20080531

Enfim

Os 2 candidatos que defendiam o processo de Regionalização ficaram em último.

A candidata que afirma que os projectos socráticos de Alcochete, TTT, novas Scuts e TGV excessivamente caro para as necessidades são para respeitar, ganhou.

Em 2009 governo de Bloco Central para mais do mesmo.

Mais 5 anos de Drenagem do Norte salpicados por Más Ideas, SCUTS «lá vem um» em TMAD e barregens no Tua com lucros para Lisboa.

Enfim.

 

FEUP FAST or slow ?

Aqui podemos ler uma iniciativa interessante da FEUP na área da Economia do Mar:

FASt (FEUP Autonomous Sailboat) is a small scale autonomous unmanned sailboat that is being developed at FEUP (Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Portugal) to participate in the Microtransat competition.

Microtransat was lauched in 2006 by professors Mark James Neal (University of Aberystwyth, UK) and Yves Brière (Ecole Nationale Supérieure d'Ingénieurs de Constructions Aéronautiques - ENSICA and IUT, Nantes, France) to stimulate the development of fully autonomous sailing boats. The final objective is a transatlantic race, presently planned for October 2008, starting from the west coast of Portugal.

The FASt project is supported by the Electrical and Computer Department of the School of Engineering of the University of Porto (DEEC of FEUP) and is being developed by a team of professors and students of FEUP. The boat was built from scratch in composite materials, with the valuable help of a Portuguese kayak builder, located in Crestuma, north of Portugal (www.elio-kayaks.com). The design was inspired on modern racing oceanic yachts and was developed with the free version of the boat design software DelftShip (former FreeShip). The hull bottom at the stern is flat to induce planning and the boat has a deep keel with ballast. The rig is a standard Marconi configuration with a small jib mounted on a boom, as used in smaller RC sailing boats.

The FEUP sailboat will be capable of fully autonomous navigation, controlled by a small embedded computer, various sensors and electric motors to adjust rudders and sails. Electric power source is a combination of a solar panel and conventional electric batteries. Communications for data logging and emergency control rely on a satellite data modem and for short range control and monitoring the boat also has a WiFi connection and a conventional radio-control.

In addition to the Microtransat competition, this exercise will enable us to gain competences in the area of autonomous sailing navigation. We hope, in a near future, to be able to offer flexible platforms capable of long range navigation and adequate for supporting various applications like data acquisition, tracking wild life or even surveillance.

Efectivamente é positivo que se investigue em áreas que poderão dar origem a produtos comercialmente viáveis. Se esta inovação é a Norte e envolve empresas já a operar em sectores laterais, como é o caso, ainda melhor. Poderiamos quase afirmar que iniciativas como esta são louváveis e na direcção certa, o aproveitamento das potencialidades que o mar oferece à economia nacional, como defende a UP. Porém convém ter o sentido das proporções. Os nossos vizinhos galegos exportam porta-aviões. Pensaram mais cedo no assunto e nem o Celta nem o Deportivo são campeões.

 

 

 

20080530

and Rio strikes again

JM Porto ameça queixar-se a Bruxelas

A Junta Metropolitana do Porto anunciou hoje que vai apresentar queixa contra o Governo em Bruxelas caso não seja alterada, num mês, a resolução que prevê o desvio de verbas do QREN para a região de Lisboa. Em causa está a resolução do Conselho de Ministros nº86/2007, de 03 de Julho, que no ponto sete prevê que verbas do Quadro de Referência Nacional Estratégico (QREN) destinadas ao Programa Operacional do Norte possam ser utilizadas em Lisboa se forem aplicadas em projectos considerados de interesse nacional. "A JMP pediu um parecer jurídico para saber se isto é ou não legal face às normas comunitárias", disse o presidente daquele órgão, Rui Rio, acrescentando que a avaliação feita conclui que "esta resolução é ilegal". Segundo referiu, de acordo com o parecer jurídico, a resolução "viola grosseiramente" normas comunitárias. Face à situação, a JMP decidiu fazer um ultimato ao Governo, sendo que vai escrever uma carta à tutela, designadamente ao Ministro do Ambiente, Nunes Correia, a solicitar que até ao final de Junho "anule essa possibilidade", alterando a resolução. "Se nada fôr aletardo, a JMP tem obrigação, em Julho, de apresentar uma queixa em Bruxelas", junto do Tribunal das Comunidades, frisou o autarca do Porto. Para Rui Rio, é dever dos autarcas do Norte "não ficar de braços cruzados". O presidente da JMP salientou, contudo, que o desvio de verbas comunitárias para a região de Lisboa "tem sido constante", não sendo apenas "um pecado deste Governo". Rui Rio falava aos jornalistas no final de uma reunião ordinária da JMP, que agrupa 14 concelhos.

