20080914
O sindicalismo patronal
A Associação Nacional das PME veio protestar contra a medida, afirmando que a inexistência de dívidas fiscais não deveria ser critério para acesso à linha de crédito, e que suspeita que este dinheiro seja distribuido pelos melhores clientes da banca.
Ou seja, a Associação Nacional das PME acha que os incentivos do Estado devem ser atribuidos às empresas que não cumprem as suas obrigações fiscais ou àquelas que os bancos consideram ter maior risco de insolvência.
Portanto, o caminho para sair da crise não é permitir que as melhores empresas cresçam por forma a ocupar o espaço das empresas que criam menos valor. O caminho para sair da crise é fazer com que as empresas em risco de insolvência aumentem de tamanho. Pois claro. Não admira que estejamos em crise.
Nota: Tenho sido bastante insistente contra a atribuição de subsídios às empresas. Neste caso, porém, considero que a medida é bastante meritória. Porque é uma política económica contra-ciclica apoiada numa forte alavancagem da despesa do estado (multiplicação de 10-20x em investimento privado), e não em despesa directa (ex. obras públicas). Porque ataca directamente o maior problema actual das empresas, que é a falta de liquidez. Porque apoia as melhores empresas, e não as piores como é usual (e como a ANPME desejaria). E, por último, porque o incentivo é distribuido por muitas empresas, sendo individualmente diminuto, pelo que tem um efeito marginal em termos de criação de subsidio-dependência ou deturpação da concorrência.
20080912
Ryanair mantem objectivo de abrir base no Aeroporto Francisco Sá Carneiro
Aveiro eleita sede do Turismo Centro Portugal
Associação de Cidadãos do Porto
Para mais informações contacte porto.agora@gmail.com
Nota: O Clube Literário do Porto situa-se na Rua Nova da Alfândega, n.22
Para referência, este é o post de proposta de criação:
Visto o estado de ruptura com o poder central, os exemplos diários de desprezo para com a cidade do Porto e a Região Norte, o servilismo e oportunismo das distritais dos partidos, proponho o primeiro passo para a constituição de uma associação de cidadãos, organizada, que tenha como propósito a defesa dos interesses colectivos da nossa área metropolitana, a discussão e apresentação de propostas e de acção concertada. Iniciativas como esta necessitam de encontros de carácter informal, onde os interessados se conhecerão e se ajustarão ideias, objectivos e projectos. - Alexandre Ferreira
20080911
Mensagem à Associação de Cidadãos do Porto
Os tempos que correm são bastante agitados e surpreendentes. Breve diagnóstico:
- Peak Oil. Estamos numa transição para energias mais caras e poluentes. As implicações são imediatas, desde a redução da actividade turística, do trafego aéreo e respectiva necessidade mega-aeroportos, até ao retrocesso na sub-urbanização ou o retrocesso na deslocalização da actividade industrial para a China, que será favorável ao Norte ainda industrial.
- Recessão. Estamos numa recessão no mundo ocidental, incidindo sobretudo nos sectores FIRE (Financials, Insurance, Real-Estate). No fim de semana passado o governo dos EUA nacionalizou bancos pré-falidos. Por estes dias o 4º maior banco de investimento americano, o Lehman Brothers, está também a falir... O presidente do banco central do Reino Unido diz que este país pode ter a pior recessão dos últimos 60 anos. Soros afirma que o sistema financeiro mundial está "à beira da ruptura"... Rogers dize que “tivemos a pior bolha no crédito da história mundial”, que não se consegue resolver “num, dois ou três anos”.
- Separatismos. Reaparecimento de separatismos e independências unilaterais, para além do Kosovo e Ossétia do Sul: O Daily Mail do fim de semana dizia que a Belgica enfrenta uma histórica divisão e questiona se o Reino Unido se seguirá com as sondagens a mostrar uma maioria de escoceses a votarem pela independência. Já referi a nossa Macaronésia e há muitos outros casos listados no wikipedia, genuínos ou meros instrumentos das grandes potências. Nem mesmo os EUA escapam, como prova esta reportagem do Pravda sobre os independentistas do ex-russo Alaska.
