20081022

Nortearemos Noutro Lado Qualquer

Dizia-me um amigo regionalista há uns tempos que o principal impecilho ao avanço da regionalização continua a ser o umbigo de alguns regionalistas. E eu concordo. Há por aqui quem ache que o mundo nortenho se esgota nos limites de Crestuma e da Apúlia, o que se constituiu como um terrível equívoco que, pelos anticorpos que cria no Norte para além do Porto, continuamos a pagar demasiado caro.

Os principais argumentos que tenho ouvido daqueles que no Norte se opõem à regionalização assentam invariavelmente na ladaínha dos perigos do portocentrismo e no replicar dos males do municipalismo com os seus exacerbados caciquismos. Pelo contrário, eu digo e repito para aqueles que teimam em não ler e em não ouvir, que prefiro que o centro de decisão esteja a 60 quilómetros do que a 300.

Apesar disso, entendo que a regionalização não pode ser um fim em si mesma. António Alves escreve que «só nós aqui no Porto é que ainda continuamos, se calhar ingenuamente, a julgar que temos como missão preocuparmo-nos com o desenvolvimento de Trás-os-Montes, Alto Minho e até Braga» não consigo disfarçar a náusea. É este paternalismo de alguns portuenses, este sentimento de superioridade travestido de benevolência que incendeia o Norte para além do Porto e que exacerba os sentimentos profundamente localistas e anti-regionalistas das nossas populações.

Não sou partidário de uma "Regionalização a Cinco" e não vejo nisto qualquer portofobia. Não sou adepto da sacralização do Porto e não vejo nisto nenhum sentimento típico de jovens do tempo de Salazar. Não me revejo no modelo de desenvolvimento que alguns defendem e não percebo o que é que o Insituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho possa ter a ver com isto. Aliás, reponsabilizar uma insitutição universitária pelas ideias das populações da área em que se insere é desconhecer em absoluto a missão da universidade e, pior que tudo, é tentar subvertê-la.

Quando aceitei integrar este projecto estava longe de imaginar que a liberdade de expressão fosse tão cara e que os ataques pessoais descessem tão baixo. Haverá, porventura, quem veja ali uma salutar discussão de ideias. Discordo. Apenas se tenta fragilizar uma posição com recurso ao ataque ad hominem, à generalização, ao preconceito, à ignomínia e à falácia argumentativa.

Sobre o móbil dos insultos, e para não dizerem que fujo, apenas reafirmo que a imagem está inequivocamente errada. As indemnizações compensatórias a Norte referem-se quase em exclusivo à Área Metropolitana do Porto, havendo uma pequeníssima excepção cuja dimensão não tenho dados de momento para quantificar mas que nunca abrange uma parcela significativa da NUTSII que justifique tomar o todo pela parte. Porventura, a insinuação de falta de inocência foi desnecessária, mas constando que mesmo depois do próprio autor reconhecer o equívoco ainda haja quem teime não o reconhecer, parece que a aposta fora certeira.

Caros amigos,

Como todos sabem, gosto muito da minha cidade de Braga e isso nunca foi empeçilho a que tenha uma visão muito crítica nas mais variadas vertentes. Infelizmente, as discordâncias aqui enunciadas relativamente ao portocentrismo sempre foram acusadas de um anti-regionalismo que rejeito.

Que nunca se caia na veleidade de se achar que uma regionalização mal discutida e administrativamente aprovada terá sucesso sem que as populações se convençam das verdadeiras viturdes do modelo regionalista. Discutir o lugar do Porto no Norte num futuro processo de regionalização é, por muito que haja quem queira passar ao lado desta discussão, um assunto fundamental para que as populações melhor possam compreender e apoiar o que está em causa.

Infelizmente, este Norteamos é cada vez mais um Portear. Nada que me desgoste dado o carinho e admiração que tenho pela capital do Norte e pelas suas causas. O que não aceito é partilhar a casa com quem escreve assim. Sabem onde me encontrar.

Bem hajam.

Adenda - Não posso deixar de agradecer o convite para este projecto que me foi endereçado pelo José Silva e pelo Pedro Menezes Simões. Lamento que a minha participação neste blogue tenha chegado ao fim. Contudo, há valores dos quais não prescindo, o primeiro dos quais é a liberdade responsável inequivocamente mal tratada neste post. As ideias que nos unem são genuinamente as mesmas e ainda celebraremos juntos o Norte como Região.

2 comentários:

Luís Lopes disse...

Já podemos chamar a esta crise: a crise do mapa vermelho e amarelo.

Na verdade, só um cego é que não vê que o mapa está mal feito e deturpa a realidade. Se houve má fé? Não posso afirmá-lo, mas que o mapa é enganador, isso é.

Se o engano é inocente? Não sei. Mas que há quem tenha a mania só por ser do Porto isso há.

Façam lá as pazes e voltem a por este blog ao serviço do Norte que o serviço do Porto e de Braga em separado é bem mais ineficaz.

Pedro Menezes Simoes disse...

Caro, fica aqui o meu abraço.

Esclareço apenas que eu não fui responsável pelo teu convite (embora o fizesse com muito gosto), até porque fui convidado ao mesmo tempo que tu. O administrador do blogue é apenas o José Silva.

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