Mais motivos para optimismo moderado: «GrandeGaiaTV.net»

Via Blasfemias, aparece finalmente o canal de Internet TV da AMPorto. Nisto o Porto (AM) ficou para trás: Minho Actual TV, Famalicão TV, Guimarães TV, Trofa TV, Basto TV, Douro TV, Vale do Sousa TV e Viana TV entre outros, anteciparam-se. Sintomático é o Porto AM não ter sido pioneiro nesta nova frente da comunicação social, completamente livre de condicionamento centralista e ser de iniciativa de uma empresa sedeada em Gaia. Como Rio Fernandes escreveu, a liderança na AMPorto não está no concelho sede. Relevante é isto ser um mau presságio para Rio: Além da sua candidata perder amanhã, tem agora uma TV Internet no concelho do seu rival LFMenezes... De qualquer modo tecnologicamente este projecto não representará ainda a revolução que anunciei aqui.

Diferença entre o Norte e o Sul

Excelente crónica de Jorge Fiel: Darwin e Vale do Ave

Às vezes os números não são tão frios como aparentam.  É o caso dos 6,8% de crescimento das nossas exportações têxteis, registado entre Fevereiro de 2007 e de 2008.

Estes 6,8% são uma estatística que nos aquece a alma e é a prova dos nove das capacidades únicas de regeneração do tecido empresarial nortenho, vilipendiado pelos panditas lisboetas do costume habituados a falar com a boca cheia pela lenga lenga dos Ferraris e do trabalho infantil -  para apoucar quem evitou que o pais abrisse falência no rescaldo da Revolução de Abril.

Pela primeira vez , após dolorosos anos de crise, as vendas ao exterior da indústria têxtil e de vestuário cresceram a um ritmo superior às importações, que no mesmo período acusaram uma quebra de 5,3%.

Estas estatísticas do INE mostram o Norte no seu melhor, capaz de se adaptar à globalização, à abertura dos mercados mundiais aos produtos chineses e à desaceleração económica nos principais mercados de exportação do sector.

A 1 de Janeiro de 2005, as portas da União Europeia e dos Estados Unidos ficaram escancaradas à entrada das roupas baratas “made in China” , que já era o maior exportador mundial de vestuário, baseando a sua feroz competitividade num tripé: custos (baixos), eficiência (enorme) e dimensão (gigantesca).

O desarmamento das barreiras alfandegárias ao livre comércio deixou o coalhado de nuvens negras o horizonte de uma indústria que, no seu essencial, baseara a competitividade num fundamento primitivo (o baixo custo da mão de obra).

No Vale do Ave, onde bate o coração da indústria têxtil, temia-se o pior. Mas o cenário desolador, marcado pelas falências e de uma perda recorde de emprego líquido (apenas superado pela registado na construção civil, que foi socialmente atenuado pela emigração para Espanha), foi sendo pintados com cores mais alegres por dezenas de exemplos luminosos de empresas que souberam reestruturar-se, adequando-se a este mundo em fervilhante mudança.  

A têxtil deu uma prova de vida ao país, explicando aos mais distraídos que eram exageradas as notícias que a davam como moribunda. Soube mudar o perfil, tornar-se competitiva na nova e difícil conjuntura, internacionalizar-se e diversificar os seus mercados. Demonstrou que Darwin estava carregadinho de razão quando há uns anos atrás nos avisou que apenas sobreviveriam os mais capazes.

Quando a crise eclodiu na Cintura Industrial de Lisboa e na Península de Setúbal, o bombeiro teve de ser o Governo a usar o nosso dinheiro para comprar a Autoeuropa e apagar esse fogo.

Quando a crise incendiou o Vale do Ave, os empresários e operários da têxtil não ficaram sentados à espera da ajuda governamental, porque sabiam que morreriam queimados se o fizessem. Encarregaram-se eles próprios de extinguir as chamas.

