Rui Moreira, no Público, recentemente acusou os que defendem a passagem do TGV pela margem esquerda do Tejo (i.e., pela margem sul), de quererem prejudicar o Norte.
Infelizmente, creio que Rui Moreira baralhou várias coisas importantes.
Primeiro. Lisboa será sempre uma cidade de destino final em qualquer linha de TGV. Portanto, discutir a passagem do TGV pela margem sul não tem a ver com o acesso a Lisboa, tem a ver com a ligação ao futuro aeroporto em Alcochete, que ainda tenho esperança que venha a ser cancelado, e à linha para Madrid.
Acontece que também é verdade que se se optar por fazer o TGV andar pela margem sul/esquerda, igualmente se pode fazer a ligação a Lisboa mais a Sul, em Alhandra seria provávelmente o melhor local; deste modo se pouparia muito dinheiro, que faz falta para outros projectos e, se não for para outros projectos, para outros pontos de uma rede ferroviária moderna. Com essa ligação, poderia poupar-se esse erro crasso que é a 3ª travessia do Tejo no Barreiro, ainda por cima ferro-rodoviária, e podia permitir-se a passagem do TGV de Madrid para Lisboa, pelo menos numa primeira fase, pela mesma ligação (Alhandra). Com pouca perda de tempo, segundo dizem os especialistas e com grande poupança de recursos financeiros para o Estado (que é como quem diz, para nós todos). Os erros, politicamente motivados, de quem nos tem andado a impingir essoutras soluções caríssimas, não merecem que se confundam desta forma simplista questões essenciais com questões secundárias... O TGV Porto Lisboa dificilmente será rentável; não é por se pretender que se faça com subordinação a Alcochete que se torna rentável, nem que se inviabiliza a ligação ao Norte. O problema está noutro lado; em primeiro lugar no transporte de mercadorias; em segundo, na ausência de ligação de Pedras Rubras à linha Porto (Braga)-Vigo; finalmente na asneirada da ligação proposta para o Barreiro.
Segundo, a ligação do aeroporto de Pedras Rubras à rede de TGV é uma urgência que devia mobilizar o Norte. Infelizmente, isso não está a acontecer. Do mesmo modo, e por razões inversas, não faz muita falta ligar a linha do norte de TGV a Alcochete. Mas se a linha passar por lá antes de se dirigir a Madrid, não se perde grande coisa...
O erro, o maior erro de toda esta discussão, continua a estar em centrar o debate no transporte de passageiros. Esse é um favor que se faz aos interesses de quem quer impor o TGV sem pensar em rentabilização de investimentos, em relações de custo-benefício e em escassez de recursos.
Do que Portugal precisa e o Norte por maioria de razão, é de uma rede de transporte de mercadorias em bitola europeia. É isso que a RAVE e outras autoridades competentes tem esquecido. É disso que os partidos não falam. Será essa a maior consequência, negativa, das redes que nos andam a impor. E que as nossas empresas exportadoras pagarão muito caro...
Assim como é um erro calamitoso não separar a Ana por aeroporto, antes de a privatizar. É por aqui que se movimentam os interesses dos futuros monopólios público-privados; é por aqui que tem se conduzir o ataque.
É possível um Portugal melhor. Basta querer.