Defendi aqui um traçado litoral da ferrovia Porto-Minho-Vigo (PMV). O governo parece continuar a insistir no traçado interior e a ignorar a ligação ao ASC. Assim, na sequência do trabalho de António Alves, gostaria de acrescentar alguns tópicos a esta discussão reforçando a necessidade do traçado litoral a sul de Braga e no final fazer um apelo de cidadania.
Historial
O CVE Porto-Minho-Vigo não resulta de reclamações ou necessidades do Norte. Resulta sim de uma orientação estratégica da UE cedo antecipada e imposta por Espanha à administração central nacional. A nossa verdadeira necessidade seria ligar o Norte ao centro da península, via linha do Douro ou Aveiro-Salamanca. Mas como o Norte fica permanentemente a ver os electricos a passar, anestesiado com as vitórias do FCP, a administração central acaba por fazer o que quer, por iniciativa própria ou por suspeita e estranha insistência galega.
Ferrovia
Apesar de imposto não podemos negar o interesse. Temos o «Peak Oil», alterações climáticas e eco-taxas. A ferrovia é mais barata do que a rodovia, quer para passageiros quer para mercadorias. Com petroleo a encarecer, esta competitividade será reforçada. Por outro lado a liberalização prevista para o sector, que futuramente permitirá ter comboios da Renfe ou SNCF a operar nas vias nacionais, é provável que os peços fiquem ainda mais competitivos. O PMV custar tanto como hoje custa Porto-Coimbra em AP e eventualmente assutar a procura não terá grande significado no futuro. Lembremo-nos que a A28 Porto-Viana vai ter portagens e que genericamente o combustível rodoviário encarecerá nos próximos anos. Daqui por 5 anos os preços serão equivalentes. A propósito disto, eis um ralato recente da realidade em França: Sarkosi «propôs também um programa de investimento no sector dos transportes, nomeadamente para a construção de 2 mil kilómetros de novas linhas de TGV até 2020 (…) Em Paris, 1.500 km de vias para eléctricos será construída, contra os cerca de 400 existentes hoje. A ferrovia será privilegiada em relação à rodovia, sobretudo para o transporte de mercadorias a longas distâncias, limitando-se a expansão de mais autoestradas e aeroportos. Existirá uma taxa sobre os camiões pesados.» A ferrovia está então a renascer. Os críticos dos investimentos ferroviários deviam pensar 2 vezes antes de criticar: O PMV é um AlfaPendular, um simples comboio de velocidade elevada (CVE) e não uma megalomania da «capital do império».
Solução
Dado que aparentemente é uma decisão irreversível e faz sentido, há que potenciar o PMV através de um bom traçado. Na minha opinião, este deverá conseguir atingir os seguintes objectivos:
· Permitir a criação de uma linha sub-urbana, rentabilizando assim o investimento;
· Potenciar procura do ASC, alargando a sua área de influência/atracção/receitas através de uma ligação ferroviária directa ao Minho/Vigo e através da passagem do AlfaPendular que vem de Coimbra/Aveiro em direcção a Braga;
· Potenciar o desenvolvimento do turismo do Minho, distribuindo para norte do ASC os turistas da Ryanair, (tal como o Metro do Porto o faz para sul);
· Permitir resolver erros de planeamento do Metro do Porto e criar «jurisprudência» na expansão deste;
Assim, a solução é um traçado litoral pelo menos a sul de Braga, replicando a Norte a lógica da linha da Azambuja!
