo dos agro-carburantes e, claro está, adoptarem os Organismos Geneticamente Modificados. Procuram entrar nos países com grandes áreas agrícolas efectivas e potenciais para aí implementarem os seus projectos de agro-carburantes. Contratam agências de comunicação e põem-nas a trabalhar na grande campanha mediática da década. (...) O biodiesel e os biorcarburantes não passam pois de alternativas de emergência ao pico petrolífero. São temporárias e insuficientes. E a explicação para esta transitoriedade é simples: se algum dia fossem produzidos na proporção máxima tolerada pelos actuais motores a diesel (30%), a capacidade de o planeta alimentar as suas criaturas ficaria irremediavelmente comprometida. (...) O problema energético actual tem, em suma, que ser visto como aquilo que é: uma emergência real e global, que exige respostas globais, rápidas, bem informadas, criativas, tecnicamente competentes e democraticamente supervisionadas. Menos do que isto, ou deixar as coisas como estão, i.e. num impasse e entregues aos oportunistas de ocasião, só poderá conduzir o mundo ao desastre.

No sector da empresa onde trabalho há produtos cuja margem não compensa o custo de transporte na exportação para a Europa além Pirineus. No sector do fabrico de tintas, a exportação é quase impossível. No vestuário, o problema não se coloca. O Norte abastece lojas mundiais da Zara, por exemplo. Para manter a nossa base industrial viável e para evitar que a nossa e futuras gerações paguem a carteira de encomendas actual do «lobby» betoneiro-projectfinance-PPP, é essencial que estes assuntos sejam amplamente debatidos.

PS: Uma alternativa sensata de produção de biodiessel a Norte: Norgen

1 comentário:

Mario disse...

óptimo artigo

Ainda havemos de ver os burros a pastar nas AE e semear batatas nos campos de Golf dos pin

cumprimentos

Leituras recomendadas