- Guerra Fria e EUA. Estamos numa nova Guerra Fria: Sistema anti-míssil na Polónia e república Checa, navios da Nato no mar Negro e navios russos na Venezuela e brevemente em Cuba, Síria e Irão. É inevital a redução de influência dos EUA nos assuntos mundiais e respectiva ascendência de outras potencias como seja o Brasil, Rússia, India e China (BRIC): US waves goodbye to prosperity and democracy. Emmanuel Todd já o tinha escrito, e também tinha antecipado nos anos 70 a implosão da União Soviética.
- Bloco Central(ista). Em Portugal temos um Bloco ideologicamente Central e territorialmente Centralista em constituição, como já tinha antecipado. É dominado por Cavaco, Sócrates e MFLeite de forma a que os interesses de sempre subsistam. A economia dos Bens e Serviços Não Transaccionáveis sediada em Lisboa e protegida pelo Estado Central prepara-se para continuar o «business as usual» por mais 4 anos. Isto é, a impor as suas margens monopolistas e elevadas sobre as PMEs e famílias do resto do território nacional.
- Drenagem. A última sabotagem na linha do Tua premite conhecer melhor o que são a maioria dos transmontanos e antecipar o futuro. A probabilidade da barragem não avançar só é sentida em TMAD. Em Lisboa, na sede do MOPTC, da EDP ou do consórcio financiador, o movimento de defesa da linha do Tua não faz estragos nem ameaça. Efectivamente a sabotagem verificada foi executada por quem sente ameaçado os seus interesses nas indemenizações devidas pela construção da barragem. Foram certos transmontanos que sabotaram a linha no último acidente. Esta traição não é nada de novo. Aliás, infelizmente a maioria dos transmontanos emigram ou votam a favor de Lisboa, como se viu no referendo da Regionalização. Como recompensa, os transmontanos podem contar com uma central nuclear no Douro dentro de alguns anos, como afirma o oligarca Patrick Monteiro de Barros. TMAD dá uma antevisão em cerca de 50 anos da Drenagem que acontecerá ao Norte litoral.
- Desnorte. O Norte estrategicamente à deriva gerou e continua a gerar imbróglios como o do ASC: Há 10 anos a Soares da Costa precisava de facturar. As elites portuenses cúmplices com o Centralismo lá conseguiram sacar do Orçamento de Estado uma modernização megalomana do aeroporto. Agora a gestão da gare não é economicamente viável. A Ryanair já não vem para cá com a sua base. Rui Moreira, Belmiro de Azevedo, Luis Filipe (porque não te calas) Menezes ou Rui Rio bem podem celebrar em Novembro próximo os 10 anos do não à Regionalização.
- Emigração. No meu círculo de contactos (familiares, colegas, ex-colegas, inclinos), no último ano, 5 pessoas emigraram. Nem todos se dão bem. O portuense «Fomos» começa a detectar problemas no seu trabalho qualificado na Irlanda. Curiosamente em 2008 a Irlanda termina um ciclo de crescimento elevado que se tinha iniciados há mais de 20 anos... A Emigração não é panaceia para o desenvolivmento a Norte. O mundo ocidental, onde estão a maior partes dos nossos emigrantes está em recessão e as remessas já estão a cair.
- Regionalização. Alguem acredita que em 2009, com a crise actual e protagonistas actuais, a Regionalização entre na agenda eleitoral ? Com muita sorte o PS lançará em 2010 a Regionalização piloto apenas no Algarve, a região mais rica de Portugal a seguir a Lisboa. O Norte pode esperar até 2013 ... Entretanto planos equivalentes à OTA para as regiões adjacentes de Lisboa vão aparecendo... A dupla ética habitual...
