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20081022

Norte plural e balcanizado

Sempre conheci a posição anti-«portocentrismo» do Pedro Morgado. Não me impediu convida-lo, apesar de não ser das participações mais frequentes no blogue. Julguei que esta visão do Norte (fora do Porto) iria enriquecer o debate. Infelizmente, teve logo uma consequencia. Rui Valente, fundador do Norteamos desistiu de participar porque não esperava uma visão alternativa do Norte que Pedro Morgado personalizava.

Lamentei nessa altura a saída de Rui Valente assim como lamento a saída do Pedro Morgado. A saída de ambos contribui para a balcanização do Norte dado que reforça a visão mais auto-centrada de cada uma das sub-regiões que o compõe. Mais episódios como o erro no mapa «Outdoor» irão ocorrer e mais falsas percepções da suposta acção «portocentrica» do Porto irão aparecer em Braga. Para bracarenses mais distraídos, o Porto apenas tem poder público local e delegações do público poder central.

Certa altura fui criticado por defender a Regionalização por Fusão de Autarquias (estaria a dividir o Norte). A minha percepção é que o Norte efectivamente já tem divisões suficientes em termos de desenvolvimento, aspirações, prioridades, maneiras de pensar. Aliás, nem precisamos de sair do distrito do Porto para constatar isso mesmo: O Tâmega é miserável se compararmos com a AMPorto.

Há tempos li que nos concelhos de TMAD se discute se iluminação pública de certas igrejas devem ou não ficar acesas durante a noite. No Porto, ninguem pensaria em desligar as luzes da ponte da Arrábida. O mesmo em Braga. Isto é revelador que há muita heterogeneidade.

Efectivamente quem precisa de perceber isso mesmo são os portuenses da AMPorto que conhecem melhor Lisboa do que o resto do Norte. Reparemos com nós, no Porto, reclamamos investimentos para o Metro porque Lisboa tem muito mais, mas nunca começamos o debate pelo vale do Tamega que nada tem. Mesmo bem intencionados, os portuenses deviam ter muito mais cuidado ao falar em Norte. Como não o tem, ouvem de Braga, naturalmente.

Não há dúvida, no entanto, que quem em Portugal protesta contra Lisboa é o Porto. O resto come migalhas e fica calado. E aí Braga tem muito a melhorar e aprender com o Porto. Reconheço que o Pedro Morgado também protesta contra Lisboa e portanto está a salvo desta recomendação. Por isso mesmo é que considero o comentário sobre o «Outdoor» injusto. Aliás o António Alves sempre foi um dos que sempre se preocupou com todo o Norte e não apenas com o Porto.

Esta saída do Pedro Morgado, tal como a do Rui Valente, provam que há ainda muita falta de conhecimento sobre o Norte por parte de todos os residentes. A pluralidade não deveria nem teria que ser balcanizada. Dividir e reinar sempre foi, também, uma estratégia de Lisboa...

PS1: O Alexandre Ferreira começou finalmente a manifestar-se. E ficou surpreendido com certas reacções. Eu pelo contrário, não fiquei surpreendido com o que a militancia partidária faz à percepção da realidade por parte dos seus membros.

PS2: Desafio o Pedro Morgado para republicar este post no Avenida Central. Penso que é pedagógico para os leitores de Braga.

20080715

Debate sobre a Regionalização - a questão do Porto

Caro Filipe,

Ao fim de alguns dias, finalmente vou comentar o teu post (aqui também) sobre a tua intervenção no debate sobre a regionalização da semana passada no Auditório Almeida Garrett, Porto. Elogio-te a integridade de publicares o teu comentário tal como ele foi feito nesse dia, pois tenho algumas dúvidas que ainda vejas as coisas da mesma forma. Mas como tu próprio dizes, interviste como agente provocador. Tenho a dizer o seguinte:

1- O mapa administrativo do país deve reflectir a sua realidade substantiva. Ora, a cidade do Porto hoje em dia extravassa os limites do concelho do Porto, tanto para sul (Gaia) como para Norte (Matosinhos, Sra. da Hora, S. Mamede Infesta, etc.), se tivermos em conta a existência de um contínuo de elevada densidade urbana entre estes concelhos, ainda que seja um aglomerado urbano de características policêntricas.

