20070531

Crescimento de tráfego é numerologia...e numerologia é com a Maya!

Argumentos que o Governo tem utilizado para justificar a urgência da construção da OTA e do encerramento da Portela:

"O esgotamento da Portela antes da conclusão do novo aeroporto da Ota é um cenário provável que pode obrigar a avançar com novas soluções transitórias até 2017. O ministro das Obras Públicas, Mário Lino, reconheceu ontem que a necessidade de encontrar outras alternativas, para além do investimento em curso na expansão da Portela, é o cenário mais provável caso se mantenham as actuais taxas de crescimento do tráfego em Lisboa na casa dos 10% ao ano."

"O ministro das Obras Públicas, Mário Lino, disse ao «Diário Económico» que se «a
Portela esgotar em 2014 ou 2015 pode ter que se arranjar uma solução provisória, ainda que dispendiosa, mesmo depois de realizado o investimento de 350 milhões de euros», em curso, para a expansão da capacidade da Portela.
"


"Esta nossa capacidade de atracção tem ultrapassado todas as previsões, mesmo as mais optimistas. Quando, há uma dezena de anos, se falava do previsível esgotamento da Portela, falava-se numa taxa de crescimento do número de passageiros da ordem dos 4% ao ano. A realidade é que esse crescimento tem sido da ordem dos 10% ao ano. Ainda agora, no 1º trimestre do corrente ano, foi 13% em comparação com o período homólogo do ano passado."

O problema é que estas taxas de crescimento são conjunturais, e dificilmente duram até 2010:

  • As elevadas taxas de crescimento no sector da aviação estão relacionadas com a alteração do modelo de negócio de "companhias tradicionais" para "companhias low cost". Este efeito "ruptura" não deverá durar mais 2/3 anos.
  • As low cost têm compensado o aumento do preço do petróleo, mas tanto o aumento do seu preço, como principalmente a incorporação dos custos ambientais (licenças CO2) deverão aumentar fortemente os preços dos bilhetes.
  • O efeito da tecnologia torna também menos relevante as viagens. É cada vez menos necessário viajar para estar com outra pessoa. Basta uma conference call.
    A um período de estagnação (pós 11.09.2001) costuma-se seguir um período de forte crescimento. Estamos no fim do período de forte crescimento (até porque o resto da europa, ao contrário de Portugal, está em clara expansão económica).
  • Lisboa atravessa um bom momento no turismo em resultado do Euro 2004 (e mais atrás, da Expo 98), e obviamente do efeito das "low cost" no city break. Deverá ainda crescer bastante no próximo ano, fruto da presidencia europeia. Mas este acontecimento não é repetível.
  • Mais relevante que o número de passageiros, é o número de movimentos. A um forte incremento do número de passageiros corresponde um menor incremento dos movimentos. As companhias de aviação tenderão a usar aviões maiores nas mesmas ligações.

Ou seja, tudo leva a crer que as taxas elevadas são conjunturais, sendo espectável que estas se em breve se tornem muito baixas, ou mesmo nulas. Mas se o Governo insiste tanto nas taxas de crescimento mirabolantes, então nunca um aeroporto sem capacidade de expansão é solução para o país, e mais vale começar desde já a reservar espaço para um aeroporto em cada capital de distrito.

Sendo assim, só podemos concluir que os números são perigosos e convém analizá-los com cautela. Posto isto, e porque numerologias é com a Maya, parece-me muito mais inteligente optar por soluções graduais pouco dispendiosas e que permitam rentabilizar os investimentos já efectuados.

Trabalho de casa para os leitores: avaliar qual o impacto de menos 2% de crescimento anual do volume de passageiros no plano de negócios da OTA. (resposta: é um buraco maior que o que vão ter que lá fazer...).

6 comentários:

Jose Silva disse...

Pedro,

Já se verifica um menor crescimento da Portela em 2007: http://norteamos.blogspot.com/2007/05/leituras-20070517.html

PS: Apesar de não achar oportuno o debate de um eventual novo aeroporto a norte, não significa que não deva ser publicado. Tem liberdade para isso, ok ?

Cumprimentos
José Silva

pedro menezes simoes disse...

Eu sei, mas preferí retirá-lo porque estava em contradição com este post.

O facto é que utilizei as taxas que o governo utiliza para justificar a urgência do novo aeroporto (10% ao ano em Lisboa, logo seguramente 10% a 15% no Porto).

Mas com estas taxas de crescimento o ASC esgotaria lá para 2020-2025, pelo se deveria começar já a pensar numa alternativa... Na verdade, voltei a olhar para os números e percebi o disparate que andam a contar aos portugueses.

Nunca as taxas de crescimento serão, no médio prazo, de 10%. Se forem, então a OTA também não é solução pois esgota em 2019 (?). Sim, 2 anos após a inauguração.

Daí que só 2 conclusões são possíveis:
- Ou as taxas estão correctas e a OTA não serve porque o novo aeroporto precisa de capacidade de expansão; e precisamos também de um novo aeroporto no centro-norte.

- Ou as taxas estão incorrectas, e a Portela aguenta-se até 2017-2020(particularmente porque grande parte do tráfego é perfeitamente transferível para o ASC e Faro) e o ritmo anual de crescimento de passageiros possibilita a adopção de soluções graduais.

Fazendo as contas, a 2ª opção é muito mais credível. (logo, o anterior post era inoportuno).

Sendo assim, publiquei antes este post a desmontar a teoria das taxas de crescimento de 10%.

Pedro Morgado disse...

Caro Pedro,

Que aconteceu ao artigo sobre um novo aeroporto no Norte? Ainda hoje tinha pensado nisso...

Pedro Menezes Simoes disse...

Bem, acho que depois de publicado, não há nada a fazer. Vou recolocá-lo com uma nota final.

Pedro Menezes Simoes disse...

Pedro Morgado:
já está lá outra vez.

CA disse...

Neste momento não é certo quais serão as taxas de crescimento do tráfego aéreo. 2% é abaixo de todas as previsões. 10% é acima de todas as previsões. Mas, numa situação de incerteza, convém escolher uma solução de deixe opções em aberto e que funcione bem com todas as hipóteses. Ora a Ota funciona mal com todas as hipóteses e por isso é profundamente errada.

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