Neste contexto foi com agrado que tomei conhecimento da iniciativa de Alexandre Ferreira/Associação de Cidadãos do Porto em organizar um evento, que em princípio participarei. Eis a minha opinião sobre o que pode ou deve fazer este movimento/associação:
- Participar em eleições. Há vários caminhos:
· Apoiar candidaturas independentes às autarquias;
· Criar um novo partido político cuja ideologia/prática/programa se adeque as preocupação dos associados/simpatizantes, por exemplo, o Partido da Emigração e Regiões;
· Aderir massivamente a um dos pequenos partidos (de formação recente ou não) e enxertar neles as nossas preocupações/soluções. Entre estes saliento o Movimento Esperança Portugal, o Movimento Mérito e Sociedade ou Partido Democrático do Atlantico (saliento a candidatura em 2005 de um cidadão do Vila Real nas listas dete partido, para defender os interesses da sua região). Estes (proto-) partidos tem ainda uma dimensão reduzida e uma infusão significativa de militantes seria suficiente para influenciar decisivamente oo seus programas.
· Ficar apenas pelo «lobby» informal, mas com capacidade de influenciar significativamente a comunicação social e demais partidos existentes e respectivos programas eleitorais;
A «infiltração» nos partidos tradicionais de poder (PS ou PSD) como tenta e defende TAF, não resulta, na minha opinião. Serão sempre nacionais e não regionais. Os políticos de fora de Lisboa que chegam ao poder serão sempre condicionados a terem uma política de defesa da capital e nunca do restante território. Serão quase sempre comedores de migalhas e trocarão a defesa dos seus eleitores pelo seu próprio bem estar. Por exemplo o PSD Porto não apoiou o regionalista PSLoles e preferiu PPCoelho (que renegou posteriormente esse mesmo apoio), por causa de uma questão de lugares de deputado.
- Adoptar uma ideologia apropriada aos valores a Norte. Este assunto é complexo e demorado. Porém, proponho simplesmente que adopte a nossa cultura individualista que coexiste com a solidariedade social, nomeadamente das IPSS e acção social da Igreja. Portanto um Liberalismo Clássico com Social Democracia apenas para os 10% ou 20% verdadeiramente pobres.
- Moralizar a vida pública. Não pode haver social democracia para as carteiras de encomendas do sector das obras públicas/project finance/gestão de PPP, para a SoaresdaCosta, Mota-engil, parceiros do Rio ou do Mesquita Machado nas várias PPP que vão criando, ou para os fornecedores privados que querem captar clientes com a actual e conspirativa destabilização da Saude e Educação pública. Há uns meses um representante de negócios português num pais do norte de África, dizia-me que neste momento a corrupção em Portugal é maior do que a que existe nesse continente. É preciso acabar com a lógica da privatização dos lucros e socialização dos riscos ou prejuizos.
- Focalização nas questão materiais. Concentração nas questões económicas e não nas identitárias, sem as descurar, no entanto. Abandonar as preocupações com o FCP e com o futebol em geral.
- Não apelar a separatismo ou afins. Oponho-me a uma estratégia de independência do Norte. O sentimento é de facto nascente, mas é utópico. Só serve para auto-iludir os seus defensores. Perante situações difícies ou «ambição de subir na vida» o povo a Norte emigra, vende-se a Lisboa ou aliena-se com FCP, compras em shoppings, idas à praia ou romarias. A execepção são os que me lêem, uma imensa minoria. Acreditar no Pai Natal ou na adesão massiva a um hipotéctico separatismo é o mesmo. É muito mais realista e adulto apostar em evitar mais oportunidades perdidas como a derrota de FNogueira em 1995, o não à Regionalização em 1998, erros na concepção da rede do Metro do Porto ou dimensão das obras no ASC a partir de 2000, a vitoria de Sócrates em 2005, vitória de MFLeite em Maio de 2008, etc.
