20080715
Debate sobre a Regionalização - a questão do Porto
Ao fim de alguns dias, finalmente vou comentar o teu post (aqui também) sobre a tua intervenção no debate sobre a regionalização da semana passada no Auditório Almeida Garrett, Porto. Elogio-te a integridade de publicares o teu comentário tal como ele foi feito nesse dia, pois tenho algumas dúvidas que ainda vejas as coisas da mesma forma. Mas como tu próprio dizes, interviste como agente provocador. Tenho a dizer o seguinte:
1- O mapa administrativo do país deve reflectir a sua realidade substantiva. Ora, a cidade do Porto hoje em dia extravassa os limites do concelho do Porto, tanto para sul (Gaia) como para Norte (Matosinhos, Sra. da Hora, S. Mamede Infesta, etc.), se tivermos em conta a existência de um contínuo de elevada densidade urbana entre estes concelhos, ainda que seja um aglomerado urbano de características policêntricas.
Historicamente e substantivamente Gaia e Porto são a mesma cidade (até etimologicamente - Portus Cale), situação comprovada pelo facto da zona classificada como património Unesco incluir os centros históricos do Porto e de Gaia. Aliás, até ao princípio do século passado, o concelho do Porto abrangia o Porto, Gaia (centro histórico) e o porto de Leixões.
Salvo mais douta opinião, se o Porto absorve Gaia ou o inverso é uma "não questão": estamos a falar de uma única cidade. Que nunca deveria ter sido formalmente separada.
2- Não é verdade que é só no Porto que se fala de regionalização. Esse é um preconceito que é fácil de desmontar, e a sua existência é reveladora do desiquilíbrio regional do país. O que se passa é que apenas os agentes do Porto têm Voz suficiente para se fazer ouvir no resto do país. Ou seja, não é "apenas o Porto fala de regionalização", mas "apenas o Porto tem Voz para falar de regionalização". Também o Algarve em peso, Viseu, Minho, Alentejo e Lisboa a defendem.
Quanto à questão do centralismo nortenho tem muito que se lhe diga. As poucas vozes que no país se ouvem na defesa do Douro são do Porto. Aliás, a linha do Douro foi financiada pelos empresários portuenses. E, a título de exemplo, no início do século passado o Porto quis criar uma "junta do norte", financiada exclusivamente pelo município do Porto, para realizar no Norte as obras que o Governo de Lisboa não fazia. (Foi impedido.) Parece-me que isto é precisamente o oposto de concentracionismo...
E diga-se que historicamente a luta do Porto tem sido pela sua autonomia. E a luta dos poderes dominantes (nobreza, bispado, Estado Central) tem sido por reduzir a sua autonomia. A luta do Porto não é pelo domínio das áreas circundantes: o policentrismo da área entre Aveiro e Viana é disso revelador.
3- "Para votar a favor teria de se regionalizar todo o país excepto o Porto. A região norte seria à volta do Porto; o Porto seria um enclave nortenho da região de Lisboa".
Afirmas que o que motiva o Porto é a inveja a Lisboa, mas acabas por propor o domínio do Porto por Lisboa. Compreendo o teu medo de neo-centralismo. Não vejo é porque motivo queres negar ao Porto a sua autonomia. Provocação: será que Lisboa tem medo do Porto, e precisa de o manter sob controle?
4- Quanto às questões da Constituição obrigar à Regionalização, parece-me que tal não é argumento válido. Da mesma forma que se colocou na Constituição, também se retira. O importante é que haja vontade política (dos políticos e da população). É um argumento de autoridade que se limita ao lavar de roupa suja.
P.S. Foi um prazer conhecer-te pessoalmente. Próxima vez que venhas ao Porto, p.f. deixa uma nota aqui no Norteamos.
Nota: A intervenção do público no Porto não foi uma excepção neste debate. É comum em todos os debates a que assisti. Sem qualquer juízo de valor, e sem pretender fazer provocações, pergunto-me qual a razão para não ser assim em Lisboa?