É esta a diferença entre o Norte e o Sul.

 

Eu votaria em PSLopes. O Norte também devia fazê-lo

Se fosse militante do PSD, eu votaria em PSLopes ou Patinha Antão. E acho que o Norte devia fazê-lo. Já apresentei uma razão aqui. A outra é o facto incontestável de PSLopes ter dito quando assumiu o poder que «Portugal não era Lisboa». 4 meses depois seria desalojado por um golpe palaciano-mediático sem precedentes na democracia nacional. Caso PSL ganha amanhã, em princípio votarei PSD em 2009.

Se ganhar PPCoelho, poderei ou não votar no PSD. PPCoelho tem ainda falta de lastro. Mas reconheço nele e nos seus apoiantes vontade de ouvir e avançar. Só não sei se conseguirá afrontar com sucesso as «máfias» do centralismo. Por exemplo, o apoio de Paulo Teixiera Pinto é sintomático. Revela que há interesseiros, desempregados da política à procura lugares. Na prática, os centralistas do costume (Rio, Veiga, JPABranco, JPPereira, MRSousa, Cavaco, Durão, Borges, etc) estão com MFLeite. Os centralistas zangados com o Centralismo estão com PPCoelho. Todos eles seriam apoiantes de PPCoelho no dia seguinte a uma vitória deste...

Mais grave ainda é aquilo que já se percebe das intenções de MFLeite: Fazer uma coligação com Sócrates em 2009. Perante a subida do PCP+BE+Alegres, que já alcançam 20%, o PS sem maioria absoluta teria que se coligar com alguém que mantenha o «status quo» dos interesses oligárquicos de Lisboa. Estavam a preparar-se com notável antecipação para governarem-se mais 4 anos. Caso ela ganhe, obviamente teria que esperar por uma candidatura de Rui Moreira na lista de algum partido ou votar PCP (o BE é contra a Regionalização e Centralista). A não ser que LFMenezes ou alguém avancem com um partido populista/regionalista...

Assim o melhor que o Norte tem a fazer é mesmo apoiar PSLopes. Enganaram-me com Guterres/Nogueira em 95, mas votei pela primeira vez no PSD em 2005. A regra é simples votar sempre contra o «status quo».

20080529

Minho: Politicamente Abaixo de Zero

Os portugueses de Braga, Guimarães e de mais algumas cidades e vilas de todo o país vão pagar os aumentos dos passes sociais dos seus transportes públicos e ainda os passes sociais de Lisboa e do Porto. A situação não é nova, mas está a atingir níveis de absurdo que devem motivar uma profunda reflexão entre todos.

A Câmara de Braga já anunciou que, apesar dos aumentos dos combustíveis, o preço dos passes sociais vai manter-se. Perante a discriminação imposta pelo governo socialista, Mesquita Machado «lamenta que os bracarenses sejam tratados como portugueses de segunda. Os lamentos têm a ver com a ausência de apoios estatais aos transportes urbanos de Braga ao contrário do que sucede com os do Porto e Lisboa onde o governo decidiu não aumentar os passes sociais.»

Estas declarações políticas que, aliás, subscrevemos em absoluto são manifestamente insuficientes tendo em conta os prejuízos acumulados. Apesar dos passes sociais dos Transportes Urbanos de Braga não aumentarem no próximo mês de Julho, é bom que os bracarenses tenham presente que a factura está a ser paga por todos, em prejuízo de investimentos que terão necessariamente que ser adiados.

Congelamento dos passes sociais

Convém lembrar que Lisboa significa Lisboa propriamente dita, Loures,Sacavém, Sintra, Oeiras,Cascais, Odivelas, Vila Franca, Azambuja, Almada, Barreiro e Setúbal; Porto, por sua vez, significa o Porto propriamente dito, Gaia, Espinho, Ovar, Estarreja, Aveiro, Valongo, Gondomar, Maia, Matosinhos, Póvoa de varzim, Vila do Conde, Ermesinde, Paredes, Penafiel, Caíde de Rei, Trofa, Famalicão, Braga, Santo Tirso, Vizela, Vila das Aves e Guimarães.Todas estas localidades, de um modo ou de outro, e umas mais que outras, estão abrangidas pelos passes sociais em vigor nas áreas metropolitanas do Porto e Lisboa. Quanto ao resto têm toda a razão.

