20080504

PBO (Politicians Buyout)

A única crítica que coloco aos comentadores/bloggers lisboetas, como ABCaldeira, é o facto de eles não detectarem que as «máfias» tem um caracter regional: Lisboa. Cá a norte, se excluirmos a Mota-Engial e Soares da Costa, não existem empresas envolvidas neste tipo de negócios. O grosso da economia a Norte é de PMEs que tentam exportar, concorrem com estrangeiros e investem em I&D, sendo a Efacec e Bial os recordistas nacionais no sector privado ! Mais um contributo para a detecção do Marxismo-Yeltsinismo, um Neo-liberalismo, nada liberal e muito «Palermo» ! Vejamos então o conceito:

(...)No novo paradigma do poder, o que é novo - que o salazarismo não tinha, nem sequer o marcelismo teve - é a perceptível manobra de conquista de quotas de capital de grandes grupos económicos por protagonistas políticos, muito para além do tráfico das comissões e distribuição de luvas que a democracia representativa acolhe ou não resolve. Isto é, na linha putínica que já aqui foi denunciada, o despudor está a chegar ao take-over de grandes grupos financeiros e económicos por dirigentes políticos. Não se trata já de pagamento de serviços por contratos e negócios, mas a contrapartida de cedência de partes de capital, numa evolução para aquilo que posso cunhar ser o PBO (Politicians Buyout) - a tomada do capital de grandes grupos financeiros e económicos por políticos influentes. «É um grupo económico dependente do favor do Estado? Nós queremos uma parte do seu capital!»

Em Portugal - País que é nosso e Estado que é deles - é indecorosa a promiscuidade intestina de relacionamento, a circulação de protagonistas do PS entre o Governo e grandes grupos económicos, a protecção de abusos de posição dominante e cartéis (simulando repressão...), a divisão, arbitrada pelo poder, da escassa receita pública entre os maiores grupos económicos em negócios de natureza financeira que quase nada acrescentam ao bem-estar do povo, transferindo apenas alguns cobres para mais uma leva de imigrantes pobres, sem sequer a contrapartida de criação de empresas industriais de base tecnológica por esse grupos, sem investimento, sem criação de riqueza.

Esse desprezo dos grandes grupos económicos portugueses pela criação de investigação e desenvolvimento aplicados e indústrias de base tecnológica - inclusivamente, nos próprios grupos que o Estado detém ou participa, como a Caixa Geral de Depósitos, os CTT, a EDP, a REN, a PT, a Galp! - decorre do facto de ser muito menos arriscado e mais lucrativo no curto e médio prazo aproveitar as oportunidades financeiras (financeiras, financeiras, exclusivamente financeiras!) que o Governo PS lhes proporciona. Para disfarçar anuncia-se e reza-se desde há três anos um diletante Plano Tecnológico que produz convénios universitários e artigos científicos, em lugar de produtos comercialmente viáveis lançados no mercado. Em vez de criação de riqueza de base tecnológica, assistimos pasmados - e sem reacção partidária concreta, com a excepção do Bloco de Esquerda - à transferência directa de dinheiro do Estado para os grandes grupos económicos, em gigantescos negócios financeiros, intermediada por uma série de protagonistas pê-éssicos.

9 comentários:

António Balbino Caldeira disse...

Chiça!

Já farta, caro José Silva! Sou de Alcobaça, vivo em Alcobaça. Bem na ecúmena Do Portugal Profundo, aninhado num dos núcleos geo-históricos de Portugal que é Alcobaça, cabeça da Ordem de Cister que consolidou a economia medieval do País.

Não há ponta de Lisboa nisto! De Lisboa estou a 109 km pela estrada antiga com acesso pela A-1.

Não é ofensa, mas quase. É que vivo aqui, sinto o custo de viver aqui, daqui não saio, nem quero sair, e ainda por cima passo pela fama do privilégio de ser de Lisboa!...

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Relativamente à sua análise do meu texto. Acho que o Politicians Buyout (PBO) não é uma questão de origem regional, mas de acesso ao poder. O capital flui das zonas de menor rendimento para as zonas de maior rendimento: a nossa CEE/UE deu Lisboa e secou o resto. Os grupos económicos e as empresas aproveitam o acesso ao poder que conseguem, independentemente da origem. A translacção da base do Porto (forte no cavaquismo) para a Cova da Beira tem algum significado, mas o poder imediatamente se recompõe e adapta.

Não é um problema de origem, mas de acesso pessoal e de sector (a indústria decaíu e fortes são hoje as fiannceiras, as telecomunicações, utilities, etc.). Como explicar de outro modo, o acesso privilegiado da Amorim, da Mota, e apesar de tudo da Sonae.

Não há um pecado original: há uma política perversa de concentração do desenvolvimento em Lisboa. E para mudar de modelo (o que é indispensável e urgente), nós discordamos: o José Silva é favorável à regionalização e eu não.

Faça-me é a justiça de não me voltar a situar em Lisboa, pois abaixo do Porto não somos todos mouros, nem para norte e leste todos espanhóis.

Desculpe a vivacidade da linguagem, mas o epíteto de lisboeta aborrece-me.

Jose Silva disse...

António,

Não percebeu!

Para mim «lisboeta» não tem a ver com local de nascimento ou residência, mas sim como forma de pensar. E neste aspecto você é lisboeta.

Porquê ?