- Defender projectos viáveis. Apostar em ideias/projectos públicos exequíveis e que respeitam o contribuinte:
· Simultaneamente implementar a fusão de autarquias e Regionalização, adoptando integralmente o modelo dinamarques (para os mais atentos, informo que alterei leigeiramente a minha opinião sobre o assunto). Pragmaticamente, usar os recursos libertados pelas autarquias fundidas (verbas do OGE, funcionários, pessoal político, instalações) para implementar a Regionalização, calando assim os que a acusam de despesista.
· Repensar o urbanismo e a mobilidade atendento ao fim do transporte barato:
o Antecipar metros no Vouga e Braga;
o Expansão «lowcost» do metro do Porto;
o Recuperação turística/mercadorias da linha do Douro;
o Ligação do CVE Porto-Minho-Vigo aos ASC;
o Criação/recuperação de uma linha de comboio entre Viana-Barcelos-Braga-Guimarães-Felgueiras-Amarante-Marco de Canavezes, aproveitando a linha do Minho e o ramal de Amarante;
o Manter a linha do Tua;
o Avançar com maior empenho na criação de uma rede de ciclovias na AMPorto;
o Antecipar as plataformas logísticas.
· Desconcentrar a administração pública, reivindicando de Lisboa sedes/departamentos de organismos públicos como em tempos foi a API, o INE e o Centro Português de Fotografia ou como ainda subsistem no Porto as Direcções de Recursos Humanos do Exercito Português.
· Aproveitar as oportunidades para retomar o «lobby» contra as obras megalomanas de Lisboa e arredores.
o O maior grupo nacional especializado em PPP/SCUTS, a Brisa, «Crise obriga a cortar investimentos»;
o A portuense mas com modelo de negócio à Lisboeta «Mota-Engil, regista queda de 82,5% nos lucros do primeiro semestre»; A Teixiera Durate está pior;
o Madrid trava TGV: O Governo português não consegue obter resposta definitiva de Madrid para o avanço da rede ferroviária que inclui a ligação Madrid-Badajóz
Todas estes projectos estão a sofrer com a recessão actual que é essencialmente o rebentar de uma bolha de crédito barato. O patrocínio estatal e este tipo de negócios está a falhar em todo mundo. Já o tinha referido aqui. Literalmente os «FIRE on fire» dificilmente conseguirão candidatar-se a estes projectos porque provavelmente irão falir... É a oportunidade para o Norte desferir ataques finais em Alcochetes, novas auto-estradas, TTT, TGV, Expo2 (recuperação da frente ribeirinha do tejo), Plano Oeste, etc;
- Atenção às infiltrações, escutas e oportunismos. Qualquer associação/lobby/partido de natureza política sofrerá de escutas do CIS, oportunismos e infiltrações
- Aproveitar a Internet. A Internet veio revolucionar a forma de fazer política. Sugiro que os organizadores do evento façam a transmissão em directo audio e video via Operator11 ou Mogulus. Disponibilizo desde já o Norteamos para o «paste» do sinal video. Provavelmente o Tiago também disponibilizará a Baixa do Porto.
Apelos finais:
- Caros leitores do Norteamos e Baixa do Porto: Aderir a estas causas, ser simpatizante, divulgar estas preocupações, não tem custos e tem vantagens próprias para o futuro económico que se avizinha;
- Caros Rui Moreira e Pedro Baptista: Equacionem abandonar os vossos partidos e juntarem-se a esta nova associação/partido/lobby;
- Caro Manuel Carrelo, considere esta reflexão;
- Caros responsáveis dos partidos MEP, MMS: Alarguem a vossa base eleitural subscrevendo as preocupações que citei;
- Caro Manuel Monteiro e a direita em reorganização: Considerem os interesses do Norte;
- Caro Alexandre Ferreira, considere este contributo para o evento que organiza.
20080906
Outro estudo sobre o «upgrade» da linha do Douro
Estudo disponível aqui (via http://ocomboio.net de Dário Silva). Também, uma boa sugestão de lazer para o próximo fim de semana.20080820
20080818
O que é que queres ser quando fôres grande?
Se eu fosse jornalista, o título seria: "Santo Tirso faz concorrência a Moçambique e Cabo Verde".