Em vez de congelarem os passes sociais, e transferirem o dinheiro directamente para as empresas, deviam era deixar que o custo se repercutisse directamente nos consumidores e compensá-los depois com a possibilidade de poderem descontar o dinheiro despendido com os passes em sede de IRS. Funcionava até como um incentivo ao uso dos transportes públicos como sugiro no meu post anterior. Mas o governo, que não é nada parvo, preferiu a demagogia: como a esmagadora maioria dos operadores de transportes públicos nas duas áreas metropolitanas são empresas públicas que recebem indemnizações compensatórias, i.e. recebem o que o governo lhes apetecer dar e não refilam, o governo faz de conta que é benemérito. As empresas, entretanto, vão acumulando passivo.

Convém recordar aos mais distraídos que a decisão foi tomada por Lisboa

ministros da gasolina




O meu amigo, e sempre bem informado, Dario Silva enviou-me estes dados referentes ao número de veículos automóveis segurados em Portugal. E isto a propósito de quê? A propósito do aumento dos preços dos combustíveis, obviamente. Pelo que podemos ver, existiam em Portugal, no ano de 2006, 4.206.618 veículos ligeiros segurados. O que dá, grosso modo, um automóvel para cada 2,46 portugueses. Na realidade dá uma média de 1 automóvel para cada 1,9 portugueses adultos. Incluindo, obviamente, os que não conduzem, não usam o automóvel, ou já não têm idade, por serem muito idosos, para conduzir. Daqui não viria qualquer mal ao mundo. Poderia até ser um sinal de riqueza e bem estar. Mas não é. Para milhões de portugueses a posse de um automóvel é a única forma de se deslocarem eficientemente na sua vida quotidiana. Há também muito comodismo e paradigmas culturais errados associados a esta realidade. Mas, julgo, não invalidam a desmesurada dependência de milhões de cidadãos do transporte particular. A tudo isto devemos acrescentar a também excessiva servidão das empresas ao transporte rodoviário por camião.

A escalada dos preços dos combustíveis, que não é conjuntural, e mesmo depois de corrigida a momentânea especulação, é um fenómeno que veio para ficar, coloca em causa toda esta realidade socioeconómica. O tempo da energia barata acabou. Muitos orçamentos familiares estão a rebentar pelas costuras. Às galopantes subidas das prestações mensais do crédito à habitação somam-se as cada vez maiores despesas com combustíveis. Para muitos é o descalabro. Conheço famílias a gastar 500 euros de combustíveis mensalmente.

Abordo este assunto na sequência do debate de ontem na SIC entre os candidatos à liderança do PSD. Acerca deste tema, um queria baixar o ISP, outro constituir um fundo, um outro baixar o IVA, o quarto nem sequer percebi bem o que propunha. Tudo medidas paliativas. Aspirinas que aliviam momentaneamente a dor de cabeça mas não curam nada. Nenhum deles propôs, por exemplo, levar para a frente, com carácter de urgência, o alargamento das redes de metro do Porto e de Lisboa (duma vez por todas em irrepreensível paridade), o arranque definitivo do metro em Coimbra, a implementação de uma rede de caminho de ferro ligeiro no Minho e a correcção do traçado da Linha algarvia de modo a que sirva eficazmente todo o seu litoral; a construção de uma ligação ferroviária moderna da Região Norte a Espanha e Europa para que a nossa indústria exportadora possa reduzir os custos associados à nossa condição periférica e diminuir a sua dependência do camião; ou então a promoção do uso do transporte público através de compensações fiscais (porque raio eu não posso descontar os 280 euros anuais que gasto na aquisição do meu passe mensal no IRS?); e também o anúncio de medidas que promovam o regresso das pessoas ao centro das grandes cidades, financiado a sua recuperação urbanística e aumentando a oferta de habitação a preços comportáveis, passando estas a residir mais perto do seu local de trabalho. A solução passa por preparar o país para que a maioria das pessoas possa dispensar o uso dos automóveis nas suas quotidianas deslocações entre a casa e o emprego/escola. As famílias poupariam milhares de euros anuais. Todo esse fluxo monetário poupado seria mais bem empregue na compra de alimentação (também cada vez mais cara), cultura e lazer. Todos viveríamos melhor e a economia ganharia com isso. Seria mais diversificada. A malta do lóbi automóvel teria que mudar de ramo porque a quantidade de dinheiro manter-se-ia a mesma, apenas seria aplicada noutro tipo de bens. Os impostos sobre os combustíveis devem ser baixados apenas nas duas actividades económicas cada vez mais fundamentais: a agricultura e as pescas. Acreditem: estamos a entrar numa era de regresso ao básico e fundamental.