O canal da Linha da Azambuja a Norte
A linha da Azambuja é um dos ramos da CP Lisboa que liga Alcantara-Terra em Lisboa a Azambuja, próximo de Santarém. Como se pode ver nos mapas acima publicados, tem cerca de 53 km de extensão e 23 paragens: 8 paragens nos 10km a sul da Gare do Oreinte e 14 paragens nos restantes 43 km a norte desta estação. Daqui dá para ver que a frequência de paragem dentro da cidade de Lisboa é cerca de 1,25 km, enquanto for a é de 3,1 km. Dá para perceber, portanto, que esta linha tem um comportamento quase de metropolitano de superficie em canal próprio em Lisboa e de comboio suburbano fora. Alguns videos com os seus exóticos comboios aqui e aqui. Este canal tem outra particularidade: Tem um caracter circular sobre a cidade de Lisboa, como se pode ver no mapa, sendo também usada pelos CVE/AlfaPendular nas deslocações deste para/do Algarve. Ora, consegue-se, neste canal ferroviário, coexistir CVE com combio suburbano, que por sua vez executa funções claramente urbanas, de metro de superficie. É precisamente essa a minha (e do António Alves) sugestão para a AMPorto. Os mapas lado a lado são auto-explicativos. O caminho correcto é aproveitar a ligação a Vigo em CVE para criar um novo ramo sub-urbano da CPPorto, em direcção a Barcelos ou mesmo Viana, que desempenhe também funções de (semi-)circularidade urbana dentro da cidade do Porto, via ramal de Leixões e canal da linha Vermelha, tornando até desnecessários alguns investimentos do Metro do Porto.
Consequências para o Metro do Porto
Os erros de planeamento da rede do Metro do Porto só tem paralelo com o seu sucesso operacional:
· Ligação Trindade-Campanha matou a utilidade da estação de S.Bento; Aliás, se os comboios da CPPorto parassem em Campanhã, S.Bento ficaria vazia;
· Foi ignorado o ramal da Alfandega, canal/túnel pronto a usar entre Campanha e Alfandega;
· A linha para Gondomar canibaliza a procura as linhas da CPPorto dado que serão 50% coincidentes; O acesso ao estádio do Dragão poderia ser feito através de apeadeiro das linhas Porto-Braga ou Porto-Guimarães;
· A ligação ao aeroporto em metro cria o actual desincentivo a novos investimentos ferroviários nessa direcção;
· Ligações a Vila do Conde/Póvoa do Varzim e Trofa tem carácter sub-urbano, não deviam ser servidas com a frequência e composições de metro de superficie;
Assim o uso do ramal de Leixões para a ligação Campanhã-ASC assim como a transformação do canal da Linha Vemelha até Modivas ou Mindelo para a utilização pelo CVE PMV e por nova linha sub-urbana da CPPorto para Barcelos/Viana, teriam as seguintes consequencias para o Metro do Porto:
· Linha Vemelha seria reduzida apenas ao miolo urbano Vila do Conde/Póvoa do Varzim, deixando portanto de ser continua. Quem quisesse seguir para o Porto a partir da foz do Ave teria que fazer um transbordo em Modivas ou Mindelo para o novo sub-urbano da CP Porto;
· O facto de o Metro do Porto operar linhas não contínuas geraria «jurisprudência», nomeadamente para expansão do Metro para a zona do Vouga. Assim, haveria então 2 linhas descontinuas, Vila do Conde/Póvoa do Varzim e Espinho/Oliveira de Azemeis (upgrade da linha do Vouga), ambas conectadas aos comboios sub-urbanos da CPPorto;
· Adicionalmente, consegue-se circularidade dentro da cidade do Porto, muito mais barato do que o proposto pelo estudo megalomano da FEUP, onde se propunha gastar meia OTA na expansão do Metro. É bom sinal reconhecer-se que o Metro não pode resolver tudo (nem deve, digo eu);
· A linha Violeta para ASC ficaria um investimento duplicado, apesar de diminuto, revelando que foi um erro.
