20080615

Gato por lebre

A vermelho são as linhas de alta velocidade exclusivamente para tráfego de passageiros


Ontem, na secção Economia do Público, vinha uma peça do Carlos Cipriano que talvez tenha passado despercebida. Nela diz-se que a ministra espanhola Magdalena Alvarez, responsável pelo Ministério de Fomento, confirma o atraso no TGV Lisboa-Madrid, admitindo mesmo que não será concluída na presente legislatura, que termina em 2012. A ministra não adianta, inclusivamente, nenhuma data para a sua conclusão.

Na mesma peça, Carlos Cipriano levanta a dúvida sobre o tipo de linha em causa. É que os espanhóis referem-se a esta linha como sendo de “altas prestaciones”, conceito que para eles implica que seja de tráfego misto e com velocidades em torno dos 220 a 250 km/h, como aliás há muito apresentam no seu famoso Plano Espanhol de Infra-estruturas (PEIT).


No mundo da ferrovia sempre se estranhou que em Portugal se falasse na construção duma via ferroviária de alta velocidade (350 km/h) para tráfego misto – i.e., uma via onde circulassem simultaneamente comboios do tipo TGV e comboios de mercadorias com cargas até 25 toneladas por eixo. Até hoje ainda ninguém, por motivos técnicos e económicos, se meteu em tal aventura. Andam por cá a vender-nos gato por lebre (ando a dizer isto há anos!), ou então o governo português vai mesmo construir uma linha para 350 km/h até Badajoz seguindo os comboios daí para a frente a 250 km/h até Madrid. Sempre poderão dizer que Lisboa tem uma linha de TGV - totalmente inútil, mas essa glória ninguém lha poderão tirar.


Um governo esclarecido preocupar-se-ia menos com TGV, estaria a ultimar um verdadeiro Plano Ferroviário Nacional, que incluisse uma operação - esta sim verdadeiramente estratégica - para a mudança de bitola (da ibérica para a europeia) até 2020, a construção de uma rede de velocidade elevada (220 km/h) que levasse o comboio a todas as capitais de distrito e permitisse o escoamento das nossas exportações pelo caminho-de-ferro. Neste campo a ligação ao nó estratégico de Medina Del Campo é fundamental. Mas isto seria num país a sério. Não no país do Sócrates, do Lello e da bola scolarica.

19 comentários:

Ventanias disse...

Subscrevo integralmente.Não creio que o erro seja exclusivo do governo de Sócrates, antes foi partilhado por muitos outros governantes. Desde logo o maldito erro do T deitado, que deixamos escapar graças à inteligência de algum iluminado... aí, foi talvez o momento mais baixo da falta de afirmação e defesa dos interesses do Norte.

Mas sobretudo concordo, sem ser especialista, que o mais importante é a modernização da rede, em especial no que respeita à capacidade de movimentação de mercadorias. Quem não vê isto, não compreendeu o Mundo de amanhã, nem percebeu os sinais actuais quer do petróleo, quer do custo outros bens essenciais.

A única defesa quando os mercados estão desequilibrados, para quem está na periferia, é a eliminação, ou pelo menos redução possível, dos custos de transporte. Vale muito mais do que qualquer subsídio a transportadores ou agricultores.

Finalmente, também penso que a aposta em TGV é ridicula, para um país no nosso estádio de desenvolvimento; a velocidade elevada ée mais doque suficiente, além de que em muitos casos a mera modernização das linhas, para permitir velocidades modernas (tipo média de 120km/h) já seria um avanço notável...

É possível um Portugal melhor. Basta querer.

Pedro Menezes Simoes disse...

Excelente!!!

Só uma dúvida: onde fica "Medina Del Campo"?

Abraço

sguna disse...

Eu penso que a construção de TGVs e Alcochetes não está nada ou muito pouco relacionada com as necessidades do país, mas sim com as necessidades do lobi do betão! Mas isso já foi muito discutido. Mas mais uma vez somos traídos pela súcia alapada em são Bento!

António Alves disse...

Medina del Campo fica entre Salamanca e valodalid. É um ponto de confluência de vária linhas. Olhem bem para o mapa e notam onde fica.

Pedro Menezes Simoes disse...

Sim, faz todo o sentido.

Ventanias disse...

Caro António Alves,

A ligação a Medina del Campo parece-me óbvia. A pergunta que lhe faço é se não seria mais interessante, para o Norte, a ligação a Ourense? Ou em alternativa, se a ligação a Vigo permite a ligação a Ourense, com rapidez suficiente?

Para transporte de mercadorias, sobretudo, esse canal parece muito mais rápido e eficaz do que o outro; ou não?

António Alves disse...

O modo mais rápido do coração industrial do Norte lá chegar é por Salamanca, utilizando a Linha do Douro ou a putativa Linha Aveiro-Salamanca. Mas, caro Ventanias, se calhar, a única ligação que nos restará será mesmo por Ourense. Por essa razão a ligação Porto-Vigo é agora tão importante. Ao menos que não fiquem a dormir nesta ligação como nas outras. Porque me parece que a ligação Aveiro-Salamanca só será construída no famoso dia de S. Nunca, da parte da tarde :-) ; foi apenas um pretexto para fazer a ligação Lisboa-Madrid por Évora-Badajoz: deram aos lorpas do Norte o rebuçado da Linha Aveiro-Salamanca que, obviamente, foram deixando cair logo que a Lisboa-Badajoz fosse consolidada; para já foi atirada para as calendas gregas, seguidamente chegarão à conclusão que não se justifica ou então que não há dinheiro para tal - depois do aeroporto e do TGV não será difícil invovar o argumento da falta de dinheiro. Quanto à linha do Douro sabemos que só ainda não fecharam aquilo porque ainda não conseguiram as condições políticas ideais.