Do Absurdo
P.S. - Ainda me lembro da cena palermiana (de palerma e não de Palermo), que envolveu carros disfarce a alta velocidade, que a super-procuradora protagonizou nas ruas desta cidade quando veio ao Porto tratar deste caso.Ridículo. E ninguém se demite...
20080714
Autonomia
20080710
Do Apoio Judiciário e Dos Advogados Estagiários
Ultimamente tem sido deveras abundante o fluxo de notícias nas quais o M. I. Senhor Bastonário da Ordem dos Advogados divulga as suas opiniões acerca do apoio judiciário e da participação dos advogados estagiários naquele sistema.
Usando um pouquinho do direito de resposta que ainda temos permitam-me tecer os seguintes comentários/desabafos...
O nosso sistema judicial já viu melhores dias e do prisional nem se fala, quanto a isso creio que estaremos todos de acordo.
E a verdade, a sermos realmente sinceros, é que o apoio judiciário em Portugal não existe.
Ou será que alguém sabe realmente explicar convenientemente aquelas fórmulas intermináveis derivadas de outras e de outras ainda que determinam se um cidadão terá ou não direito a uma das diversas modalidades de apoio judiciário previstas na renovada Lei 34/2004?
E, francamente, não podemos esperar que o n.º 8 do art.º 8.º-A da dita lei venha resolver todas as iniquidades, pois não?
Isto para não falar do facto de, ultrapassados todos estes obstáculos, e vendo concedido o apoio judiciário na modalidade pretendida, (bom, sejamos sonhadores) na modalidade mais ampla da dispensa de custas e encargos com o processo, o cidadão não ter direito a escolher o seu defensor ou o seu patrono e ter que se contentar com o que lhe é apresentado/concedido.
Sejamos honestos, a possibilidade que a velhinha lei permitia de substituir o patrono nomeado por outro da escolha do patrocinado, contanto que este aceitasse o patrocínio oficioso, era muitíssimo mais justa, não? Se nos tocasse a nós, não gostaríamos de escolher o responsável pela nossa defesa ou pelo patrocínio da nossa causa em tribunal? Eu posso confessar-vos que sim, sem dúvida gostaria de escolher o meu ad vocatum.
E eis que quanto a isto, também eu entendo que não só o M. I. Senhor Bastonário, mas todos nós Advogados e Advogados Estagiários temos obrigação de pugnar por uma melhor defesa dos direitos e interesses legítimos de TODOS os cidadãos, de TODOS os seres humanos.
Quanto a isto, até os próprios cidadãos que tanto se têm indignado, junto com o M. I. Senhor Bastonário e contra ele, e mesmo os que têm ficado indiferentes a toda esta polémica porque lhes é externa e entendem que apenas a nós, advogados, diz respeito, todos têm obrigação de exigir aquilo que é o seu direito constitucionalmente consagrado de aceder em plenas condições de igualdade aos tribunais e ao sistema judicial, à Justiça, enfim.
Ora, a meu ver, nada do que vem de ser exposto significa que os advogados estagiários devam ser excluídos do sistema de apoio judiciário.
Os advogados estagiários são adultos, licenciados em Direito, quando não tenham já obtido qualificação académica superior, que se sujeitaram a uma triagem a que a própria Ordem dos Advogados chama "Fase de Formação Inicial", nos termos do seu Regulamento Nacional de Estágio (RNE).
Ao longo desta fase, que dura aproximadamente seis meses, o advogado estagiário frequenta sessões de formação promovidas pela Ordem do Advogados e simultaneamente acompanha o escritório do patrono, de molde a tomar conhecimento das práticas forenses e a, de alguma forma, familiarizar-se com os procedimentos e actos que virá mais tarde a praticar, se finalizar esta primeira fase com sucesso, na "Fase de Formação Complementar".
