20081103

O FMI "já cá está". O Norte salvou-se.

Hoje é um grande dia, muito maior do que o dia da derrota da OTA. Norte salvou-se por vários anos da Drenagem e sabotagem que Lisboa constantemente exerce. A anunciada emissão de dívida para capitalizar os bancos coloca Portugal a caminho de sérios problemas cuja solução implicará a mudança radical de paradigma. Vejamos os factos:

O risco Portugal está a aumentar. Os financiamentos estão a passar de caros para impossíveis. Continuando cego à realidade, Portugal corre o risco de ser expulso do Euro ou deixar de receber financiamento externo. Para continuarmos no Euro teremos que aceitar e reequilíbrio da balança de transacções correntes, como em 1982, cancelar projectos que requerem endividamento e apostar na economia dos bens e serviços transaccionáveis. Não é/será  necessário uma declaração formal do BCE sobre a situação portuguesa, nem mesmo a vinda efectiva do FMI. As circunstâncias, os mercados, os decisors políticos nacionais e estrangeiros acabarão por implementar o que aqui escrevo. Estes factos macro-económicos tem força incrível e nem mesmo o descaramento propagandístico socrático ou a mafiosidade do bloco centralista de interesses consegue suplantar. Como se tem visto, aliás, nas últimas semanas, com constantes e descredibilizadores quebras de garantias de estabilidade.

Portanto as obras drenadoras, Alcochete, TGV Madrid, TTT, Nova Alcantara terminam definitivamente. Há 1 ano afirmei-o com base no encarecimento do custo de crédito que as tornaria não rentáveis para os privados. Hoje afirmo-o por causa da moratória que as circunstâncias estão a impôr à balança de pagamentos.

O Norte salva-se. O Centro, e Algarve também. É onde existe a economia dos bens e serviço transacionáveis. Lisboa em sentido metafórico, nos próximo 5 anos, será o dia seguinte dos sonhos dos superdragões.

A acção do governo está vedada. O keynesianismo terá que usar pouco financiamento externo e terá que gerar divisas. Ou seja, as obras públicas terão que ser de pequena dimensão e grande produtividade, como reclamava há dias Belmiro. Isto requer uma análise mais fina, só possível de ser gerida com a Regionalização.

No fim de semana MFLeite acertava: «Só tem sentido o apelo à ponderação dos investimentos públicos já previstos e à sua manutenção desde que melhorem a competitividade» Cedo ou tarde, esta marionete acabará por aceitar a Regionalização e deixar cair Alcochete e TGVs, mesmo que os «compromissos externos já tenham sido assumidos»...

É certo que o Norte terá recessão como todo o mundo ocidental. Porém a queda do modelo de desenvolvimento de Lisboa, por Drenagem, abrirá novos horizontes. As prioridades a Norte já não devem ser combater a privatização da ANA ou afins, porque estão completamente enterradas (ao cuidado de Alexandre Ferreira). Deverá ser sim em captar pequeno investimento público gerador de competitividade territorial, nomeadamente nos transportes, reengnhearia da admiinistração pública (Regionalização + Fusão Autarquias) e criar/consolidar um pensamento estratégico próprio.

O que escrevo só passará de aparente para realidade daqui por ano. No entanto respiro já de alívio.

14 comentários:

Pedro Menezes Simoes disse...

Também já tinha vindo a pensar nisso nos últimos tempos. De facto, está outra vez na hora de o Norte e o Centro virem salvar o país, e de parar a aposta nos não-transaccionáveis.

Entretanto, o Governo não terá hipótese senão potenciar essa situação. O recente apoio às PME é exemplo disso.

Pedro Menezes Simoes disse...

"As prioridades a Norte já não devem ser combater a privatização da ANA ou afins, porque estão completamente enterradas (ao cuidado de Alexandre Ferreira)."

Eu acho que efectivamente existe alguma probabilidade no adiamento da privatização da ANA. No entanto, o Governo demora sempre mais algum tempo do que nós (!), e em particular do que o José Silva, a perceber a conjuntura.

Pelo que existe o risco de que se privatize em 2009, mas só em 2010 o Governo perceba que isso não só era um erro, como foi feito no pior momento.

A nossa actuação é necessária, também para fazer a denúncia da estupidez que é privatizar a ANA no momento em que esta tem menos valor

Jose Silva disse...

A privatização da Ana andará casada com a construção de Alcohete. Se este parar penso que a privatização da Ana será cancelada.

De qualquer modo até às eleições Alcochete será cancelado.

Acho que a ACP, aliás as ACPs, se deveriam envolver já noutros campeonatos. E o mais importante é a consolidação do pensamento estratégico regional. Que tal a fusão AIminho+AEP+CCIP+AIRA ? Criando competências desconcentradas, entre elas a análise propectiva/lobby ?

CCz disse...

Espero que tenha razão.
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Miguel Barbot disse...

Caro José Silva, o regresso dos transaccionáveis como "motor" é de facto a única saída que parece viável.

Podemos esperar agora medidas mais proteccionistas da UE no que respeita as importações extra-comunitárias?

No curto prazo - Temos massa crítica para dar resposta no "valor acrescentado", ou vamos ter a tentação de voltar ao paradigma dos 80's e 90's baseado na "mão-de-obra" intensiva?

Jose Silva disse...

1ª pergunta não sei responder. Na 2ª, suspeito que voltaremos ao cenário dos anos 80 caso a conjuntura o favoreça.

CCz disse...

