20080204

Quem ri por último…

A Linha do Tua reabriu o troço de 52 quilómetros entre Mirandela e Tua, quase um ano depois do acidente em que morreram três ferroviários. Esta reabertura como a manutenção da linha entre a estação de Foz-Tua e Mirandela deve-se exclusivamente à pertinência e empenho para uns, teimosia parola para outros, inveja, como já ouvimos por não ser contemplado com espelho de água, do presidente da Câmara Municipal de Mirandela. A transformação da via-férrea em metro de superfície por acção de José Gama, ridicularizada pelos bens pensantes de Lisboa, era o segundo metropolitano do país e nasceu muito antes do ansiado portuense. A obra inserida num vasto conjunto de realizações, entre elas pontuavam o Espelho de água e a Ponte Europa, pôs Mirandela do avesso, isto é, "pôs Mirandela no mapa", tornando-a mais conhecida e a mais visitada cidade do distrito de Bragança. O caminho-de-ferro tem-se mantido ao longo de uma boa dúzia de anos com uns comboios lentos e estranhos, sem casas de banho, pintados de verde, com um baixo índice de utilização, cujos utentes, particularmente turistas, são atraídos pela beleza do vale e pelo caricato da realidade descrita.

José Silvano, herdeiro natural de Gama, aparece nesta luta de salvar a linha do Tua quase sozinho, isto é, sem a solidariedade dos outros presidentes dos municípios ribeirinhos, nomeadamente Carrazeda de Ansiães, Alijó, Murça e Vila Flor, sem grande adesão dos naturais que grosso modo verão mais vantagens na construção da barragem, mas com o visível apoio de uma pequena estrutura partidária, “Os Verdes”, que politicamente está nas antípodas do seu pensamento e do Movimento Cívico pela Linha do Tua.

O autarca não poderia agir de outra maneira por variadas razões. Primeira, a linha férrea do Tua é actualmente uma criação de Mirandela e dos seus autarcas, existe graças a eles, e quem não gosta que se preservem as sua obras? Em segundo lugar, Silvano apresenta-se como o putativo líder distrital dos social-democratas, pertence ao restrito Conselho Nacional do PSD, é apontado por muitos como cabeça de lista das próximas eleições legislativas, terá de consolidar este perfil de liderança distrital como paladino e defensor dos interesses da região. Em terceiro lugar, o concelho mirandelense não tem directamente nada a ganhar, como todos os outros, com a construção de uma albufeira na foz do Tua, só perde um possível foco de aposta turística que a via-férrea também transporta. Por último, ao extremar a argumentação na defesa do comboio, parte para uma posição de força na negociação com o Governo e a EDP que só lhe pode trazer benefícios, quando forem distribuídas compensações, numa mais que provável construção da barragem e destruição da linha do Tua.

Todos os outros autarcas sorriem displicentes e irónicos pela “dita” inutilidade dos protestos e do folclore. Veremos quem rirá por último.

3 comentários:

Mario disse...

Mais um óptimo artigo

Parabéns ao José Alegre pela coragem e clarividencia

Lamentar a falta de .. tudo.. dos autarcas que por insensibilidade e incompetencia nem se aperecebem das atrocidades que cometem...
Deus lhes perdoe .. porque os transmontanos já não têm paciencia

Jose Silva disse...

Excelente análise !

Mario disse...

A propósito dos negócios e promessas

O Antes e o Depois

in Diário de Noticias 02/02/2008

A ALDEIA DAS PROMESSAS


João Marcelino
1 Por estes dias, um cidadão tomou a palavra no DN para se afirmar candidato a "apertar o pescoço ao Sócrates e ao Durão, porque o PS e o PSD foram ambos responsáveis pelo estado lastimável a que chegámos". Assim, brutal.

Estaria ele a fazer chicana política? Não. Quereria, então, protestar contra a Guerra do Iraque, os voos da CIA ou, até, contra os resultados da presidência portuguesa da União Europeia? Também não. Seria, ao menos, um descrente perigoso e contumaz das virtudes da governação do imenso bloco central que ilustra a tendência bem portuguesa para fugir aos terríveis perigos da direita e da esquerda bem assumidas? Nem isso.

Francisco Oliveira é, apenas, um alentejano desiludido - com os políticos e com o País.

O destino quis que se tornasse presidente da Aldeia da Luz. E ele, ao leme de um processo doloroso que levou um aglomerado de 360 pessoas a mudar de lugar em nome do interesse geral, acreditou nas promessas que lhe fizeram. Sonhou, pois, em desfrutar de coisas tão extravagantes como uma adega cooperativa, um posto de recolha de azeitona, um embarcadouro (ele disse marina), um lar de idosos, enfim, luxos que tornassem menos pesada a vida. E como lhe prometeram...

Mas o Estado português habituou-se a nem sempre cumprir. Os políticos dizem mas não fazem, a tesouraria não paga a tempo e muito menos admite os juros que em caso contrário exige. Além do mais, vá lá saber-se porquê, o País acha-se no direito de se reinventar com cada governante. Há um antes e um depois, sendo que em cada eleição o contador é posto a zero.

Neste caso concreto, entre o Estado e os habitantes da Aldeia há uma Empresa de Desenvolvimento e Infra-Estruturas do Alqueva (EDIA) à espera, todos estes anos depois, de "um relatório" para saber o que falta construir e o que deve ainda obrigatoriamente fazer.

José Sócrates, que nos últimos dias foi ao Alqueva ver como estão os grandes projectos turísticos anunciados para o imenso lago, tem aqui um óptimo pretexto para dar uma lição: remodelar o desleixo. Demonstrar que é o primeiro-ministro de ricos e de pobres. E a seguir, quando for possível, pode fazer um desvio e parar na Aldeia da Luz. Será, com certeza, bem recebido. Assim ele julgue ser essa a sua obrigação.

2 Não é rigoroso falar em remodelação. Houve, sim, um despedimento, com justa causa, do ministro da Saúde, técnico competente, político nada hábil. A prioridade, tornada urgente pela gritaria nas ruas, foi acalmar o povo, e só porque era absolutamente necessário se prestou vassalagem aos agentes culturais, e também aos pseudo. De uma penada, a ala esquerda do PS teve duas vitórias. Resta saber se isso será suficiente para Manuel Alegre renunciar à vertigem que parece consumi-lo: a de lançar um movimento que, pela terceira vez (depois da sua campanha a Belém e da candidatura de Helena Roseta a Lisboa), prove existir um outro PS, ainda capaz de mobilizar a utopia. A maioria do PS, como parece evidente, não resistiria a tanto. E Alegre resistirá a esse apelo?

Pelo estilo, Marinho Pinto é um bastonário fiel a quem o elegeu: os advogados que não têm sociedades montadas para mamar na teta do Estado e dos grandes negócios. Resta saber se conseguirá dar o salto que coloque as suas denúncias, genéricas mas muito aplaudidas, a salvo de um populismo sem sentido nem futuro.

PARA MEMÒRIA FUTURA:

Os líricos de cá nem forças terão para gritar quanto mais coragem para apertar seja lá o que for
mário

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