No final da "Fase de Formação Inicial" o advogado estagiário submete-se a três exames relativos às matérias que a Ordem dos Advogados considera essenciais para que possamos prosseguir para a segunda fase, que constituem a prova de aferição. Obtendo classificação positiva nos três, estaremos então aptos para aceder à "Fase de Formação Complementar".
É o próprio RNE que, no n.º 2 do seu art.º 2.º estatui: "A fase de formação inicial destina-se a garantir a iniciação aos aspectos técnicos da profissão e um adequado conhecimento das suas regras e exigências deontológicas, assegurando que o advogado estagiário, ao transitar para a fase de formação complementar, está apto à realização dos actos próprios de advocacia no âmbito da sua competência.”.
Assim sendo, muito se estranham agora as afirmações que o M. I. Senhor Bastonário vem reiterando no sentido da impreparação dos advogados estagiários para as tarefas forenses que lhes são cometidas.
Tanto mais que os advogados estagiários, nos termos do art.º 189.º da Lei 15/2005, de 26.01 (Estatuto da Ordem dos Advogados - EOA), têm competência limitada, no âmbito penal, a causas da competência do tribunal singular, ou seja, salvo raríssimas excepções, a causas em que o crime sub judice seja no máximo punível com pena de prisão até cinco anos, e, no âmbito civil, a causas da competência dos tribunais de primeira instância ou de tribunais menores e em processos de divórcio por mútuo consentimento. Tudo salvo se acompanhados efectivamente pelo respectivo patrono, caso em que terão competência para qualquer acto.
Atento o que vem de se expor procure-se então responder à pergunta: Mas será que efectivamente existem pessoas que se encontram presas por causa dos advogados estagiários?
Não sei. Depende, como diria um Professor meu da faculdade.
Com certeza já terão havido situações em que um estagiário não fez o seu trabalho como o deveria ter feito por inexperiência. Mas com certeza também já existiram situações em que não fez o seu trabalho como deveria ter feito porque simplesmente é humano. E afinal, ser humano não é algo que se possa ultrapassar com um estágio.
E qual será o advogado que nunca teve nas mãos um caso sobre uma matéria totalmente nova para si?
Além disso, quantas vezes não terão já os advogados estagiários visto o seu trabalho comprometido pela falta de informação prestada por um cliente ou patrocinado, como, de resto, todos os advogados? Quantas vezes terão esperado por documentos em vão, como todos os advogados?
E as não raras vezes em que os advogados estagiários se dedicam com garra às causas que defendem, e as estudam e obtêm bons resultados para os seus patrocinados, por vezes contra todas as expectativas?
E, por fim, quanto às pessoas que estão presas... Lamento perguntá-lo, mas... Será que não deveriam tê-lo sido? Algumas, pelo menos… Será uma prisão injusta, uma má defesa?
Em suma, devemos lutar pelo acesso ao Direito e aos Tribunais, é um direito e um dever de todos. No entanto, os advogados estagiários não podem servir como "bode expiatório" para os males do sistema do apoio judiciário, sob pena de o seu núcleo, aquilo que é verdadeiramente importante não se alterar.
Uma maior ou menor qualidade do patrocínio forense depende, em última análise, de diversos factores, e não só da idade, da experiência, ou de um apêndice no título. Existem bons advogados estagiários e maus advogados estagiários tal como existem bons advogados e maus advogados, e isto quer no patrocínio oficioso quer na praça, e depois, há uma série de factores que podem determinar que um bom advogado numa área não o seja noutra, as variáveis são infindáveis...
Afinal, não nos esqueçamos, os advogados de hoje já foram advogados estagiários, assim como nós, advogados estagiários, seremos os advogados de amanhã.
Com os melhores cumprimentos
A Advogada Estagiária
Andreia J. P.
Aeroporto do Porto: Junta Metropolitana, AEP e ACP unem-se na defesa de gestão privada autónoma
Estudo defende que infra-estrutura não deve ser incluída em monopólio privado.