É para isto que pagamos ao PM?! Será que ele vai entregar todos os cheques energia pessoalmente? Senho PM, não é disto que o Norte precisa. O país quer é servir para além de mão de obra barata. A próxima "sweat shop" que quiser inaugurar, poupe-nos a viagem que somos nós que a pagamos!
Com o actual estado da educação, realmente é preciso o 12º ano para saber ler a partir de um computador. Já não há pachorra!
20080814
Lentas movimentações tectónicas
Caro António,
Ainda bem que os 300 000 madeirenses e seus lideres políticos tratam do seu futuro. Sobre o iminente aparecemento do estado da Macaronésia (Madeira+Açores+Canárias+CaboVerde), lêr também este texto. Pena é que os 3 000 000 de nortenhos emigrem, sejam incapazes de se representar e defender políticamente junto do Estado Central e se distraiam com supertaças e afins. A propósito de Emigração, no último ano, no âmbito das minhas relações (familiares, colegas de trabalho, inquilinos) emigraram 4 pessoas.
Caro Alexrandre,
Saudo-o pela iniciativa. Em princípio estarei presente. Desde já, sugiro que, se possível e apropriado, se tente enquadrar esta iniciativa em outras similares, também nascentes, como seja esta ou esta. Voltarei ao tema oportunamente.
A Bomba Madeirense
Portugal deve ser dos poucos países que, ao que tudo indica, vai passar por um processo de desagregação que não assenta em diferenças históricas, de língua, etnia, identidade e cultura. O que se está a preparar na Madeira, com Alberto João Jardim a cavalgar um processo de reforço da autonomia da Madeira que parece querer conduzir a um federalismo fiscal, financeiro e económico, ameaçando a unidade e coesão do Estado português, tem uma base inteiramente política, ainda por cima fulanizada num homem que dirige a ilha há trinta anos consecutivos. Ainda que os madeirenses não sintam, de todo, que são diferentes dos portugueses do Continente para irem mais longe numa autonomia que, tal como existe, é o resultado do contexto histórico da descolonização de 74 e 75 e parece ser, também, a fórmula adequada para justificar a distância insular, restam poucas dúvidas que os madeirenses deverão estar de novo ao lado de Jardim nesta cruzada. O presidente do governo regional da Madeira quer plesbiscitar o projecto político de federalismo nas próximas eleições legislativas de 2009. Sempre astuto e peculiar, Jardim quer apanhar dois coelhos de uma só cajadada. Tem como objectivo eleger para o PSD-Madeira todos os deputados à Assembleia da República e, através do voto esmagador dos madeirenses, mostrar politicamente aos políticos continentais a força dos anseios autonomistas. Em Lisboa, tudo isto pode parecer uma bomba. No entanto, para Jardim pode ser só um sinal de quais são as suas reais intenções, da sua vontade em manter os laços com Lisboa em matérias chave como as Forças Armadas, segurança e relações exteriores. Se o aviso não for levado em conta, com o PS e o PSD do continente a não satisfazerem Jardim na revisão constitucional cujo processo é aberto em 2010, Jardim pode aumentar a parada, quase de certeza já fora de um quadro constitucional e legalmente admissível, sustentado, precisamente, no voto massivo dos madeirenses no seu plebiscito das legislativas de 2009. Melhor estratégia era impossível. O efeito prático de tudo isto é que Jardim, com este jogo jogado, deixa reféns os políticos continentais e vai certamente obter o que quer. Lisboa pode ter medo, precisamente, que Jardim vá mais longe se não lhe derem o que quer na primeira jogada. Por sua vez, se Lisboa decidir correr o risco e não baixar o jogo, o efeito pode ser pior. De uma maneira ou de outra, nada ficará como dantes. Agora que o processo revolucionário na Madeira está em curso e tem já contornos públicos, tudo devendo ficar mais claro no discurso de Jardim deste domingo no Porto Santo, é caso para lembrar as intervenções feitas há quatro meses por Jaime Gama e Almeida