20070830

"Guerra" Porto vs. Estado Central II

Um erro muito comum é achar que o Porto luta pela autocracia por causa da sua importância económica. Não é verdade. Já muito antes do vinho do Porto (sec. XVIII) que o Porto luta pela autocracia. O Porto viveu em luta constante com os bispos que nela habitavam, e que procuravam controlar os poderes da cidade. Rapidamente serão os reis a querer controlar a cidade. Apenas no sec. XVI D. Manuel I conseguiu impôr o "juíz de fora" e revogar a regra que impedia a presença de nobres por mais de 3 dias - contra o que as instituições municipais e a população reagiu muito negativamente (afinal, tinham impedido os bispos de fazer o mesmo durante centenas de anos).

Esta aversão a todo o poder externo (rei, clero, nobreza) sempre caracterizou o Porto. É verdade que os ingleses trouxeram ideias liberais. Mas apenas no Porto residia o espírito proto-republicano onde estas ideias poderiam dar fruto.

Não é por acaso que a luta pela liberdade no país sempre residiu nesta cidade: na guerra civil de 1383-85, na revolução liberais, na luta pela restauração da carta constitucional, na luta pela República, ou mesmo no apoio popular ao Gen. Humberto Delgado...

Há quem apelide esta "luta" de ridícula, mas a verdade é que ela é tanto mais ridícula quanto é evidente que, enquanto o Porto luta pelo que é seu, outros lutam pelo que é do Porto.

Dizem que é um assunto que não tem importância, mas não abdicam do que não é deles. No final de contas, o verdadeiro espírito do provincianismo reside aqui: acham que, na sua rua, sabem o que é melhor para a rua dos outros.

17 comentários:

Salem disse...

Chamar ridiculo ou provincianismo à causa do Norte é apenas uma forma que arranjaram para nos tentar tirar crédito..

Anónimo disse...

vcs têm de se mentalizar de uma coisa: a maior parte das pessoas que vivem em Lisboa, que muito provavelmente vieram do Norte ou são descendesntes de pessoas do Norte que se fixaram em Lisboa, não ligam nenhuma ao Norte!!

Estão mais preocupadas com questões próprias: como a falta de hospitais, a falta de escolas, autoestradas pagas, nova ponte, novo aeroporto... E querem ver estas situações resolvidas e não olham para outras regiões do país para justificar o atraso! É por isso que na região de Lisboa, as pessoas do norte sao vistas como "morcões". De resto, tão-se a bem lixar para estas questões de guerrilhas.. Já queriam era o TGV feito até ao Porto para realizar negócios, por exemplo!

Pedro Menezes Simoes disse...

Caro anónimo,

É óbvio que as regiões com autonomia administrativa não culpam as outras dos seus problemas. Mas é também óbvio que aquelas que não têm autonomia administrativa culpem o Estado Central. Se o Estado Central insiste em assumir o poder, que assuma também a responsabilidade. Não vejo o norte a culpar as outras regiões: vejo o norte a culpar o Estado Central e a sua miopia. (miopia = ve mal ao longe)

De resto, caro anónimo, está com mania de perseguição. Aqui não se falou em Lisboa, falou-se em Estado Central.

fm disse...

O que eu acho muito interessante neste comentários, é a capacidade de se confundir o Porto com o Norte com se fosse um quintal deles, se calhar sofrem de hipermetropia (vê mal ao perto).
Nunca vi nenhuma pessoa do dessa zona preocupada com o fim da construção da ponte de Quintanilha, nem com a falta de serviços médicos no interior, nem com a falta de escolas… bem seria uma lista infindável de problemas, vemos sempre é preocupados com mais uma linha de “metro”, em receber mais fundos da união europeia, em sugar o pouco que resta do verdadeiro Norte (Minho e Trás-os-Montes e Alto Douro). Estas regiões tem o direito de reivindicar com o poder central duplo (duplo porque o maior investimento para a zona Norte fica no Porto). Por isso deixem-se de coisas, não misturem o Norte com uma cidade… O Norte é Bragança, Mirandela, Alfandega da Fé, Monção, Caminha, Melgaço, Vila Real, Viana do Castelo, Vila Conde, Guimarães, Braga, Famalicão, Barcelos, mais todas as cidades, vilas, e lugar que cá existem…
Façam lá a vossa “guerra” mas deixem o Norte em “paz”.

cenTauro disse...