Cidadania
A definição do traçado do PMV será um teste à maturidade de muitos actores locais, regionais e nacionais. Faço então um apelo ao consenso:
· Rio Fernandes, blogue VimaraperesPorto: Parem de fazer fretes ao vosso partido e governo e deixem de defender o traçado interior; Já ninguem vos livra de terem defendido a OTA, contra os interesses do Norte. Não repitam o erro;
· AMPorto, AMTransportes, CCDRN: Os lugares remunerados e sem risco ninguém vos tira. Agora melhorem o planeamento de infra-estruturas;
· FEUP: Por alguma razão se diz nos paises anglo-saxónicos que «Não deixem os engenheiros sair da fábrica/laboratório». Proponham projectos, PINs tecnológicos. Não se envolvam em planear cidades ou redes de transporte. Deixem isso para os economistas, geografos ou urbanistas;
· Jornalistas do JN, Público, 1ºJaneiro, PortoCanal: Um jornalista e professor universitário numa conceituada faculdade americana de jornalismo dizia sobre a profissão: «Se fossem inteligentes, não seriam jornalistas». Não será melhor ler a Blogosfera antes de inundarem o MSM com asneiras e repetição acéfala de ideias pouco aprofundadas ? Não tem tempo para ler Blogosfera ? Recomendo o GoogleReader com subscrição do Norteamos;
· Senhores da MotaEngil e SoaresdaCosta que tem com principal cliente o MOPTC e indirectamente os nossos impostos: Em vez de 1 ou 2 obras grandiosas com estilo estalinista e explicações freudianas, pensem alternativamente em N pequenas obras que resolvam efectivamente os nossos problemas e que acabem por vos dar carteira de negócios sem onerar os nossos impostos. Lembrem-se que aquilo que para voçês é negócio, para o resto da população são impostos. Esquecer isto está a criar pobres, emigrantes e muito má imágem para o lobby do betão; De qualquer modo, o aproveitamento do ramal de Lexões não excluí algumas obras de maiores dimensões como por exemplo uma ligação por túnel entre o nó VCI/final da A3 e Campanhã, evitando assim o «serpentear» por Rio Tinto;
· Bracarenses: Apoiem o traçado litoral do PMV: Garante-vos o acesso directo ao aeroporto. Em Braga anda meio mundo a berrar contra a centralização do turismo no Porto e agora tem a hipotese de captar na origem os turistas da Ryanair;
· Minhotos: António Marques (AIMinho) pede ao governo o traçado com passagem no ASC; presidente da câmara de Guimarães (PS) pede um traçado que exclui Braga do CVE dando oportunidade para a ferrovia Barcelos-Braga-Guimarães. Va lá. Entenda-se mas não se aliem a Lisboa desta vez;
· Exportadores, AEP, AIMinho, CCIP, Dr Moreira: É preciso lobby na mercadorias, para além do ASC; O Peak Oil está ai; É necessário activar rapidamente exportação de mercadorias por via ferroviária; A existência de um único canal Porto-Braga privará o transporte de mercadorias de horários suficientes;
· Director da CP Porto: Apresente-se não sabemos quem é ou se existe! A sua cara tem que ser conhecida como a de Valentim ou Oliveira Marques.
· Senhores autarcas da AMPorto: Parem de interpretar as ferrovias como um forma de ajudar os vossos amigos imobiliários: Licenciamento de novas construções cresce à boleia do metropolitano. Encarem as redes de transporte como aquilo que são: Transportar com eficiência os vossos eleitores;
· MOPTC: Deixem de ter inveja do Porto ou Norte: Não é pelo facto de o CVE chegar ao ASC e de tornar a região mais competitiva, que equilibra a balança fortemente pendente para Lisboa desde há décadas. Se fôr necessário deixar para uma 2ª fase a ligação ASC-Camapnhã, muito bem, aceitamos. Por cá não é necessário novoriquismo. Basta eficiência. Revejam os estudos da Fase, por favor.
· Blogosfera e concidadãos em geral: O fim da OTA deveu-se sobretudo a vocês e à sorte de estarmos numa crise de crédito para grandes obras e numa recessão que fará cair a procura de transporte aéreo. A cidadania não deve terminar por aqui. Há muitos projectos onde um blogue ou cidadão esclarecido e munido de propostas sensatas e realistas pode fazer a diferença e assim assegurar melhores investimentos públicos, garantindo um melhor futuro colectivo. Repitam o lobby que resultou no fim da Ota; Mais responsabilidde menos aleinação futebolística, por favor!
PS1: Também não tenho terrenos para valorizar em função do traçado.
PS2: Elaborar este texto consumiu várias horas subtraídas à minha esfera pessoal e profissional. Solicito aos leitores a divulgação do link junto de contactos pessoais e institucionais.