Santos em defesa de Jardim, que tanta polémica causaram no PS, sobretudo entre os socialistas madeirenses. Parece hoje evidente que estas duas figuras históricas do PS já sabiam do planos de Jardim. Resta saber se com os seus elogios públicos a Jardim conseguiram evitar mais danos na Madeira, caso em que teriam funcionado em autênticas missões de Estado, levando apenas o presidente do governo regional da Madeira ao plebiscito das legislativas de 2009, ou se a sua tarefa era maximalista, visando impedir o reforço da autonomia da Madeira e federalismo fiscal, caso em que se terá gorado? Estamos em crer que Jaime Gama e Almeida Santos, dois homens de águas profundas, agiram mesmo em missão de Estado, não tendo sido surpreendidos com o que está a acontecer. Os dois podem, aliás, desempenhar um importante papel no futuro, quando se tiver que negociar com Jardim os termos do reforço da autonomia e da revisão constitucional? E bem deverão ser necessários. A posição estática de Cavaco Silva em relação às autonomias regionais pode revelar-se um problema complicado. Em relação ao Presidente da República, já temos muito mais dúvidas se Cavaco não foi apanhado de surpresa em todo o processo em curso na Madeira. É verdade que Cavaco também elogiou Jardim quando esteve há dois meses na Madeira, tendo, aliás, o seu silêncio sido muito criticado por vários sectores de esquerda. Porém, Cavaco não é um político sofisticado. A intervenção surpreendente que fez ao país há quinze dias sobre o Estatuto Autonómico dos Açores, parecendo rejeitar um reforço das autonomias, indica que Cavaco está longe de aceitar, sequer, o federalismo fiscal e financeiro. Quanto a Jardim, é evidente que já percebeu o que vai na cabeça de Cavaco mas, tal como lhe é habitual, apanhou o ponto fraco para fazer doer mais um bocado. Não é por acaso que Jardim veio acelerar o processo em curso na Madeira depois de Cavaco, o senhor Silva, ter feito a sua intervenção de 31 de Julho ao país. Talvez para mostrar que a bomba que se está a preparar na Madeira vai fazer da polémica com o Estatuto dos Açores uma simples brincadeira de crianças, onde o PS fez um jogo artificial de reforço das autonomias e tentou comer as papas na cabeça de Cavaco.
Está aberta a caixa de Pandora na Madeira? Pode estar. O que é artificial neste processo autonómico madeirense pode passar a real, a identidade pode criar-se, de forma enviesada, com o pagamento de menos impostos, contribuindo para diferenciar os madeirenses dos continentais. E sedimentar-se com os anos. O perigo de, a longo prazo, a Madeira começar a questionar se vale a pena continuar ligada a Portugal, podendo tirar novos proveitos se se tornar independente, é muito alto. Com o federalismo fiscal imediato na Madeira também se cria um precedente perigoso em relação aos Açores, quando o arquipélago vier um dia a ser liderado por um verdadeiro autonomista que queira ser igual à Madeira. Mesmo para Portugal continental há riscos novos. Num país que nunca fez a regionalização, os portuenses, os minhotos, os beirões, os alentejanos, os algarvios, podem começar a questionar que outros que se tornaram mais autónomos vivam muito melhor do que eles. Um país com novecentos anos de história, um dos poucos da Europa com homogeneidade étnica, pode, então, ter um processo original de secessão, um verdadeiro "case study" para a ciência política, provando que os países também morrem quando, apesar de haver todas as razões para existirem, não conseguem dar aos seus cidadãos o que mais importa: qualidade de vida.
Por Paulo Gaião in Semanário
20080807
Também quero fazer estudos!!!
A ser verdade, isto realmente é incrivél. Claro, não se publicando os estudos, os métodos não podem ser refutados. Quntos anos já perdemos devido aos interesses establecidos e à mesquinhez dos nossos governos?
Fico à espera das (re)acções dos "políticos" do norte, de investigações à corrupção, etc...