Porque ao retratar bem a decadência do sistema político-económico, toma o todo pela parte. Isto é, assume que toda economia nacional sofre do paradigma decadente que relata, quando efectivamente esse paradigma é apenas da região de Lisboa. fora desta região os negócios são (estatisticamente) limpos e independentes do Estado Central. Os moldes ou cristais da sua zona oeste são objecto de PPPs ? O grupo do Henrique Neto, na sua vertente extra-OTA, resultou de alguma privatização mafiosa de serviços ou empresas públicas ? Claramente não.

O seu problema e JPP, António Maria, MST e outros mais é julgarem que a manipulação do estado Central pelas «máfias» ser um problema nacional. Não é. É apenas um problema regional da economia lisboeta. Aliás, o seu blogue deveria chamar-se «Da Lisboa Profunda».

Entretanto tenho que voltar ao trabalho. Na PME do vale do Ave onde trabalho, pretendo aumentar a nossa quota de exportação ainda este ano, assim como montar um nucleo de ID.

Volte sempre.

Pedro Menezes Simoes disse...

"Para mim «lisboeta» não tem a ver com local de nascimento ou residência, mas sim como forma de pensar. E neste aspecto você é lisboeta."

Nesse caso está a usar a expressão "lisboeta" como insulto, o que é duplamente desadequado : )

Confesso que me sentiria indignado se alguém utilizasse o epíteto "portuense" ou "nortenho" para descrever alguém que apresenta determinados vícios de raciocínio... (ah, pois, isso era feito na "floribella", e o epíteto era "estúpida tripeirinha" em prime time...)

O que não se aplica quando se trata de Máfia de Lisboa (ou máfia lisboeta) ou de Utilização do Estado para concentração em Lisboa.

Jose Silva disse...

Pois Pedro, ao dedicar-me a detecção de padrões, acabo por não ser rigoroso com os «lisboetas».

O aveirense ?

António Balbino Caldeira disse...

Caro José Silva

Não respondeu aos exemplos que lhe apresentei e que, em minha opinião, provam que é uma questão de acesso e não de origem. A não ser que se utilize a táctica leninista de inverter completamente o sentido das palavras, como chamar social-fascistas aos trotzkistas: o que significa chamar "lisboeta" a Amomrim, Mota, Belmiro... Raros são os empresários que tenham acesso ao poder que não o usam.

Há premissas geográficas básicas que não se torcem com a redução da análise de quem não é pela regionalização é contra o Norte (na versão... Porto) e Portugal:

1. Há mais Norte, além do Porto.
2. Há mais Portugal profundo além do Norte.
3. Há mais Portugal além de Lisboa.

Aliás quando criei o nome do blogue foi pela resistência à concentração de desenvolvimento em Lisboa e desertificação do resto. E mesmo assim sou chamado "lisboeta", dizendo-me que defendo o que ataco!...

A redução dos divergentes à família "lisboeta" tem a ver com a tese de que é "lisboeta" toda e qualquer pessoa que se oponha à regionalização do País. De que todo o municipalista, como eu sou, é alguém que defende a concentração do desenvolvimento em Lisboa.

Caro José Silva, como você não admite a legitimidade de quem fora de Lisboa (e até contra o modelo lisboeta de desenvolvimento) se oponha à regionalização, conclui que só pode ser lisboeta quem tal faz.

E como, após protesto, não é possível que reconheça o que na alma e no corpo defendo, não me parece que seja possível convencê-lo do que sou quem digo. Mas sou. Do Portugal Profundo.

Jose Silva disse...

António,

não percebeu novamente.

Não estou a falar de regionalização ou afins. Estou a afirmar que estatisticamente, a economia virada para o mercado doméstico, de serviços, largamente beneficiária de privatizações, PPP e afins, está sediada em Lisboa. O tráfico de influências que existe nestes sectores ococrre em Lisboa.

Ainda bem que fala da Sonae. A Sonae tentou várias vezes ficar com empresas deste tipo de sectores: Banca e telecomunicações. E não conseguiu. Aliás, é conhecido que o norte passou ao lado das privatizações...

Eu voltarei à carga com um post mais estruturado sobre este assunto e depois envio-lhe.

Pedro Menezes Simoes disse...

Parece-me é que às vezes é perigoso utilizar termos que podem ter vários significados e interpretações. É importante criar novos termos.

Nesse sentido, parece-me que o termo "lisbonário" até foi bem conseguido. São os mercenários da concentração do investimento/poder/demografia em Lisboa.

Certo, não é exactamente a mesma coisa que o termo "lisboeta" da forma que o usa. "Lisbonário" não se aplicaria nunca ao António Balbino Caldeira. Aliás, ele combate os "lisbonários".

Quanto ao divulgar aos nossos leitores a origem (do nascimento ou local onde vivem actualmente) de determinada pessoa, apenas me parece relevante se for dada de forma precisa.

Jose Silva disse...

OK, avancemos então com o termo «lisbonário».

De qualquer modo é típico dos «lisbonários» terem uma visão etnocêntrica, isto é, considerarem que a sua etnos se aplica aos demais. Neste caso ABC generaliza a toda a economia nacional o tráfico de influências que se pratica em Lisboa. Quando muito poderia referi-lo nas autarquias e seus fornecedores. Porém o volume de negócios destas não é significativo e a camprã seria novamente a CM Lisboa.

Já agora, uso sempre «máfias» entre aspas. Felizmente ainda não se mata ninguem para se traficar estas influências.

António Alves disse...

o "lisbonário" paga-me direitos de autor :-)

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