20080214

Os equívocos na Comunicação Social Portuense

O Público de hoje publica um direito de resposta da direcção do JN, abaixo apresentada. O JN desculpa-se, defende-se. Porém não refere o obvio: Apesar de legítimo por ser uma empresa privada, o JN estava completamente «lisboatizado» até à compra da Lusomundo por Joaquim Oliveira. É certo que não faltava circo para o Norte, casos de polícia, futebol, tragédias ou bailaricos. O grave é que desprezava os assuntos relativos ao desenvolvimento do Norte ou concentração de Portugal em Lisboa. Eu posso afirma-lo porque durante bastantes anos fui doentiamente leitor do JN dos Domingos. Relembro que por essa altura fechou a NTV, o Comércio do Porto e o back-office do Público foi para Lisboa . O JN teria medo... Após Joaquim Oliveira, o cenário mudou. Aliás, a própria TSF é agora muito mais nacional, racional e reporta inclusivé temas de fora de Lisboa e Porto. Esta versão lisboeta do JN e o ter conseguido sobreviver apesar disso é de realçar. É mais um indicador do estado de anestesia futeboleira ou estado de contaminação pela política sem coragem/«privatizadora»/sem desígnio de Rio, em que a sociedade civil portuense viveu desde o referendo da Regionalização até à emergência da Blogosfera e de Rui Moreira. Assim, ao não referir esta questão, a desculpa do JN é mesmo para inglês ver. Um assunto a debater logo na 2ª sessão dos Olhares Cruzados sobre o Porto, conjuntamente com os tópicos que ontem apresentei, assim como o mistério de apenas a AMPorto não possuir a sua InternetTV, ao contrário do resto do Norte.

Direito de Resposta

Sim, vivemos num país em que as pessoas lêem menos do que o que deviam. Sim, o modelo centralizador do Estado, numa sociedade tão dependente dele, concentra em Lisboa o poder político, económico, a opinião pública, os principais actores culturais e muitas das forças mobilizadoras da nossa vida em comunidade. O Porto, o Norte, justamente aspiram a um país mais equilibrado, em recursos e em oportunidades, mas não têm conseguido opor uma dinâmica que contrarie esta realidade empobrecedora. Sim, a crise económica, a debilidade dos actores políticos, o eclipse das elites, a falta de um enunciado claro de objectivos para a região, reflecte-se também na perda de influência da comunicação social local. Mas, perante tão adverso cenário, tentar minorar o papel do Jornal de Notícias, que, contra a lógica estabelecida, continua a ser o principal órgão de imprensa nesta região, mantendo-se nos lugares cimeiros de audiência e de vendas a nível nacional, ou é cegueira, ou é pulsão suicida.

A professora Helena Lima, num artigo no PÚBLICO, que introduzia o interessante debate que este jornal leva hoje a efeito sobre a Comunicação Social no Porto, foi ao ponto de, para sustentar a alegada perda de presença dos assuntos regionais nas páginas do JN, afirmar que, durante 2003, o jornal publicou "zero" manchetes sobre o Porto. Não é verdade. Numa rápida leitura, de um ano dominado pela Guerra do Golfo, o processo Casa Pia e a vitória do F.C. Porto na Champions, encontramos pelo menos 25 manchetes com matérias sobre o Porto e 32 em que assuntos das regiões Norte e Centro (a área de predominância do jornal) foram o título principal, isto sem contar com o Desporto. Mas não chega esta leitura superficial. Uma primeira página é um manancial de soluções e as nove dezenas de imagens em que temas desta região foram a principal fotografia da primeira (o maior espaço gráfico desta página) deveriam contar para alguma coisa, ou será que estes números não encaixam na "teoria"?

Também o ex-director d"O Comércio do Porto, Rogério Gomes, em anterior análise, veio afirmar que quem quer publicar artigos atacando o centralismo ou defendendo a regionalização nas edições nacionais da imprensa portuguesa tem de "mendigar espaço". Alberto Castro, Luís Costa, Manuel Serrão, Honório Novo e Elisa Ferreira, que assinam semanalmente crónicas no principal espaço de opinião do JN, não devem entrar na contabilidade dos que defendem a regionalização, ou será que também aqui a contabilidade tem dificuldade em encarar a realidade?

Somos um jornal que se orgulha de dar relevância ao noticiário de proximidade, mas que não abdica de dar aos seus leitores uma leitura do país e do mundo, porque estamos certos que ele quer um jornal inteiro, que lhe permita melhor perceber decisões e acontecimentos que têm influência na sua vida, apesar de não ocorrerem na região onde vive. Ver nisto a "lisboetização" do JN é pretender um estatuto de menoridade para os cidadãos que nos escolhem como fonte de informação.

Sim, é verdade que todos nós temos razões de queixa do centralismo da capital, e muito gostaríamos de que o modelo espanhol, de forte imprensa regional e de jornais nacionais com muitas edições locais, também vingasse em Portugal. Mas ainda não vivemos em Espanha. Podemos, perante isto, afinar o coro da desgraça e dar como perdida a afirmação do jornalismo feito a partir do Norte, ou podemos, como faz o JN, como fazem muitos jornalistas que trabalham no Porto e no Norte, lutar todos os dias por tentar contrapor uma outra à visão, à perspectiva, dominante no país. Que o JN consiga fazer isso, à sua maneira, mantendo-se nos lugares cimeiros de vendas e audiências, parece incomodar alguns e inscreve-se num discurso de rendição que não vê que a região tem ainda, no seu interior, muitos valores positivos e alguma força para tentar contrariar o actual declínio. É pena, porque negar a realidade nunca foi boa estratégia para a alterar. A Direcção do Jornal de Notícias

3 comentários:

Luis disse...

Caro José Silva,

Qual é a característica comum às entidades que directa ou indirectamente refere no seu post(com o qual concordo na generalidade)?

JN
TSF
NTV
Porto Canal
Univ. Católica Porto/Público
Associação Comercial do Porto

É que estas são entidades que fazem parte da sociedade civil portuense, as verdadeiras forças vivas que deverão ser a base da nossa região. Desejo que a minha região se caracterize por um espirito liberal e independente em que não temos de depender do Estado e das suas benesses, libertando-nos dos humores dos políticos e da sua "boa-vontade" na distribuição de beneficios.
Por isso estar à espera que o Estado (governo, autarquias ou regiões administrativas) sejam o motor do desenvolvimento de uma região é o maior erro e a maior garantia de que o centralismo e a macrocefalia crónica de que Portugal padece se mantém ao serviço dos senhores do costume.

Cumpts,
Luis Filipe Pereira

Jose Silva disse...

Caro LFP,

Concordo consigo, não depender do Estado local/regional/central, desde que a regra seja uniforme e que esse argumento não seja para privatizar para amigos a preço de saldo. Ora, isto não se verifica. O Estado Central apoia uma certa região, mais do que as outras e privatiza serviços que beneficiam certos amigos. Se lêr com atençao o Norteamos encontrá muitos exemplos.

Pedro Menezes Simoes disse...

Caro Luis,

Obrigado pelo comentário. O senhor encarna o bom espírito portuense que tanto têm tentado destruir.

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