O Povo e as Elites
Os concelhos, mesmo reunidos, não têm autonomia política para decidir como distribuir o investimento estatal ou decidir sobre políticas macroeconómicas. Não têm e nunca terão. Esse nível de decisão está reservado ao estado central, aos governos autónomos ou de estado federado.
Uma outra maneira de ler os números por mim apresentados é dizer que, por exemplo, um saldo de 100 euros por cada cidadão desta região a favor do estado central é o mesmo que dizer 370 milhões de euros num só ano. Isto é, nós pagaremos praticamente num só ano a renovação da marginal ribeirinha lisboeta (400 M €); ou então que pagaremos em apenas dois anos e pouco a primeira fase do ‘TGV’ Porto-Vigo (845 M €); ou, ainda, que já pagámos, em apenas pouco mais de um ano, a renovação do Aeroporto Sá Carneiro (500 M €).
O povo? O que é isso do povo? O povo não é uma entidade homogénea e politicamente determinada. Não é sequer determinante. Determinantes são as elites. Sempre foi assim e assim continuará a ser por muito que isso custe aos românticos que vêem o povo como uma entidade mítica carregada de bondade. O mito do povo vem na sequência da invenção do conceito de estado-nação, que o insuspeito Adriano Moreira considera que não existe, porque na realidade poucos coincidem com verdadeiras nações. O que existe é o estado soberano, cuja génese está na renascença e no iluminismo, consolidou-se no séc. XIX e foi levado ao extremo pelos fascismos e comunismos da primeira metade do séc. XX.
A entidade homogénea e soberana ‘povo’ não existe. O que existem são indivíduos e grupos sociais com os mais variados interesses e objectivos, a mais das vezes contraditórios e incompatíveis entre si. A definição sociológica, na minha opinião, mais correcta do que normalmente se chama ‘povo’ é o conjunto dos grupos sociais economicamente mais débeis e sem real poder político. Entenda-se poder político como capacidade de controlo e repartição dos recursos, principalmente os económicos. E quem controla esses recursos são as elites.
As elites são na verdade o motor de qualquer mudança e revolução. E essas, as revoluções, acontecem quando uma nova elite ambiciosa derruba uma outra já cristalizada. Assim foi na revolução francesa, na revolução russa, na nossa de 25 de Abril de 1974, em que uma elite militar, desconfortável por ser obrigada a combater uma guerra que sabia de antemão que não poderia vencer, nem dela retiraria qualquer honra ou glória, resolveu derrubar a elite no poder. Caso assim não fosse o regime marcelista não teria sido derrubado, pelo menos daquela maneira e por aquela elite. O povo, como sempre, não foi tido nem achado sobre o assunto. Se fosse, muito provavelmente teria ‘votado’ a favor do regime. Num caso mais recente, a revolução polaca, foi clara a actuação da elite intelectual-católica que usando como tropa de choque uma outra elite, a dos operários especializados da indústria pesada de Gdansk (sim, o povo também tem as suas elites), derrubou a elite comunista que detinha o poder. Até aquela que foi talvez a mais genuína das revoluções, a americana, teve como leitmotiv o descontentamento duma elite comercial que se achava altamente prejudicada pela política fiscal mercantilista da coroa britânica. Se a elite inglesa no poder tivesse sido mais inteligente, não prejudicando de modo tão violento a elite burguesa colonial, talvez o Canadá e os EUA ainda fossem um único país integrado na Comunidade Britânica.
Mesmo hoje, nas modernas democracias eleitorais, tudo se resume a disputas entre elites, entre as quais o ‘povo’ é chamado a escolher. Vence aquela que melhor manipula o povo. E o povo segue normalmente aquilo que está instituído e as elites que ele julga que lhe podem dar mais coisas. Podia chamar em meu socorro autores tão importantes como Pareto, Gaetano Mosca, Robert Michels, Ostrogorski e Wright Mills, entre outros, para sustentar esta minha tese, mas tudo isto é tão evidente que basta a mais simples observação empírica. As elites insatisfeitas é que são poderosos factores de mudança. São também elas, quando estão no poder, que mandam e não o povo.