Historicamente e substantivamente Gaia e Porto são a mesma cidade (até etimologicamente - Portus Cale), situação comprovada pelo facto da zona classificada como património Unesco incluir os centros históricos do Porto e de Gaia. Aliás, até ao princípio do século passado, o concelho do Porto abrangia o Porto, Gaia (centro histórico) e o porto de Leixões.

Salvo mais douta opinião, se o Porto absorve Gaia ou o inverso é uma "não questão": estamos a falar de uma única cidade. Que nunca deveria ter sido formalmente separada.

2- Não é verdade que é só no Porto que se fala de regionalização. Esse é um preconceito que é fácil de desmontar, e a sua existência é reveladora do desiquilíbrio regional do país. O que se passa é que apenas os agentes do Porto têm Voz suficiente para se fazer ouvir no resto do país. Ou seja, não é "apenas o Porto fala de regionalização", mas "apenas o Porto tem Voz para falar de regionalização". Também o Algarve em peso, Viseu, Minho, Alentejo e Lisboa a defendem.

Quanto à questão do centralismo nortenho tem muito que se lhe diga. As poucas vozes que no país se ouvem na defesa do Douro são do Porto. Aliás, a linha do Douro foi financiada pelos empresários portuenses. E, a título de exemplo, no início do século passado o Porto quis criar uma "junta do norte", financiada exclusivamente pelo município do Porto, para realizar no Norte as obras que o Governo de Lisboa não fazia. (Foi impedido.) Parece-me que isto é precisamente o oposto de concentracionismo...

E diga-se que historicamente a luta do Porto tem sido pela sua autonomia. E a luta dos poderes dominantes (nobreza, bispado, Estado Central) tem sido por reduzir a sua autonomia. A luta do Porto não é pelo domínio das áreas circundantes: o policentrismo da área entre Aveiro e Viana é disso revelador.

3- "Para votar a favor teria de se regionalizar todo o país excepto o Porto. A região norte seria à volta do Porto; o Porto seria um enclave nortenho da região de Lisboa".

Afirmas que o que motiva o Porto é a inveja a Lisboa, mas acabas por propor o domínio do Porto por Lisboa. Compreendo o teu medo de neo-centralismo. Não vejo é porque motivo queres negar ao Porto a sua autonomia. Provocação: será que Lisboa tem medo do Porto, e precisa de o manter sob controle?

4- Quanto às questões da Constituição obrigar à Regionalização, parece-me que tal não é argumento válido. Da mesma forma que se colocou na Constituição, também se retira. O importante é que haja vontade política (dos políticos e da população). É um argumento de autoridade que se limita ao lavar de roupa suja.

P.S. Foi um prazer conhecer-te pessoalmente. Próxima vez que venhas ao Porto, p.f. deixa uma nota aqui no Norteamos.

Nota: A intervenção do público no Porto não foi uma excepção neste debate. É comum em todos os debates a que assisti. Sem qualquer juízo de valor, e sem pretender fazer provocações, pergunto-me qual a razão para não ser assim em Lisboa?

20071114

Debate Intra-Norte: Rui Rio contra o Portocentrismo

Notícia do Primeiro de Janeiro:
"No final da reunião de ontem (26.10.2007) da JMP, Rui Rio adiantou ainda que irá enviar uma carta ao secretário de Estado do Turismo, a propor que haja uma solução diferente da encontrada para o Porto, no âmbito da proposta de lei das Regiões de Turismo.
(...)
O Presidente da JMP avalia a redução como positiva, mas considera que o Porto 'fica com a sua capacidade reduzida'. No entender de Rui rio, o Porto tem 'especificidades que podem tornar difícil a gestão do Norte', pelo que 'tem de ser encontrada uma solução em que o destino Porto tenha posição de destaque dentro da região Norte'.