Consórcio Sonae/Soares da Costa já fez chegar ao primeiro-ministro estudo sobre gestão do aeroporto. Mais uma vez, autonomia em relação ao aeroporto de Lisboa é a opção defendida.
O consórcio Sonae/Soares da Costa já fez chegar ao primeiro-ministro, José Sócrates, o estudo que elaborou sobre a gestão privada do Aeroporto Francisco Sá Carneiro (AFSC). E os resultados, de acordo com o presidente da Junta Metropolitana do Porto (JMP), Rui Rio, vai no mesmo sentido dos que esta entidade já mandara realizar: "É decisivo que haja autonomia [de gestão] no Aeroporto Francisco Sá Carneiro, que este não seja integrado num monopólio privado". O líder da JMP e presidente da Câmara do Porto falava no fim de uma reunião da Junta com representantes da Sonae/Soares da Costa, da Associação Empresarial de Portugal (AEP) e da Associação Comercial do Porto (ACP).
Da próxima vez que José Sócrates ouvir falar na necessidade de não submeter o AFSC à gestão da ANA é bem provável que o apelo seja feito a várias vozes. A JMP, ACP e AEP acordaram, ontem à tarde, "lutar por este princípio e, a partir de agora, caminhar em conjunto", esclareceu Rui Rio.O próximo passo será enviar ao primeiro-ministro uma carta, assinada por representantes das três entidades, a explicar isso mesmo e algo mais que o autarca não quis, para já, adiantar. "Vamos dizer-lhe que aceitamos o desafio por ele lançado e que temos interesse em fazer parte do debate sobre o futuro do aeroporto", disse Rio, referindo-se ao facto de Sócrates ter admitido que, desde que a região mostrasse capacidade para uma gestão autónoma do AFSC, estava disponível para analisar essa possibilidade.
Ontem, Rio voltou a defender que a integração do AFSC num monopólio da ANA (que incluiria ainda os aeroportos de Lisboa e de Faro) seria prejudicial à Região Norte. "Nesse contexto, o Aeroporto Francisco Sá Carneiro ficará sempre subordinado a uma lógica de investimento do aeroporto de Lisboa e não do Norte", justificou.
O líder da JMP também não se deixou intimidar pelos resultados de um estudo encomendado pela ANA, dando conta que os privados poderiam ter que esperar vinte anos, antes de obter qualquer lucro com a gestão do AFSC, e que, mesmo assim, seria necessário um acréscimo de passageiros na ordem dos 4,6 milhões de pessoas. "A ANA continua sem nos dar os elementos desse estudo. Pedimo-los há muito tempo, mas continua sem os fornecer", começou por dizer, antes de ironizar: "Se o estudo da ANA é como diz, se o aeroporto dá tanto prejuízo e é um peso tão grande para a ANA, ainda bem que há alguém disposto a pegar nele. Que grande negócio que a ANA tem pela frente."
A JMP encomendou estudos à consultora Deloitte e à Faculdade de Economia da Universidade do Porto que apontavam no sentido da gestão público-privada, com capitais locais, ser o melhor modelo para o AFSC. A entrega da gestão exclusivamente a privados, desde que autonomizada da restante rede aeroportuária, foi considerada pela FEP como a segunda melhor hipótese. O empresário Belmiro de Azevedo já declarou que gerir o AFSC lhe interessa numa vertente exclusivamente privada.
A assinatura dos representantes do consórcio Sonae/Soares da Costa não irá constar da carta a enviar ao primeiro-ministro. Tudo porque a JMP, a ACP e a AEP não querem ficar presas à defesa de um projecto de um grupo económico, explicou Rui Rio. "Estas três instituições não apoiam, em concreto, uma proposta de um grupo económico, mas um objectivo", disse. Ainda assim, ressalvou: "O consórcio Sonae/Soares da Costa dá-nos o conforto de sabermos que há quem possa levar isto avante."