"Podemos esperar agora medidas mais proteccionistas da UE no que respeita as importações extra-comunitárias?"
.
Isso implicará incapacidade futura de aproveitar as oportunidades de exportação para os países emergentes, por que o asilo de velhos europeus cada vez consumirá mais medicamentos e menos bens de consumo, basta pensar no número de automóveis que um europeu compra até aos 60 anos versus o número de automóveis que compra depois dos 60 anos.

António Alves disse...

a mim parece-me que vcs estão a ser demasiado optimistas. falta ao Norte um salto de gigante na economia terciária e informacional. faltam-lhe serviços financeiros avançados e serviços às empresas de alto valor acrescentado. isso está e vai continuar em Lisboa e vai ser apoiado pelo estado como se observa. acrescente-se-lhe os serviços obrigatórios fornecidos pelo estado que também lá está.enquanto for assim uma parte considerável do V.A. do Norte continuará a ser drenado para Lisboa. é provável que o Norte "salve" o país, mas não se salvará a si próprio.

Jose Silva disse...

António,

Isso era dantes !

As praças financeiras tornaram-se nos últimos 20 anos em apenas intermediários inovadores no excesso de emissão monetária sem poupança. Esse mundo acabou. Repare nos despedimentos de financeiros em Londres e Nova Iorque.

Relativamente a Lisboa, os produtores de BSNT que viviam do crédito barato (EDP, banca, BRisas, construtores, turismo) também vão ter dificuldades.

«serviços financeiros avançados e serviços às empresas de alto valor acrescentado». A banca de investimento acabou no EUA ! Brevemente a publicidade será gerida apenas via Google Adwords. O terciário transacional deixará de estar concentrado numa cidade e passará a estar disponível na Internet.

Resta o modelo económico chinês produtor de BST, idêntico ao Norte e os produtores de comodities.

O terciário vai ter mesmo que ser apenas I&D, IT, alguma criatividade e alguma gestão. Sabia que neste momento não há programadores no Porto ? Conhece a Alert ? Sabe que a UP está a angriar estudantes em Jacarta ? Obviamente que a alteração de perfil económico a Norte não se vai acelerar de um momento para o outro. Porém a drenagem/sabotagem de Lisboa vai.

António Alves disse...

tenho muitas dúvidas. o mundo não muda de um dia para o outro. as empresas vão continuar a precisar de financiamento, de marketing, de publicidade, de informação, de consultadoria, etc. o facto de muitas destas áreas estarem cada vez mais baseadas na internet não quer dizer nada. mesmo na internet é necessário que existam empresas que o façam e bem. e essas não estão a norte.

"O terciário transacional deixará de estar concentrado numa cidade e passará a estar disponível na Internet."

é cada vez mais verdade de facto. mas as cidades que queiram alojar estes profissionais da nova vaga têm que ser um nó da rede mundial de fluxos informacionais e financeiros, ou estar ligado a um dos nós mais importantes (nós temos londres e madrid a duas horas). terá que ter condições logísticas para isso: rede de transportes interna eficiente, boas conexões com a rede de transportes internacionais (aeroportos e caminhos de ferro), internet a alta velocidade, centros urbanos atraentes para quadros criativos, indústria do entretimento apelativa, oferta cultural diversificada e de qualidade, ambiente cosmopolita, segurança e habitação de qualidade a preços aceitáveis.

há muito trabalho a fazer. e as notícias sobre a morte do capitalismo financeiro são manifestamente exageradas. isto foi apenas uma compulsão alimentar que acabou em vómitos generalizados. mas passa.

Jose Silva disse...

«as empresas vão continuar a precisar de financiamento, de marketing, de publicidade, de informação, de consultadoria»
é verdade. sobretudo as empresas que não estão falidas como a banca, gestores de PPP ou Comunicação social, todos eles situados em Lisboa e a atravessar dificuldades
«e essas não estão a norte.» Quem não está no Norte são as consultoras, agências de publicdiade, project finance que fornecem o BSNT. Como este vai deixar de ter mundos e fundos, a actividade delas será reduzida.
Concordo com a questão logística.
Discordo do paradigma das cidades criativas e afins. O que conta no futuro é a oferta de produtos e serviços essenciais a cuso controlado. Entramos numa fase de frugalidade.
As cidades/regiões/paises especializados na oferta/gestão/administração de consumo baseado em poupança futura, leia-se endividamento, estão condenados.
É o caso de Lisboa.
O essencial é perceber que o sector dos BSNT tem o crescimento condenado pois baseava-se em endividamento.
Portugal está nos limites do endividamento. A partir de agora o crescimento terá ser via redução do endividamento/geração de divisas, portanto BST.
António, Só espero que estas opiniões não lhe tenham sido ensinadas na UMinho.
É que isso explicaria porque Braga quer ser uma mini Lisboa...

António Alves disse...

Lol... não, não foram.

José, tem razão em parte. Vai haver algum retorno a uma certa "frugalidade". Mas convém não exagerar. O mundo não vai por-se inteiro a seguir os ensinamentos do Padre Kavanaugh :-)

CCz disse...

José,
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Começo a perceber que o mundo Ocidental vai se calhar optar pelo proteccionismo, como aqui aventou ontem, é a solução menos dolorosa para os eleitores, embora à custa dos BRIC's... não sei é como é que a China, com o actual poder financeiro bruto, não de treta, vai reagir.
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Por muito que eu, pessoalmente, não goste, parece que vai ser inevitável para fugir a um cenário de deflação.

António Alves disse...

ahh... e outra coisa: o estado (leia-se lisboa)sai reforçado desta crise. adivinham-se múltiplas acções de auto-protecção. o norte poderá "salvar" o país (triste sorte) mas não se salvará a si. e não faltará quem a norte ajude o estado - leia-se lisboa.

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