Obviamente que nenhum dos postulantes a líder do PSD se lembrou de falar nestas coisas. Também ninguém esperaria tal de um conjunto de pessoas que toda vida foi funcionária pública ou político profissional. Pareciam quatro candidatos a ‘ministro da gasolina’. Mas este mal não é exclusivo do PSD.

MSTavares é um lisbonário centralista masoquista

«(...) E quem sentiu a necessidade urgente de mais auto-estradas a rasgar todo o interior já deserto, de um novo aeroporto para Lisboa, de um TGV de Lisboa para Madrid, outro do Porto para Vigo e de uma nova ponte sobre o Tejo para o servir? Quem foi que andou a gritar “gastem-me o dinheiro dos meus impostos a fazer auto-estradas, pontes, aeroportos e comboios de que não precisamos”? Porque razão, então, o lóbi das obras públicas, os engenheiros, projectistas, banqueiros e advogados que os assessoram, mais a ilusão keynesiana do primeiro-ministro, nos hão-de impingir o que não pedimos?

Fomos nós, porventura - ou os autarcas, os especuladores imobiliários e os empresários do turismo - que reclamámos a legislação de excepção dos Projectos PIN para dar cabo da costa alentejana e do que resta do Algarve? Foi nossa a decisão que a Comissão Europeia classificou como uma batota para contornar as normas de protecção ambiental e ordenamento do território?

Fomos nós que reclamámos a privatização da electricidade para depois a pagarmos muito mais cara ou que, inversamente, protegemos até ao limite o monopólio da PT nos telefones fixos, em troca de termos o pior e o mais caro serviço telefónico da Europa?

Fomos nós que nos revoltámos contra o queijo da Serra feito em mesas de mármore, a galinha de cabidela ou o medronho da Serra de Monchique? É em nome da nossa vontade e da nossa cultura que o «ayatollah» Nunes e a sua ASAE aterrorizam e enfurecem meio país?

Fomos nós que estabelecemos uma sociedade policial contra os fumadores, que quisemos encher Lisboa de radares para controlar velocidades impossíveis e ajudar a fazer da caça à multa o objectivo principal da prevenção rodoviária?

Fomos nós que concordámos em que os agricultores fossem pagos para não produzir, os pescadores para não pescar, as empresas para fazer cursos de formação fantasmas ou inúteis, alguns escritores para terem ‘bolsas de criação literária’ para escrever livros que ninguém lê, os privados para gerir hospitais públicos com o dobro dos custos?

Fomos nós que aceitámos pagar por caças para a Força Aérea que caem todos sem nunca entrar em combate, helicópteros que não voam por falta de sobressalentes, submarinos que não servem para nada, carros de combate que avariam ao atravessar uma poça de água?

Fomos nós que decretámos que o Euro-2004 era “um desígnio nacional” e, para tal, desatámos a construir estádios habitados por moscas, onde jogam clubes que vegetam na segunda divisão ou se aguentam na primeira sem pagar aos jogadores, ao fisco e à Segurança Social? E é a nossa vontade colectiva que anda a animar uns espíritos inspirados que já por aí andam a reclamar um Mundial de Futebol ou mesmo uns Jogos Olímpicos?

Ah, e a regionalização, essa eterna bandeira de almas ingénuas ou melífluas, que confundem descentralização com jardinização? Esse último disparate nacional que falta fazer e com o qual nos ameaçam ciclicamente com o argumento de que está na Constituição, embora nós já tenhamos respondido, clara e amplamente, que dispensamos a experiência, muito obrigado?