Público - 10.07.2008
20080709
Redução do IVA
Após a redução do IVA, a taxa praticada nos Açores e Madeira passou a ser de 14%, voltando a ser a taxa de IVA mais baixa praticada na União Europeia. A Madeira volta assim a ser a região da UE com o sistema fiscal mais competitivo, e talvez venha a recuperar alguns dos investimentos perdidos nos últimos 2 anos.
A redução do IVA seria sempre uma boa notícia. Mas para as regiões autónomas é uma óptima notícia.
O País dos Gabinetes de Veludo
(*) «A administração da universidade está localizada em Braga sendo a maioria das actividades científicas e académicas são desenvolvidas em dois pólos: o campus de Gualtar, em Braga, e o campus de Azurém, em Guimarães. Os cursos nas áreas das Ciências, Ciências Sociais, Economia e Gestão, Letras, Direito e Ciências da Saúde estão predominantemente sediados em Braga, enquanto que Arquitectura e a maior parte dos cursos de Engenharia são leccionados em Guimarães.»
20080708
República das Bananas
Alguém é capaz de explicar a lógica desta política? Medina Carreira tem razão, isto são uma cambada de trafulhas. Isto já não é incompetência, isto é um puro roubo!
Os casos citados abaixo, Portalegre, Linha do Douro, e muitos outros não interessam a ninguém?! Nem na República das Bananas!
20080707
Lei dos rendimentos marginais decrescentes
Na sexta-feira, Cavaco Silva disse que membros da Assembleia Municipal de Portalegre lhe pediram duas vulgares estradas para combater o isolamento da região: Apenas solicitaram vias de comunicação com um custo pequeno quando comparado com obras muito avultadas que têm vindo a ser anunciadas . E acrescentou: Determinados pequenos investimentos têm uma rentabilidade muito mais elevada do que grandes investimentos. - Camilo Lourenço (Jornal de Negócios - 07.07.2008)
Não é só em Portalegre. A reabilitação da linha do Douro custa 11 milhões de euros, menos de 1% de qualquer uma das linhas do TGV / CVE. Alguém tem dúvidas que a rentabilidade do capital investido na linha do Douro seria muito superior?
Aeroporto Francisco Sá Carneiro mantém crescimento acentuado
O Turismo no Norte começa a atingir o nível de massa crítica. Para quando um Plano Estratégico nos destinos de city break: Porto e Braga?
20080704
Por um sindicalismo independente
Outro dia ocorreram as eleições para a Comissão de Trabalhadores da empresa onde trabalho. Havia 3 listas. A dos trabalhadores comunistas, a dos trabalhadores socialistas e a dos trabalhadores sociais-democratas.
Perante a indecisão de decidir qual das listas melhor defenderia o interesse do respectivo partido político junto da minha entidade patronal, votei nulo.
20080703
Para os meus amigos do Norteamos
Mais um argumento para «os» chamar de «mouros», enviado por CCz:
No mundo árabe: "The classical consumer city is a centre of government and military protection or occupation, which supplies services – administration, protection – in return for taxes, land rent and non-market transactions. Such cities are intimately linked to the state in which they are embedded.
The flowering of the state and the expansion of its territory and population tend to produce urban growth, in particular that of the capital city.
In
Between 1000 and 1300 Europe acquired an urban system dominated by typical producer cities, which prospered in spite of
Arab cities at this time were, by contrast, heavily influenced by strong, predatory states that could, and oftentimes did, impose a heavy tax or military burden on the cities in their realms. Under these predatory regimes it was typically only the capital city thrived, with this honour shifting from Baghdad to Damascus, Fez, Cairo and finally to Istanbul."
Retirado daqui.
20080702
Não existe xenofobia em Portugal II
Mas enfim, que mais se poderia esperar de alguém que ressabia nos seus posts utilizando títulos como "Aviso à tripeiragem ressabiada"?
