20080528

Alertas do Norteamos inspiram tese de mestrado em Geografia na UMinho

Os leitores mais atentos encontrarão na seguinte tese muitos dos alertas que temos publicado, como por exemplo este.

Na conjuntura actual do aumento de combustíveis e do uso excessivo do automóvel em detrimento do uso do transporte colectivo, as decisões políticas constituem marcos decisivos para o futuro. No entanto, o passado recente tem revelado decisões que pouco têm de sustentável na melhoria da mobilidade das populações.

O Livro Branco dos Transportes na União Europeia indica o caminho da gestão sustentável da mobilidade favorecendo o transporte ferroviário em detrimento dos transportes rodoviários, pelos conhecidos problemas ambientais e sociais.

No entanto, as decisões nacionais têm-se pautado por medidas que favorecem o transporte individual.

Veja-se o caso do Comboio de Alta Velocidade (AV), cujo traçado esteve dependente do traçado de uma rede externa à nossa (rede Espanhola para o comboio de alta velocidade) o que condiciona o futuro económico da região Norte. De facto, sabendo que o AV será um transporte vocacionado principalmente para o transporte de mercadorias, uma vez que não consegue competir em termos de tempo/custo com o transporte aéreo no que diz respeito ao transporte de passageiros para distancias superiores a 600km, a rede em formato “L” acaba por favorecer Lisboa, colocando-a mais perto da Europa. Em contrapartida, a Região Norte e Centro, onde a concentração de empresas e indústrias é maior, fica marginalizada face à rede ferroviária, o que favorece o transporte rodoviário para colocar os produtos na Europa.

Esta situação não se colocaria no caso do traçado do AV ser em formato “T” ligando Porto a Lisboa e ao mesmo tempo a Madrid mas por Salamanca e não por Badajoz como é o traçado actual. Neste cenário a rede de AV acabaria por servir uma área de potencial utilização muito maior do que a servida pela rede em “L” aprovada.

No entanto, mesmo com a estratégia assumida pelo governo parece-nos haver três situações que suscitam algumas dúvidas.

Comecemos pelo aeroporto de Alcochete; o Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações (MOPTC) prevê uma estação de AV para servir esta futura infra-estrutura aeroportuária. Na nossa opinião é uma opção errada, uma vez que a população da Área Metropolitana de Lisboa (AML) dificilmente tomará o Comboio AV para percorrer uma distância tão reduzida. Por seu turno a região do Alentejo não tem população potencial utilizadora do aeroporto suficiente que justifique a estação em Alcochete.

Badajoz verá o seu aeroporto remodelado e o Novo Aeroporto de Lisboa (NAL) não será um hub vocacionado para o público espanhol.

A população que se desloca desde o Norte de Portugal vinda de AV pode perfeitamente, na Estação de Lisboa Oriente, tomar um comboio convencional até ao NAL, desde que essa troca seja feita de forma eficiente.

A segunda situação prende-se com uma eventual linha entre Aveiro e Salamanca. Uma vez que a opção “T” não foi adoptada, não nos parece pertinente a construção desta linha, uma vez que Aveiro, Viseu e Guarda não tem massa critica suficiente para uma ligação a Salamanca por AV. Como alternativa a esta linha, para o escoamento de mercadorias, temos a Linha do Douro, que liga o Porto ao Pocinho (Concelho de Vila Nova de Foz Côa) mas que outrora ligava o Porto a Salamanca, sendo que o canal ainda existe, pelo que as obras de recuperação ficariam bem mais baratas do que a construção de uma nova linha.

A terceira situação está novamente ligada às questões aeroportuárias. O traçado inicial não contempla uma ligação ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro (ASC), o que na nossa óptica vai prejudicar gravemente esta infra-estrutura. Uma grande parte do catchement área deste aeroporto provém da Galiza, nomeadamente da zona sul e assim sendo parece-nos viável uma ligação ao ASC. Nos moldes previstos qualquer pessoa que se desloque ao ASC vinda de AV terá de se apear na Estação de Porto Campanhã e tomar o light rail da Metro do Porto, e terá assim de prolongar a sua viagem por mais 30 minutos (caso venha do Sul) ou mesmo 45, caso venha da Galiza.

O MOPTC, através da Secretária de Estado Ana Paula Vitorino, garantiu que fica reservado um canal entre Braga e o ASC para, assim que se justifique, lançar uma nova linha. Enquanto isso, entre Braga e o Porto o AV circula pela actual Linha do Minho.

Na nossa óptica, vai-se desenvolver o seguinte cenário: sem a possibilidade de ligação directa ao ASC o AV deixa de constituir uma mais valia para os espanhóis e assim perderá competitividade, e como tal, nunca se justificará a construção da ligação ao ASC, entrando-se assim num ciclo vicioso.