O responsável acredita que poderá haver várias possibilidades de resolver o problema, admitindo nomeadamente que a região (do Porto) seja definida como Região de Turismo e que o Norte fique com o Douro para ter mais força. Rui Rio sublinha que mesmo que não reja atribuído o estatuto de Região de Turismo ao Porto e que em forma de compensação a cidade fique com a sede da região, o que irá suceder é que 'irá correr-se o risco de o Porto, pela sua importância, poder secar tudo à sua volta'."


PMS: Portanto, Rui Rio rejeita a possibilidade de uma Região de Turismo do Norte com o Porto como sede. Onde está então o tão falado Portocentrismo? Pelos vistos, quando o Porto tem a possibilidade, ao contrário do afirmado, recusa o neo-centralismo.

Nota: Mais uma vez, insisto na solução para este problema: é mais importanto olhar para o produto turístico do que olhar para as divisões administrativas existentes. Tal não é fácil: o norte (e Aveiro) está numa encruzilhada entre o Aeroporto Sá Carneiro e a Galiza. A nível de promoção externa, a região tem de ser una. Ao nível da implementação e gestão do produto turístico, a intervenção é local / multimunicipal, mas com implicações regionais.

20070927

Debate Intra-Norte: O "Portocentrismo" é a consequência natural do centralismo

A propósito disto, parece-me que há quem tenha uma visão um pouco estranha de qual é o papel dos presidentes de câmara num regime centralista.

Hão de me explicar por que motivo é expectável que os presidentes de câmara da Área Metropolitana do Porto (AMP) venham a pedir investimento público para municípios fora da AMP, seja para o Minho, Douro ou Trás os Montes.

No dia em que um Presidente de Câmara de um município pedir ao Governo para não investir no seu município, mas investir noutro, está na hora de se demitir. Pode até ser muito boa pessoa, pode até ser um acto muito louvável, mas está claramente a ir contra um dos seus deveres mais básicos: o de agir sempre no máximo interesse dos cidadãos que representa.
Os Presidentes de Câmara têm como função defender o interesse dos seus munícipes. Não o interesse da sua região ou país. Para isso existe o Governo da República. E se este não é imparcial e distribui benesses sem defender o interesse global, a responsabilidade é só e apenas deste.
Por isso, antes de virem com mais conversas de "Portocentrismo", façam-me o favor de demonstrar em que é que estou errado neste raciocínio. Nunca confundi Política com Filantropia.

20070626

Portocentrismo

A linha de comboio rápido entre o Porto e a Galiza será construída em bitola ibérica e assim continuará por muitos e bons anos; a putativa linha de "TGV" entre Lisboa e Porto será construída já em bitola europeia.
Sendo assim, existirá uma incompatibilidade técnica objectiva entre entre estas duas vias. A menos que se compre material circulante de eixos ajustáveis (que exige elevado investimento e que não me parece provável até pelo volume de tráfego previsto) quem vier de Vigo e pretenda seguir para sul terá que fazer um transbordo obrigatório em Campanhã.
Na primeira fase, estou crente que nem sequer será adquirido material circulante novo para a Ligação a Vigo. Serão utilizados os comboios pendulares que actualmente circulam na Linha do Norte que após a construção do "TGV" Lisboa- Porto ficarão disponíveis.
Como já demonstrei aqui, existe já hoje a possibilidade de ligar a actual rede ferroviária ao Aeroporto Sá Carneiro a um custo baixo. o ASC ficaria assim rapidamente ligado directamente pela ferrovia tanto a Vigo como às regiões de Coimbra e Guarda. Esta é que devia ser a reivindicação imediata.
Rui Moreira vai mal quando desvaloriza o projecto de ligação ferroviária do Porto/Noroeste à Galiza. Está a ser portocêntrico e a desbaratar a solidariedade duma cidade importantíssima para esta batalha como é Braga e do resto do Minho, para quem esta obra é a única oportunidade de grande investimento na região.
É por estas e por outras que Rui Rio bate qualquer dos pretendentes por KO.
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