Adenda: Interessante teria sido notar que, no lado que defendia as vantagens de um país não subsidio-dependente, ambos eram do Porto. Sintomático, não?
20080701
Gestão da ANA pode levar 20 anos a ter lucro no Aeroporto Sá Carneiro
1- Um problema de falta de ética
Surgiram notícias, no Expresso do dia 21/06/2008 e no Diário Económico de 23/06/2008, em que se afirma que a gestão privada e autónoma do aeroporto Francisco Sá Carneiro seria deficitária. Os textos publicados sustentam-se num suposto Estudo encomendado pela ANA à Boston Consulting Grupo e à Universidade Católica Portuguesa.
Este estudo apenas foi disponibilizado a estes 2 jornais. A mais nenhum foi mostrado, e muito menos ao grande público. Comportamento típico de quem gere as empresas públicas como se fossem suas. A ANA, como empresa pública, e dado o teor do documento, tem a obrigação de o disponibilizar, para que esta possa ser escrutinada pela comunidade científica e empresarial, pelos órgãos de comunicação social, bem como pelo público em geral, tal como aconteceu com os estudos encomendados pela Associação Comercial do Porto e a Junta Metropolitana do Porto.
Este comportamento é, pelo que sabemos, recorrente nas nossas "elites" governantes. Já na discussão do aeroporto da OTA, eram citados estudos não publicados (e da mesma forma, grande parte dos estudos contrários à OTA foram retirados...)
Acrescente-se ainda que nada é dito sobre a data da elaboração do estudo e que, ao que sabemos, o estudo poderá mesmo nem sequer existir. Cabe à ANA demonstrar o contrário. Sob pena de começarmos todos a citar estudos da "prestigiada" Fundação Richard Zwentzerg...
2- Não são os privados que demoram 20 anos a ter lucro, é a ANA.
"Com base no activo líquido e montante equivalente à sua remuneração, ee o aeroporto operasse de forma independente desde 2008, apenas em 2028 seria compensado" (todas as citações são da edição em papel do Diário Económico)O Estudo não avalia qual o impacto de ter uma gestão mais eficiente (baseada em benchmarks internacionais), ou no potencial adicional de sinergias através da sua ligação a outros negócios. Apenas avalia quais os resultados o aeroporto teria caso fosse gerido de forma independente pela mesma entidade que o gere actualmente, a ANA. Portanto, a única conclusão que daqui se pode retirar é a que dá título a este post: a gestão da ANA demorará 20 anos a ter lucro no Aeroporto Sá Carneiro.
3- A gestão independente e fora do "universo" da ANA é benéfica para os contribuintes
"Uma gestão independente teria como resultado um aeroporto altamente deficitário, que necessitaria de subsídios com recurso ao Orçamento de Estado"Esta afirmação é simplesmente implausível. Se o Aeroporto Sá Carneiro é deficitário, a sua concessão implica automaticamente a redução de um encargo para o Estado. Pelo contrário, implica uma receita adicional. (Nota: não se sabe se o Aeroporto Sá Carneiro é ou não deficitário, pois a ANA recusa-se a disponibilizar as contas por aeroporto).
4 - Um estudo que revela falta de conhecimentos básicos de Finanças Empresariais
"Com base no activo líquido e montante equivalente à sua remuneração (...) apenas em 2028 seria compensado".Usar a remuneração do activo líquido como indicador pressupõe que, para o proponente a concessionário, é relevante saber qual o valor que a ANA investiu no aeroporto, mas irrelevante o Valor (VAL) desse investimento. Ora, é precisamente ao contrário que as coisas funcionam. O investimento inicial é um custo afundado, já aconteceu. O relevante é qual o seu valor hoje. E, se hipoteticamente a ANA gastou 500M€ no aeroporto e só espera reaver 400M€, fica a ganhar se um concessionário lhe oferecer 450M€.
