20080728

A política económica de Sócrates

A política económica de Sócrates funciona mais ou menos assim: Nós temos aqui milhares de empresas que conseguimos espremer. As contas do Estado estão, pelos
padrões portugueses, mais ou menos em ordem. Vamos então pesquisar pelo mundo
empresas estrangeiras que queiram investir em Portugal em coisas giras ou não tão giras para darmos um ar de modernidade e desenvolvimento. Claro que se as convidamos para vir cá, temos que lhes dar alguma coisa porque elas não aceitariam ser espremidas como são as empresas portuguesas. Vamos então dar-lhes benefícios fiscais. Esqueçamos que os mesmos benefícios fiscais, convertidos numa redução de impostos generalizada, poderiam fazer maravilhas pela economia portuguesa. O essencial é que nós, o governo, nos vejamos e sejamos vistos como agentes dinamizadores da economia. Para isso temos que destruir o que não é visto (aquilo que pequenas, médias e grandes empresas podem fazer sem a nossa intervenção), e realcemos o que pode ser visto por todos (todas as inaugurações e cerimónias de lançamento de mais um grande projecto).

PS - Se nós, o governo, queremos ser vistos como agentes directores da economia temos pelo menos que parecer estar a dirigir aquilo que na verdade é uma ordem espontânea, pelo que também nos interessa aparecer como agentes
directores da mudança daquilo que mudaria de qualquer das formas.

João Miranda, Blasfémias

Faltou só um reparo: é que a concessão de subsídios às empresas é também bom para assegurar o financiamento partidário e jobs for the boys when there's a new political party in the government...

4 comentários:

sguna disse...

Este comentário serve também para mostrar a minha opinião acerca do assunto levantado pelo "post anterior".

Antes do mais queria dizer que pessoalmente não sou a favor dos "incentivos" à Embraer ou Autoeuropas para virem para Portugal montar fábricas.

Em relação ao post propriamente dito eu começo assim: se não subsidiarmos estrangeiros para virem para cá, então o que fazemos? Digo isto porquê: eu sou de Matosinhos, a partir de 1986 o país recebeu dinheiro, muito dinheiro da CEE, parte desses fundos eram para modernisar as pescas e a aagricultura. Estamos em 2008, quais são os resultados? Eu não vi os pescadores de Matosinhos a modernisar as respectivas frotas, vejo agora é muito peixe espanhol a ser vendido... a agricultura nacional tinha muitos defeitos, era muito atrasada, actualmente são espanhois que compram quintas no Alentejo a preçõs acima do mercado a portugueses que não conseguem pagar as contas, milagrosamente com um espanhol à frente do negócio, este dá lucro. Este problema não foi só do sector primário. Muito também se "incentivou" a indústria. Subsídios para máquinas, formação profissional, etc. Actualmente, o que é que temos que surgiu desse período? Muito pouco. O nosso problema começa em nós próprios!!!

Deste perído também fica demonstrado que somos muito pobres em administramos a nós próprios. É óbvio que não são estas as razões que levam ao nosso OE a ser gasto por e para outros. No entanto, com outros se calhar a coisa dura mais tempo...

Este tipo de investimento, para mim, continua a ser empresas que vêm para Portugal pela mão de obra barata, ou neste caso, também pelo o acesso ao mercado Europeu (a Embraer também tem que proteger o investimento(???) que fez nas OGMA). É certo que a o trabalho gerado pela Embraer ou AutoEuropa é mais qualificado que fazer T-Shirts, mas no fundo não passamos disso. Trata-se simplesmente de fabricação e montagem (a excepção será talvez para a indústria de moldes). Ou seja a dependência continua, se a Embraer ou a VW forem embora será preciso outro construtor vir para cá para mantermos a mão de obra ocupada. E nisso não somos mais especiais que muitos outros. O que leva a ficarmos reféns destas companhias, que assim que acabam os contratos ameaçam sair do país a não ser que recebam mais contra-partidas(caso da AutoEuropa), mas nisso também não somos únicos.

Pior que estes subsídios é a falta de capacidade demonstrada em sabermos gerir o pouco que temos. Temos governos que governam para quem lhes vai dar emprego a seguir! Mas este tipo de governos reflecte o povo que somos, ou não?

Pedro Menezes Simoes disse...

Temos governos à nossa imagem, sim.

O problema é que usamos os subsídios para atrair investimento estrangeiro, usamos subsídios para permitir a sobrevivência das empresas ineficientes, usamos subsídios para criar "novos sectores" que só existem por causa dos subsídios e quando acabarem os subsídios esses sectores vão ao charco, até usamos subsídios como política macro-económica de contra-ciclo.

A diferença é que baixar impostos atrai PME's, que não dão futuros empregos a ministros, e não criam dependência local (sim, porque atrair grandes empresas coloca-nos numa posição de dependência: o que é que se faz quando uma empresa com 400 trabalhadores decide fechar na Covilhã, aumentando a taxa de desemprego do concelho para 30 ou 40%? Novos subsídios, não?). Subsídios atraem grandes empresas. Só que quando os subsídios acabam as empresas vão-se embora atrás dos subsídios noutro lado qualquer. Claro que vão. Afinal, usar subsídios só serve para atrair empresas que atrás de subsídios.

Existe uma alternativa: não usar subsídios, permitindo que os nacionais competitivos substituam os medíocres nacionais. Permitindo que os nacionais competitivos substituam os investimentos estrangeiros que só são competitivos pelos subsídios. Quem é competitivo não precisa de subsídios. Precisa, quanto muito, de acesso a recursos para reinvestir mais depressa. Pagar menos impostos já era um começo.

Os subsídios aos pescadores e agricultores nunca tiveram a intenção da modernização. Foram sempre meios para manter o emprego na actividade, para evitar o êxodo rural, a desertificação, etc. Foram sempre mais "segurança social" do que incentivos à modernização. Aliás, a sua real missão foi mais impedir a mudança do que promovê-la. E nesse sentido foram muito bem sucedidos. Ups...

CCz disse...

"A diferença é que baixar impostos atrai PME's, que não dão futuros empregos a ministros"
.
"Os subsídios aos pescadores e agricultores nunca tiveram a intenção da modernização. Foram sempre meios para manter o emprego na actividade, para evitar o êxodo rural, a desertificação, etc. Foram sempre mais "segurança social" do que incentivos à modernização."
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Exactamente caro Pedro.

sguna disse...

"Os subsídios aos pescadores e agricultores ... Foram sempre mais "segurança social" do que incentivos à modernização."

E a frase aplica-se também aos subsídios que foram dados a muitas PME's.

Para mim o mal é este mesmo, os governos esbanjam o dinheiro, basicamente, para fazerem campanhas eleitorais, e quem os recebe fica todo contente. Quando as coisas lá fora pioram um bocadinho é o ai que me acuide do costume.

Este ciclo e falta de visão, de querer resultados imediatos, mesmo que artificiais resulta na situação actual, um tecido empresarial sem dimensão e incapaz de ser independente e internacioal (excepto raras excepções). Actualmente pode-se dizer que a situação é exacerbada pelo controlo exercido pelos actuais monopólios.

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