20080311

Longe da Razão

"(...) Nesse encontro dei nota de que o declínio do Norte é, em primeiro lugar, da responsabilidade de alguns empresários e gestores da região, que não souberam antecipar a necessidade de reestruturação de certos modelos empresariais que, fruto da globalização, estavam ameaçados. Disse ainda que, para assegurar a qualidade da gestão a prazo, é fundamental profissionalizar as empresas privilegiando, na gestão, a competência à propriedade. O que, muitas vezes, não acontece a Norte.

Referi, depois, que outro factor que explica o declínio do Norte (e do Interior) é o modelo de organização do Estado, excessiva e crescentemente centralista, que obriga os empresários do Norte a viajarem constantemente para Sul para desbloquearem decisões e negócios, criando uma teia de cumplicidades entre o poder político central e os grupos empresariais que favorece, não poucas vezes, o capital sediado em Lisboa. Face a este modelo de organização do Estado e a este estado das coisas (e, também aqui, uma coisa é consequência da outra), aconselhei pragmatismo aos grupos a Norte: para vencer determinados campeonatos empresariais é necessário investir em competências relacionais que facilitem a influência no poder central. A esse propósito usei a expressão em itálico que encabeça o meu artigo, realidade que Sousa Tavares reconhece ser absolutamente verdadeira. Nunca incentivei quem quer que fosse a usar essas competências de forma ilegal: ter influência não é sinónimo de 'traficar influências'. Nesta matéria cada um actua de acordo com a sua consciência. No meu caso, e para conforto pessoal, escolho selectivamente as empresas onde aceito trabalhar. Mas não me fiquei por aqui. Porque este modelo de organização do Estado não me parece o mais correcto para o desenvolvimento equilibrado do país e não gosto deste estado de coisas - nem da forma como certas decisões políticas e empresariais são tomadas -, defendi a necessidade de aprofundar o debate sobre a descentralização do Estado. Esclareço que, neste momento, apesar da simpatia que o tema me merece, não sou capaz de tomar uma posição favorável à regionalização. Enquanto não for claro o modelo de governação proposto, não sei do que se está a falar.

Parece-me óbvio, no entanto, face à análise comparativa com a Espanha, que a instituição de poder político mais descentralizado favorece o desenvolvimento empresarial distante da capital, entre muitas outras razões, porque determinadas decisões fundamentais - a gestão de infra-estruturas, por exemplo - são tomadas em função dos interesses das regiões que servem e não meramente numa óptica centralista. A forma como esse desenvolvimento é concretizado, mais uma vez, depende da consciência de cada agente. Tenho a esperança de que, quanto mais partilhado for o poder, menor a corrupção. Este foi o conteúdo e o espírito da minha intervenção na sessão. (...)"

António Pires de Lima

Para ler tudo, consulte o Expresso.
Para ler o artigo de Miguel Sousa Tavares que originou a resposta de Pires de Lima, consulte também o Expresso. Nesse artigo, MST mostra-se muito mais favorável à regionalização/descentralização que o habitual. Sinais dos tempos...

Já agora, ler também este texto de MST sobre o tráfego de influências no Estado. Porque uma das características do centralismo é também a falta de supervisão das decisões do Estado Central. É preciso uma democracia mais participativa e mais directa.

3 comentários:

sguna disse...

ou seja, uma empresa neste país para progredir, acima de tudo precisa de abrir um "departamento de corrupção" na capital!

Pedro Menezes Simoes disse...

Não digo departamento de corrupção.

Digo que, infelizmente, precisa de utilizar os canais de comunicação informal para conseguir desbloquear os problemas, e para conseguir fazer lobbying legítimo.

Mas o problema de base é: quais as razões para que as empresas dependam tanto das decisões do Estado. Isso denota um estado excessivamente interventivo, omnipresente na economia, e altamente subsidiador...

Ventanias disse...

E o pior ainda ficou por dizer; para além do excesso de intervenção do Estado, fica o excesso de influência que isso acarreta para os partidos.

E aí, como diz o povo, é que a porca torce o rabo...

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