Diogo disse...

Absolutamente de acordo.

Salem disse...

eu ainda acredito na linha do douro como alternativa a Aveiro Salamanca. Verdade seja dita que Aveiro Salamanca tem uma rentabilidade duvidosa

Ventanias disse...

Quanto a Aveiro-Salamanca, de acordo.

Presumo que quando diz "chegar lá" está a referir-se ao além Pirinéus; mas talvez não tenha sido claro na minha questão.

Entre as alternativas da linha do Douro, de Aveiro-Salamanca (um dia), ou de Vigo, qual delas seria mais rápida para nos ligar à Europa ferroviária?

Pedro Menezes Simoes disse...

Parece-me que a linha do Douro seria um problema para o transporte de mercadorias: a linha do lado de lá é só para passageiros...

Quanto à melhor solução para ligar à europa, eu, não especialista, diria ao olhar para o mapa que a melhor para o Norte é a ligação por Vigo. A melhor para o país (leia-se norte + centro*) é a ligação por Aveiro.

*são as regiões servidas por estas linhas.

Pedro Menezes Simoes disse...

Parece-me que a linha do Douro seria um problema para o transporte de mercadorias: a linha do lado de lá é só para passageiros...

Quanto à melhor solução para ligar à europa, eu, não especialista, diria ao olhar para o mapa que a melhor para o Norte é a ligação por Vigo. A melhor para o país (leia-se norte + centro*) é a ligação por Aveiro.

*são as regiões servidas por estas linhas.

António Alves disse...

A resposta é difícil de dar.

Aveiro Salamanca será a melhor opção se considerarmos também a ligação a Madrid na vertente passageiros. Teriamos um dois em 1. A linha do Douro devido à sua orografia nunca sustentará velocidades elevadas. Mas essas não são necessárias para o tarnsporte de mercadorias. Aqui estamos a falar de velocidades de 120 km/h para baixo. nas mercadorias a fiabilidade e a pontualidade são factores muito mais importantes que a velocidade. A linha do Douro tem ainda uma outra vantagem: colocaria o grande porto seco de Salamanca a 150 km/h do Atlântico. Eu explico como (com a ajuda de Margarido Tão): construia-se um porto fluvial para navios de mercadorias marítimo-fluviais (idênticos aos que sobem o Douro até Biteitos para carregar granito) em Vila Nova de Foz Côa. Os comboios procedentes de Salamanca transbordariam para esses navios em Foz Côa, partindo estes directamente para o mar através do Douro, ou então seguiriam até Leixões para outros navios ou tipo de cargas. Foz Cõa e leixões seriam o porto marítimo de toda a região de Leão e até Castela. Quanto ao facto do lado de lá ser para já apenas para passageiros não invalida este projecto. Negociado com Espanha a linha seria adaptada para mercadorias, o que aliás ela já teve no passado. É tudo uma questão de investimento. Para os passageiros, até Madrid porque para a Europa ninguém irá de comboio a menos que os preços dos aviões se tornem absolutamente incomportáveis, poderemos ir por Vigo. Será sempre mais rápido do que ter que descer a Lisboa, embrenhar-se no alentejo até Badajoz e depois voltar a subir até Madrid. Só um louco é que se meterá nisso. mais vale ir de avião. Madid fica à latitude de Coimbra, não de Lisboa.

Dario Silva disse...

"Os comboios procedentes de Salamanca transbordariam para esses navios em Foz Côa, partindo estes directamente para o mar através do Douro"

Mas então um comboio de mercadorias do Pocinho a Leixões não demoraria apenas umas quatro horas?
Quantas horas perde um "navio" nas eclusas do Douro?

Seria financeiramente compensatório existir (mais) uma transfega de mercadorias em Foz Côa acrescido do tempo extra da viagem fluvial em relação a uma ligação directa (e até mesmo non-stop) entre Salamanca e Leixões via Linha do Douro?

António Alves disse...

Caro Dario,

Um navio dos que refiro tem uma capacidade de carga equivalente a um comboio: 1200 t. Dizem os especialistas que são ainda mais baratos que os comboios. Depois há a questão das taxas portuárias que em Leixões, vocacionado para os grandes tráfegos internacionais e lutando com alguma 'sobreocupação', são pesadas. Um porto fluvial naquela região, além de mais uma alternativa, seria um factor de promoção de desenvolvimento regional. Esse é o objectivo final para o qual os comboios ou os navios são apenas meios.

Jose Silva disse...

A linha do Douro até Salamanca tem de facto potencialidades nas mercadorias e no turismo. Os investimentos para essas valências são menores do que auto-estrada Amarante - Bragança que se inicia, como provou no Norteamos o prof Manuel Tão. PF procurar aqui no por «Linha Douro».

Dario Silva disse...

... viva o Comboio...!

Ventanias disse...

Peço desculpa de só voltar aqui hoje, mas nãoo pude antes.

Caro António Alves, a minha questão, verdadeiramente, tinha a ver com uma outra que o mapa parece apontar claramente. Não faria muito mais sentido, para o Norte exportador, promover a ligação directa de Valença a Ourense? Negociando com Espanha e com o apoio da Galiza, com o qual conto, se necessário?

OObrigado pelas suas respostas.

António Alves disse...

Caro ventanias,

Isso já é política. Mas eu julgo mesmo que essa é a única hipótese que nos restará. Nesse cenário devemos apostar tudo no Porto-Vigo para daí nos ligarmos à europa

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