Não seja arrebatado meu caro!

O Porto sempre foi dominado e controlado pela igreja dirigida pelo seu bispo! Basta dar uma volta pela cidade para constatar o óbvio: igrejas, capelas e conventos por todo o lado. A famigerada emancipação da burguesia tripeira não passa de um mito; os senhores do burgo eram os primeiros a ajoelhar-se perante o bispo e com ele negociavam os seus interesses. O temor a Deus pelos pobres ignorantes sempre foi mantido com sucesso durante séculos! Evidentemente o poder da nobreza altiva e da Coroa era uma ameaça a este arranjinho muito bem montado pelo Divino.
Repare que a ausência da nobreza obrigou a ausência da vida de Salão: das artes, da música, da curiosidade cientifica, etc. e agora pagamos a factura pesadíssima das opções “devotas” dos nossos antepassados.
Esta obediência eclesiástica de várias gerações passadas talvez explique uma boa parte do nosso atavismo crónico e sem duvida a razão do nosso desdém pela vivência democrática, que como sabemos, exige liberdade e responsabilidade individual.

Pedro Menezes Simoes disse...

Caro, na abordagem histórica que estou a fazer refiro-me propositadamente ao Porto. Logo, as críticas de confundir Porto e Norte não são válidas. Mais tarde falarei do norte na questão da oposição ao Estado Central. Confusão seria estar a falar do Norte referindo-me à matriz identitária do Porto.


"Nunca vi nenhuma pessoa do dessa zona preocupada com..."
A sério? Ainda anteontem fiz um post sobre Viana, e como poderá verificar, acabei de fazer um post sobre bragança. Talvez fosse olhar atentamente para as coisas antes de começar a espumar os preconceitos que lhe ensinaram a ter sobre as pessoas do Porto e do Norte.

"vemos sempre é preocupados com mais uma linha de “metro”"
Curiosamente, neste blogue têm sido feitas propostas contra algumas linhas de metro (ex. Trofa). A sua crítica não colhe.


"em receber mais fundos da união europeia"
Na verdade, temo-nos é insurgido contra o facto de se prever que fundos destinados pela UE às regiões pobres de Portugal virem a ser alocados às regiões ricas.

"em sugar o pouco que resta do verdadeiro Norte (Minho e Trás-os-Montes e Alto Douro).Estas regiões tem o direito de reivindicar com o poder central duplo (duplo porque o maior investimento para a zona Norte fica no Porto)."

Onde está o poder central executivo ou legislativo no nosso país? É no Porto?
É que para reclamar do investimento no Porto, têm que ir fazê-lo à Capital, não ao Porto. O Porto não tem poder de decisão. Quem tem o poder é que tem a responsabilidade. E o poder está na Capital.

Ainda assim, já está na altura das gentes do Douro, Minho, Trás os Montes, Aveiro, começarem a fazer sentir a sua voz. Querem autocracia? Lutem(os) por ela.

De resto, a sua crítica, para além de inválida, é inoportuna. Não hque eu tenha escrito indica que eu esteja a falar do Norte.

Pedro Menezes Simoes disse...

O meu comentário anterior é para o fm

FM disse...

Entendo que encarou o meu comentário com um ataque ao seu texto. Não era essa a minha intenção.

O meu comentário está direccionado para muita boa gente (políticos, formadores de opinião, etc…) que enchem a boca para falar do Porto confundindo-o com o Norte (o que é bastante frequente), tratando com um pequeno quintal que lhes pertence. Principalmente para poderem reclamar e pedir investimento, que acabam por ficar quase todo na AMP.
“O Porto não tem poder central executivo” mas tem um “Lobi” que sufoca toda a região como sabe.
Toda a gente sabe quando o Norte se queixa por falta de investimento por parte do poder central, o governo “atira” mais uns milhões para investir no Porto e o resto fica com umas pequenas migalhas.


O meu comentário não vai contra o Blog (que visito com regularidade), pelo contrário, nem contra o autor do referido texto.
De referir que não sou uma pessoa preconceituosa muito menos me “espumo”. Apenas admito a realidade que esta perante os nosso olhos.