Será que não se pode acalmar um bocadinho os nossos esforçados governantes? Pedir-lhes que parem com os “projectos estruturantes”, os “desígnios nacionais”, os “surtos de desenvolvimento”, os PIN, os aeroportos, pontes e auto-estradas, que deixem de se preocupar tanto com o que comemos, o que fumamos, o que fazemos em privado e o que temos de fazer em público? Eu hoje já só suspiro por um governo que me prometa ocupar-se do essencial e prescindir do grandioso: um governo que prometa apenas tentar que os hospitais públicos funcionem em condições dignas e que não haja filas de espera de meses ou anos para operações urgentes, que os professores e alunos vão à escola e uns ensinem e outros aprendam, que os tribunais estejam ao serviço das pessoas e da sua legítima esperança na justiça e não ao serviço dos magistrados ou dos advogados, que as estradas não tenham buracos nem a sinalização errada, que as cidades sejam habitáveis, que a burocracia estatal não sirva para nos fazer desesperar todos os dias. Um governo que me sossegue quanto ao essencial, que jure que não haverá leis de excepção nem invocados “interesses nacionais” que atentem contra o nosso património: a língua, a paisagem, os recursos naturais.

Mas não há dia que passe que não veja o eng.º Sócrates a inaugurar ou a lançar a primeira pedra de qualquer coisa. E encolho-me de terror perante esta saraivada de pedras, que ora ajuda a roubar mais frente de rio a Lisboa, ora entrega mais uma praia a um empreendimento turístico absolutamente necessário para o “desenvolvimento”, ora lança mais uma obra pública inútil e faraónica destinada a aliviar-me ainda mais do meu dinheiro para o dar a quem não precisa. Vivo no terror dos sonhos, dos projectos, das iniciativas de governantes, autarcas e sábios de várias especialidades. Apetece dizer: “Parem lá um pouco, ao menos para pensar no que andam a fazer!”

Além de mais, já não percebo muito bem o que justifica tanto frenesim. Já temos tudo o que são vias de transporte concessionado para as próximas gerações: auto-estradas, pontes, portos, aeroportos (só falta o comboio, mas os privados não são parvos, vejam lá se eles querem ficar com o negócio prometidamente ruinoso do TGV!). Já temos tudo o que é essencial privatizado (só falta a água e palpita-me que não tarda aí mais esse ‘imperativo nacional’). É verdade que ainda faltam alguns Parques Naturais, Redes Natura e REN por urbanizar, mas é por falta de clientes, não por falta de vontade de quem governa. Já faltou mais para chegarmos ao ponto em que os governos já não terão mais nada para distribuir. Talvez então se queiram ocupar dos hospitais, das escolas, dos tribunais. Valha-nos essa esperança.»

Miguel Sousa Tavares (Expresso 10/05/2008)

220 km/h


20080528

Alertas do Norteamos inspiram tese de mestrado em Geografia na UMinho

Os leitores mais atentos encontrarão na seguinte tese muitos dos alertas que temos publicado, como por exemplo este.

Na conjuntura actual do aumento de combustíveis e do uso excessivo do automóvel em detrimento do uso do transporte colectivo, as decisões políticas constituem marcos decisivos para o futuro. No entanto, o passado recente tem revelado decisões que pouco têm de sustentável na melhoria da mobilidade das populações.

O Livro Branco dos Transportes na União Europeia indica o caminho da gestão sustentável da mobilidade favorecendo o transporte ferroviário em detrimento dos transportes rodoviários, pelos conhecidos problemas ambientais e sociais.

No entanto, as decisões nacionais têm-se pautado por medidas que favorecem o transporte individual.

Veja-se o caso do Comboio de Alta Velocidade (AV), cujo traçado esteve dependente do traçado de uma rede externa à nossa (rede Espanhola para o comboio de alta velocidade) o que condiciona o futuro económico da região Norte. De facto, sabendo que o AV será um transporte vocacionado principalmente para o transporte de mercadorias, uma vez que não consegue competir em termos de tempo/custo com o transporte aéreo no que diz respeito ao transporte de passageiros para distancias superiores a 600km, a rede em formato “L” acaba por favorecer Lisboa, colocando-a mais perto da Europa. Em contrapartida, a Região Norte e Centro, onde a concentração de empresas e indústrias é maior, fica marginalizada face à rede ferroviária, o que favorece o transporte rodoviário para colocar os produtos na Europa.