Temos também algumas dúvidas acerca da viabilidade da circulação do AV na actual Linha do Minho, uma vez que se trata duma linha altamente congestionada, nomeadamente entre Braga e Porto, aumentando este tráfego à medida que nos aproximamos do Porto.

Trata-se então de um exemplo em que a decisão política não avaliou devidamente as consequências na mobilidade e o impacto no desenvolvimento económico de uma região, pondo em causa as estratégias nacionais e os princípios consagrados a nível internacional quanto ao tema mobilidade.

Por Carlos Eiras (artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular "Economia e Política Regional" do Mestrado em Geografia, do ICS/UMinho)

6 comentários:

António Alves disse...

Pois. Há muito que eu ando a martelar nestas teclas.

Por Manuel Costa disse...

Relativamente ao aeroporto de Alcochete, os centralistas defendem que será viável económicamente pois prevêm um aumento exponencial de tráfego.
Neste mundo em que os preços do petróleo aumentam desmesuradamente e em que se prevê que a produção comece a diminuir, apesar de terem descoberto mais algumas bolsas de petróleo, não creio que faça sentido investir em aeroportos mas sim em linha férrea electrizada de alta velocidade.
O que será do norte de Portugal se estas políticas continuam...

Bruno Martins disse...

Viabilidade ou não a verdade é que a maior porta rodoviária em Portugal (face aos fluxos entrada/saída) é o Eixo IP5/A25, Vilar Formoso - Ílhavo/Aveiro.
Outra verdade é que o Distrito de Aveiro é um dos maiores pólos industriais de Portugal e o Porto de Aveiro cada vez se afirma no panorama nacional.
Porquê ser tão ríspido nas palavras na ruptura da acessibilidade e mobilidade desta região? Falta de massa crítica? Eu não verifico tal facto... Estudo OT&D em Coimbra e os estudos verificados em diferentes metodologias apontam para uma maior Coesão Económica e Social dos diferentes territórios referidos no Plano Nacional de Politicas de Ordenamento do Território e complementos das Políticas Europeias e vão ao encontro à nova visão estratégica Nacional. Será que contrariar o crescimento de novas realidades será o caminho certo? Queremos reforçar a ideia de deserto nacional com a bipolarização nacional da população portuguesa no Porto e Lisboa? Há que pensar diferente e não tirar credibilidade a estes projectos.

Ventanias disse...

Ainda um dia será feita a verdadeira história do criminoso processo que trocou o T pelo L, e dos seus igualmente criminosos autores... Enquanto há vida há esperança e eu, por mim, lutarei para que ela se materialize!

Dito isto, ainda me choca mais o que não se fez (modernização da rede ferroviária) do que aquilo que se pretende vir a fazer (tgv)...

Jose Silva disse...

Bruno,

Umas lições de Geografia: O distrito de Aveiro tem metade da população e PIB do distrito do POrto. Aveiro-Coimbra tem uma linha da Beira Alta pronta para mercadorias em ligação ao respectivo porto de Aveiro. Tem uma A25 em funcionamento.

Efectivamente acho que faz mais sentido fazer o upgrade da linha do Douro do que construir uma nova linha Aveiro Salamanca descentrada da maior densidade económica e populacional a Norte, que é no distrito do Porto.

Estou a falar de upgrade e não de novos investimentos.

Bruno disse...

Sr. José Silva:
Outra das "lições" de Geografia Nacional será a potencialização e o estabelecimento das novas políticas descentralização, seja à escala do PNPOT, bem como à do PROT.
Como tal, será necessário concretizar investimentos em outras regiões, que não as habituais Lisboa e Porto.
Um caso prático e já mencionado pelo Presidente da ANMP, a única cidade da Europa com 100mil habitantes e sem uma estação de comboios, Viseu. Também se poderá efectuar um "upgrade" à «linha do vouga» e aproveitar o seu traçado (que foi refuncionalizado para ciclovia e rede pedonal) em determinados concelhos.. A ligação até Viseu já existe e não o vi mencionar esse facto? Porque não?
O Porto de Aveiro não tem ligação à linha da Beira Alta mas sim à Linha do Norte, por intermédio da estação multi-modal, localizada na freguesia de Cacia (Aveiro), que fará (com lógica) ligação directa à linha TGV.
Verifique o potencial económico, no sector turístico, da região que lhe falo.
Veja estas imagens:
http://lh5.ggpht.com/brunobeira/SAH1kIuDC7I/AAAAAAAAAf0/dEkfRtKE2g4/IMG_3414.jpg
http://lh5.ggpht.com/brunobeira/R3_UeySCh5I/AAAAAAAAAKk/eMjQmMMVID4/ria-aerverao.jpg
Certamente que não haverá muitas regiões em Portugal como tamanho potencial e impacto por explorar.
Um abraço.

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