Pedro Menezes Simoes disse...

Nesse caso concordo com as suas críticas, e peço desculpa por algum excesso.

sguna disse...

Caro fm, tem razão. Isto é um país a 3-4 velocidades: Lisboa-Porto-Litoral-Interior.

O facto de um país tão pequeno, com tão pouca gente, ter tais assimetrias, só ilustra a incompetência dos seus responsaveis!

António Alves disse...

"vcs têm de se mentalizar de uma coisa: a maior parte das pessoas que vivem em Lisboa, que muito provavelmente vieram do Norte ou são descendesntes de pessoas do Norte que se fixaram em Lisboa, não ligam nenhuma ao Norte!!"

Em nome da verdade científica: embora haja muita gente com ascendencia nortenha em Lisboa, a maioria das pessoas que habitam a região da grande Lisboa tem origem no Alentejo e beiras interiores. O processo de crescimento das duas áreas metropolitanas portuguesas tem origem nos anos 60, década em que se inicia um grande processo de transformação da sociedade portuguesa. No Norte o grande fenónemo de êxodo rural, além da migração para o Porto e em menor escala para Lisboa é a emigração para a Europa para onde saiu cerca de um milhão de pessoas. Para Lisboa foram essencialmente alentejanos, cujos índices de emigração são mínimos, e gentes das beiras interiores. Basta ler o professor António Barreto, investigador do ISCTE e sociólogo emérito, a maior autoridade nesta matéria, para saber isso.

Este anónimo é o nosso conhecido rotor que apenas resolveu mudar de estratégia. A mim parece-me que é hora de este blogue apenas aceitar comentários de gente devidamente identificada com uma inscrição no google e perfil no blogspot e cujo IP possa ser devidamente identificado. Apenas para evitar a cobardia e a provocação anónima. Caso não se considere isso necessário - é uma questão que deixo ao José Silva ponderar - eu, por mim, não pretendo continuar a colaborar com este blogue para assim não ter que conviver com gente que não tem coragem para dar a cara. A cobardia é uma coisa que me causa repugnância.

António Alves disse...

só mais uma coisa: "morcão" é um vocábulo tipicamente portuense, normalmente utilizado de maneira carinhosa, que, ao que parece foi adoptado por alguns ressabiados da bola para qualificar as gentes do norte em geral. Estes infelizes, de tão ignorantes, nem se apercebem que uma palavra que utilizamos de modo simpático e carinhoso não nos faz qualquer mossa. Ao contrários do "mouros" que nós usamos de modo manifestamente pejorativo e que os leva a trepar pelas paredes. Enfim, eu cá acho que é tudo uma questão de sinapses: algus têm-nas mais afastadas umas das outras; outros não.

Jose Silva disse...

António,

Acabei de chegar de férias da blogosfera. Fechar os comentários é uma questão a considerar.

Pedro Menezes Simoes disse...

Penso que basta não permitir comentários anónimos, e usar a possibilidade de censura quando estritamente necessário.

Pedro Menezes Simoes disse...

Caro Centauro,

tem alguma razão nas questões do clero e da falta de vida de salão.

Quando ao "atavismo crónico e desdém pela vivência democrática" tenho vindo a argumentar precisamente no sentido contrário. O estado de insatisfação constante e a crítica permanente fazem parte da matriz cultural do Porto. Aliás, eu diria que o seu comentário é exemplo disso.

Não é por acaso que os dois maiores blogues políticos portugueses (Abrupto e Blasfémias) são dinamizados por portuenses...

Nota: Há que dar os parabéns ao Minho pela excelente iniciativa do BlogMinho. Uma iniciativa a copiar por todas as outras regiões.

António Alves disse...

Fechar os comentários e censura não é desejável e é até contra as minhas convicções. Agora, quem quiser opinar identifica-se e sujeita-se à legalidade. Cobardia anónima é que não. Não estou disposto a conviver nem a alimentar esse tipo de coisas.

Pedro Menezes Simoes disse...

António Alves:

Há 3 tipos de abertura da caixa de comentários:
1- Abertura Total
2- Fechado a anónimos
3- Fechado a utilizadores não registados

Eu proponho a 2ª. Se ainda assim houver "flamers", passemos para a 3ª.

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