5- Ausência de uma política de investimentos racional na ANA
Tendo em conta que o Aeroporto Sá Carneiro tem superado fortemente os objectivos traçados pela ANA para este aeroporto, a ser verdade que o Aeroporto tem resultados negativos, isso significa que a ANA fez investimentos nos quais já sabia à partida que iria perder dinheiro, ou que os fez sem avaliar o seu retorno potencial.
6- Um tiro no pé. A ANA deveria ter aceite a proposta da Ryanair.
"O estudo ponta ainda que, para o aeroporto atingir proveitos teria de ter um "acréscimo teórico de 4,6 milhões de passageiros"A proposta da Ryanair de criar uma base no Aeroporto implicava cerca de 3,5 milhões de passageiros adicionais. Ficava a faltar 1 milhão. A ANA não aceitou a proposta porque desconhece o conceito de custo marginal... (ver ponto seguinte).
7- Uma proposta de política de preços totalmente desadequada.
"O estudo prevê aumentos de 165% no preço médio cobrado por passageiro em
(...) taxas aeroportuárias."
Tendo em conta que o custo da infraestrutura é um custo afundado, e que os custos da sua manutenção são na sua maioria fixos, chegamos à conclusão que o custo marginal de mais passageiros é aproximadamente zero. Logo, para maximizar o lucro, o importante é maximizar a receita. E tendo em conta a capacidade de crescimento disponível, a solução mais adequada é a prática de descontos de quantidade através de sistemas de rappel (como foi proposto pela Ryanair).
Tendo ainda em conta os preços praticados pelos aeroportos mais próximos (Lisboa e Santiago), mas também nos mercados de city break concorrentes, uma redução dos preços em 5% poderia resultar num crescimento do número de passageiros mais que proporcional. Logo, mais lucro.
Subir o preço, apenas quando o aeroporto estiver próximo do seu limite de capacidade. O aeroporto Sá Carneiro é um aeroporto receptor e não emissor. Não tem mercado cativo. Logo, a estratégia proposta não faz sentido. Que a ANA pense o contrário é muito revelador. E é mais uma razão para querer uma gestão independente.
Em resumo, a conclusão a retirar é a oposta da que titula a notícia. A conclusão é que só fora do universo da ANA pode o aeroporto tornar-se num activo gerador de valor tanto para o seu operador (concessionário), para a região (maior crescimento económico) e para o Estado (maiores receitas).
Adenda: Para referência, cito aqui alguns links de resposta a este estudo:
"O presidente da ACP, Rui Moreira acha bizarro e paternalista que ao mesmo tempo que se queixa do défice operacional da unidade do Porto, a ANA se oponha tenazmente a que ele seja concessionado isoladamente. "Se o activo é deficitário, a ANA e o seu accionista deviam deviam aplaudir a sua concessão. É que a empresa passa a valer mais sem ele", diz Rui Moreira.
A ACP nota que os estudos da ANA são feitos segundo a sua lógica de gestão, sem atender a outros cenários eventualmente mais virtuosos e lucrativos. Por exemplo, um grupo como a Sonae pode potenciar os resultados do "centro comercial" em que se transformaram os aeroportos." - Expresso
"É intolerável que administração da ANA opte pela opacidade em vez da transparência e que não faculte os resultados do seu modelo de gestão", acusou o professor (Aberto Castro) durante uma conferência de imprensa da ACP." - Expresso
"Não sei se existe esse estudo, o que existem são algumas contas que a ANA fez, que nos enviou e que nem sequer batem certo". (...) Segundo o autarca (Rui Rio), a notícia "é inábil do ponto de vista político porque, ao dizer que a gestão privada do aeroporto dará enormes prejuízos, permite à JMP dizer que aceita a gestão mesmo com esses prejuízos. A nossa lógica nunca foi financeira. Entendemos que o que está em causa é o desenvolvimento económico regional e não uma mera contabilidade de deve e haver", afirmou. - RTP