Portanto a questão não está no povo mas sim nas elites. Está no que as elites locais querem. Se essas andam pelos jornais, televisões e blogues em lamúria permanente, mas nas primeiras eleições recomendam e vão todas ligeiras e pressurosas votar no senhor Cavaco Silva, quiçá o principal o principal responsável pelo sufocante centralismo que nos empobrece, é verdade, nada feito!
Nos últimos dias, a propósito do aeroporto, têm havido boas indicações acerca da vontade das elites. Vamos ver até onde elas são capazes de ir. O que nos interessa a todos é colocar no poder uma elite que se preocupe com o bem-estar das pessoas desta região.
Soluções pedidas pelo TAF: O princípio da subsidiariedade. Que as elites locais governem localmente, com autonomia, os recursos locais em favor das pessoas da sua região. Para isso é necessário um nível de governo local com poderes suficientes tanto a nível político como orçamental e fiscal. Um governo que possa, por exemplo, decidir como deve ser gerida uma infra-estrutura importantíssima para a internacionalização da nossa economia como é o Aeroporto Sá Carneiro e que tenha poder para evitar que tanto esta, como qualquer outra, infra-estrutura local seja subalternizada e posta ao serviço de interesses alheios ao desta região. Ou então decidir quais são as infra-estruturas prioritárias em que deve ser aplicado o produto dos nossos impostos. Coisas que, está mais que provado, o actual estado central não sabe ou não quer fazer. A mudança de paradigma é o governo autónomo, fim do estado centralizado, implementação, por exemplo, dum sistema do género federal. Acho que era desnecessário dizer isto, mas já que foi pedido…
Off the topic:
Hoje fiquei a saber que os dois remadores do Sport Clube do Porto que vão aos Olímpicos não serão acompanhados pelos seus treinadores, responsáveis pela sua excelente classificação, mas sim, por determinação da Federação de Remo, por um outro que até anteriormente pretendeu excluir os citados atletas. No mínimo esquisito.
António Alves
20080805
que estamos nós a fazer neste estado?
20080801
O modus operandi do centralismo
Sonae e Soares da Costa oferecem mil milhões pelo Aeroporto do Porto
O consórcio formado pela Sonae e pela Soares da Costa oferece mais de 800 milhões de euros, a preços correntes, pela concessão do aeroporto do Porto num horizonte de 25 a 30 anos. Propõe-se ainda contribuir, durante este período, com mais de 200 milhões de euros para um fundo de promoção da região Norte como destino.
Aeroporto do Porto: Políticos e empresários do Norte mobilizam-se por gestão privada autónoma
"Os presidentes da Junta Metropolitana do Porto (JMP), Rui Rio, e de quatro associações empresariais do Norte vão defender quinta-feira, em conjunto, umaAbertis e Frankfurt na corrida ao aeroporto do Porto
decisão política que possibilite a gestão privada autónoma do Aeroporto Sá Carneiro.
No final da reunião, Rui Rio afirmou que a JMP, AEP e ACP "acordaram em, a partir de agora, trilhar caminhos em conjunto" no objectivo comum de "procurar que haja uma concessão a privados que permita que o Aeroporto Sá Carneiro tenha uma gestão autónoma", e não integrada num monopólio privado dos três maiores aeroportos do país, na sequência da concessão do novo Aeroporto de Lisboa."
O consórcio Sonae/Soares da Costa está em negociações com sete grande grupos internacionais, cinco europeus e dois sedeados fora da Europa, com vista a seleccionar o parceiro, especialista em gestão aeroportuária, que acompanhará o núcleo nacional na corrida a uma eventual concessão da gestão do Aeroporto Francisco Sá Carneiro.Comentário: Para um aeroporto que dá prejuízo, mil milhões de euros (+ fee anual pela concessão) é muito dinheiro.