Esta situação não se colocaria no caso do traçado do AV ser em formato “T” ligando Porto a Lisboa e ao mesmo tempo a Madrid mas por Salamanca e não por Badajoz como é o traçado actual. Neste cenário a rede de AV acabaria por servir uma área de potencial utilização muito maior do que a servida pela rede em “L” aprovada.

No entanto, mesmo com a estratégia assumida pelo governo parece-nos haver três situações que suscitam algumas dúvidas.

Comecemos pelo aeroporto de Alcochete; o Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações (MOPTC) prevê uma estação de AV para servir esta futura infra-estrutura aeroportuária. Na nossa opinião é uma opção errada, uma vez que a população da Área Metropolitana de Lisboa (AML) dificilmente tomará o Comboio AV para percorrer uma distância tão reduzida. Por seu turno a região do Alentejo não tem população potencial utilizadora do aeroporto suficiente que justifique a estação em Alcochete.

Badajoz verá o seu aeroporto remodelado e o Novo Aeroporto de Lisboa (NAL) não será um hub vocacionado para o público espanhol.

A população que se desloca desde o Norte de Portugal vinda de AV pode perfeitamente, na Estação de Lisboa Oriente, tomar um comboio convencional até ao NAL, desde que essa troca seja feita de forma eficiente.

A segunda situação prende-se com uma eventual linha entre Aveiro e Salamanca. Uma vez que a opção “T” não foi adoptada, não nos parece pertinente a construção desta linha, uma vez que Aveiro, Viseu e Guarda não tem massa critica suficiente para uma ligação a Salamanca por AV. Como alternativa a esta linha, para o escoamento de mercadorias, temos a Linha do Douro, que liga o Porto ao Pocinho (Concelho de Vila Nova de Foz Côa) mas que outrora ligava o Porto a Salamanca, sendo que o canal ainda existe, pelo que as obras de recuperação ficariam bem mais baratas do que a construção de uma nova linha.

A terceira situação está novamente ligada às questões aeroportuárias. O traçado inicial não contempla uma ligação ao Aeroporto Francisco Sá Carneiro (ASC), o que na nossa óptica vai prejudicar gravemente esta infra-estrutura. Uma grande parte do catchement área deste aeroporto provém da Galiza, nomeadamente da zona sul e assim sendo parece-nos viável uma ligação ao ASC. Nos moldes previstos qualquer pessoa que se desloque ao ASC vinda de AV terá de se apear na Estação de Porto Campanhã e tomar o light rail da Metro do Porto, e terá assim de prolongar a sua viagem por mais 30 minutos (caso venha do Sul) ou mesmo 45, caso venha da Galiza.

O MOPTC, através da Secretária de Estado Ana Paula Vitorino, garantiu que fica reservado um canal entre Braga e o ASC para, assim que se justifique, lançar uma nova linha. Enquanto isso, entre Braga e o Porto o AV circula pela actual Linha do Minho.

Na nossa óptica, vai-se desenvolver o seguinte cenário: sem a possibilidade de ligação directa ao ASC o AV deixa de constituir uma mais valia para os espanhóis e assim perderá competitividade, e como tal, nunca se justificará a construção da ligação ao ASC, entrando-se assim num ciclo vicioso.

Temos também algumas dúvidas acerca da viabilidade da circulação do AV na actual Linha do Minho, uma vez que se trata duma linha altamente congestionada, nomeadamente entre Braga e Porto, aumentando este tráfego à medida que nos aproximamos do Porto.

Trata-se então de um exemplo em que a decisão política não avaliou devidamente as consequências na mobilidade e o impacto no desenvolvimento económico de uma região, pondo em causa as estratégias nacionais e os princípios consagrados a nível internacional quanto ao tema mobilidade.

Por Carlos Eiras (artigo de opinião produzido no âmbito da unidade curricular "Economia e Política Regional" do Mestrado em Geografia, do ICS/UMinho)

20080527

70-46

Com mais de oito quilómetros de extensão, a Linha Amarela afirma-se como um eixo estruturante no Metro do Porto, conseguindo ligar o Hospital S. João à extremidade da Avenida da República em apenas 23 minutos. Algo que nenhum outro transporte consegue bater, seja ele autocarro ou automóvel.

Encontros imediatos...


Leituras recomendadas